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De como aprendi a amar os juros altos (portulanos 3)

julho 18, 2011

Amigo Hermê, até essa crise começar em 2007 eu era um franco acusador da incompetência vendida do BACEN em se recusar a baixar os juros. Em 2008 me tornei, como você bem sabe, um defensor entusiasta da política de juros altos do BACEN. O que eu chamo de Modelo MaMei, em homenagem aos seus involuntários criadores Mantega e Meireles. Não pelas razões pelas quais ela é discursada, mas pelos seus reais impactos.

Pensemos com a nossa burrice pragmática de quem sonha coisas claras. Juros atendem a três papéis:

  • para quem poupa vs consome, a relação da criança com o marshmellow, se o come ou se espera por mais um brinde.
  • para quem os paga, um custo no processo de produção/investimento;
  • para quem os recebe, uma renda.

Ao manter a SELIC alta, duas coisas são atendidas. A primeira, principal delas imvho, razão pela qual o Brasil escapou da crise, é que a SELIC alta cria um patamar razoável de remuneração para quem recebe rendas. Não só pessoas físicas que fazem tesouro direto, como fundos de pensão e assemelhados tem uma renda risk free alta o bastante para não se preocupar com ginásticas e inovações que permitam extrair alguns pontinhos de rendimento adicional numa mesma faixa de “risco”. Qual seja, aqui ninguém precisa ficar chamando urubeta de meu alfa, investindo em produtos inovadores com sólidos modelos matemáticos por trás para conseguir manter seu fluxo de renda. A SELIC é o bolsa-família das elites e do mercado.

Os juros altos têm uma segunda conseqüência, perversa, porém com algumas consequências positivas. Eles eliminam idiotas que não conseguem gerar grande rentabilidade. As empresas no Brasil têm margens de lucro absurdas, o que as torna resistentes a eventuais choques. Dirá você que isso é uma sacanagem com o consumidor, e eu direi que sim. Uma sacanagem como o preço de um cafezinho na Suécia. É o welfare do empresariado. Mas é a garantia de que, bem ou mal, os incompetentes não entram e os negócios não são destruídos com tanta facilidade.

Por outro lado, parte significativa do investimento está em outra taxa, a TJLP. E a TJLP tem uma peculiaridade que nenhuma outra taxa tem: ela vem com due diligence. Pois se noutras partes do mundo o capital flui sem complicações e burocracias custosas e demoradas, aqui no Brasil os empresários são obrigados a viver no Templo da Diligência que é o BNDES. A beleza disso é que se investimento (isto é, aquisição de máquinas, modernização de instalações, greenfields) então o capital existe a custo baixo, livre dos ditames de curto prazo a da percepção limitada de risco do mercado.

O problema que se tem hoje é que as barreiras à entrada de dinheiro de fora, que não é necessário para o país hoje, são muito baixas. E isso faz com que o câmbio seja afetado, achatando as margens das empresas que cá estão (mas tendo um belo efeito anti-inflação).

Noutras paragens voltarei a essa questão das peculiaridades do modelo brasileiro

Koan Marx (paragem 2)

junho 27, 2011

Se encontrares Marx, critica-o(s).

Valerie Solanis de novo no quarto andar

dezembro 8, 2010

Vocês já repararam como Assange lembra, de certa forma, Warhol?
A acusação de “estupro” parece saída direto do SCUM Manifesto.

piada genial de uma colega

outubro 27, 2010

“Não dá para escapar da Dilma. Dia 31 é dia das bruxas.”

Fato é que antes de dia das bruxas virar uma festa por aqui eu frequentava entusiaticamente a festa de halloween no saudoso Cubatão. Tenho, inclusive, um morcego que era usado na decoração dessas festas (não foi surrupiado, mas memorabília que ganhei no último dia).

O próximo será muito celebrado.

Um pressentimento sobre o pré-sal

outubro 31, 2009

Tem umas semanas que o Hermê postou isso e ninguém comentou.

Maio de 2009. Escrevi esse texto um pouco antes de ver o filme do Peter. Circulei-o entre meia dúzia de amigos, entre os quais o Hermê, que fizeram uma ou outra pergunte. È texto~: não há links. Deixei-o decantar e cá está:

Outro dia, na minha imersão usual na web, concebi uma narrativa sobre a próxima década. Em termos simples: a exploração do pré-sal pode vir a ser um dos maiores erros que a economia brasileira possa ter cometido em sua história.

Hoje, final da primeira década do século XXI, dois fantasmas pairam sobre a indústria do petróleo, dois fantasmas que anunciam sua morte em algum momento deste século. Não são fantasmas desconhecidos, mas assim como na relação entre o cigarro e o câncer (para usar um exemplo bastante conhecido), muita gente tem a negação dessas hipóteses como um cavalo de batalha ideológico ou como um ganha-pão. Mas para apreciar o argumento que construirei, é necessário que se aceite duas premissas:

a)   que o aquecimento global é uma realidade crescentemente aceita e os governos em algum momento tomarão medidas orientadas por essa percepção. Qual seja: não importa se o leitor crê ou não no aquecimento global (entendeu, Luciano), basta apenas admitir a hipótese de que os governos tomem medidas tendo o aquecimento global como justificativa.

b)  que o petróleo, tal como o conhecemos, “picou”. Qual seja: a produção de petróleo tenderá a cair no futuro. Ou se manterá estável por um bom tempo com pressões crescentes de demanda, o que dá no mesmo. Outros formatos de energia a base de carbono fóssil, como xisto e carvão, não são petróleo, mas soluções caras tendo em vista os problemas ambientais adicionais que sua produção e seu emprego trazem (em parte, isso se soma à premissa anterior).

A primeira hipótese é mais ou menos consenso, salvo para alguns setores conservadores cuja aversão aos ambientalistas é maior do que a sua capacidade de aceitar o consenso da ciência. A segunda, digamos assim, corre a boca pequena na comunidade de energia. Não é o tipo da coisa que os governos gostem de tratar, pois os danos à qualidade de vida que o pico do petróleo pode provocar chegarão bem mais cedo que os do aquecimento global.

Hoje praticamente nada da política econômica, seja do Brasil (não adiante colocar no PAC aquecimento solar para casas quando se implanta termoelétricas a carvão num dos países do mundo que mais pode prescindir delas), seja dos demais países, leva essas premissas em conta. Mas até a entrada da década de 20 deste século estes assuntos estarão influindo decisivamente na formulação tanto da política fiscal quanto da de desenvolvimento, seja aqui, seja nos EUA.

Despossuídos poderosos

A quase totalidade das reservas de petróleo do mundo está hoje nas mãos do estado, seja através de empresas suas, seja através de parcerias com o setor privado nas quais o estado tem um poder discricionário bastante significativo. Isto pode ser um problema para quem crê no discurso ideológico da perfeição do mundo privado, o que não é o caso deste que cá escreve.

No entanto, o fato de que as reservas de petróleo hoje estão na mão do estado é um  problema para a indústria. Basicamente, se as empresas americanas (e européias) não mais estão bebendo o milk-shake de árabes, africanos, venezuelanos e, futuramente, brasileiros, se não há uma relação de exploração (no duplo sentido do termo), também não há interessados em manter essa exploração. Qual seja: hoje, e, principalmente, daqui a alguns anos quando a produção do Mar do Norte tiver colapsado, há uma divisão entre os países que produzem petróleo e os que o consomem. E essa divisão não se dá só na geografia: ela se dá na posse e no controle desses recursos e de seus ganhos.

Portanto, um aumento do petróleo quer dizer uma transferência clara de renda dos países consumidores para os países produtores. Os produtores nos países consumidores são cada vez menores. Os “exploradores” (no sentido Galeano da palavra) têm cada vez menos espaço, são cada vez mais raros.

O pico do petróleo deve fazer o preço disparar. Conseqüentemente, essa transferência será cada vez maior, a menos que alguma coisa mude. E como Paris bem vale uma missa, as bases que sustentam a ideologia do livre mercado nesse campo irão se esvanecer em função de valores mais importantes. Como o poder de compra dos eleitores, a necessidade de lhes dar renda e a pressão por mercados para o Mercado.

Trocando as Taxas

Voltemos ao aquecimento global. Toda uma fantasia se desenvolve para criar a ilusão de que pela via de mecanismos de mercado irá se reduzir o consumo de combustíveis fósseis e se gerar incentivos para soluções que removam o carbono da atmosfera. Nos 90, no apogeu da ideologia dos mercados como solução para tudo que foi a belle époque Clinton, cap’n trade se afigurou como a solução para se manter a lógica do mundo ao mesmo tempo em que se resolvia o problema. E na era Bush, os impostos eram o Mal. Atravessando a crise que estamos, no entanto, acho que a fé nos mercados começa a desmoronar, que a aversão ao estado começa a ceder, e que uma taxa sobre combustíveis fósseis virá a ser instituída.

Independente de ser taxa ou cap’n trade, algum mecanismo em que um custo seja imposto sobre a utilização de combustíveis fósseis e a renda conseqüentemente transferida ao estado (tributante ou vendedor de direitos) será adotado. Claro que, privadas dos confortos que o uso desses combustíveis hoje permite, as pessoas ficarão bastante zangadas. Algum agrado ou alívio terá que ser feito.

Dois séculos atrás, exportações e importações eram o local fácil (e corriqueiro) para o estado obter tributação. Hoje, essas taxas caíram praticamente em desuso, com impostos sobre rendimentos e sobre valor agregado/comercialização de produtos sendo as principais fontes de renda dos estados.

Nada impede que mudanças venham a acontecer na área de tributação. Nada impede que a tributação sobre combustíveis fósseis venha a se tornar uma grande fonte de renda para os estados. Assim como a tributação que conhecemos sobre o cigarro, que visa reduzir seu consumo e seus males por tabela (e produzir uma boa receita pela relativa inelasticidade do produto), a tributação sobre o petróleo pode ser uma solução para estados em crise fiscal por conta das medidas que serão tomadas nos próximos anos para reduzir a atual crise econômica. O aquecimento global é um belo (e sincero pretexto) para justificar esse deslocamento de taxas. A redução das outras taxas uma forma visível de mostrar que o Estado está reduzindo seu peso sobre o bolso das empresas e cidadãos.

“Mas isso vai provocar uma grande inflação”, diz um amigo. Bem, ante a necessidade de se produzir taxas de juros negativas, de se impedir uma deflação nas economias em crise do mundo desenvolvido, um choque inflacionário de curto prazo seria “a feature, not a bug”. E daria uma justificativa moral à estagflação que algumas dessas economias passarão.

Antevejo, num prazo não tão longo assim, um deslocamento de taxas. Haverá resistências, haverá pressões da indústria do petróleo. Mas hoje esta está sozinha. Ela só tem dinheiro, mas não tem mais uma significativa clientela de trabalhadores, fornecedores e outros setores da economia (automóveis, por exemplo) vinculados ao seu destino. Cleópatra se depara com Otávio.

Andando para a frente

Peguemos especificamente o caso americano. Há uma maciça destruição criativa para ser feita nos EUA. Não só no estoque de capital nas mãos das empresas, mas nos bens de capital que estão nas mãos da população. As casas onde habitam os americanos, os veículos que permitem que eles trabalhem e comprem, não são compatíveis com o novo mundo do pós-petróleo. Há que se refazer essa equação energética, há que se sucatear muito desse capital.

A transformação dos EUA de uma sociedade aquecida e movida a carvão e petróleo para uma sociedade adaptada a fazer uso mais intenso de mecanismos de conservação de energia e de energias derivadas do sol e da natureza (e aqui não se leia nenhum romantismo ou idealismo bicho-grilo), me parece ser o salto político, tecnológico e produtivo a ser realizado na próxima década. E para que isso aconteça, é necessário que as novas tecnologias tenham uma proteção que tornem-nas competitivas. É necessário que haja recursos para custear seu desenvolvimento e subsidiar a etapa inicial de sua massificação. É necessário que o estado americano não tenha problemas sérios de caixa, de contas externas, ao mesmo tempo que não exerça um footprint significativo sobre o combalido bolso do consumidor americano.

Cabe observar que energia nuclear tal como concebido atualmente não é uma solução. Vários problemas: os preços do combustível atuais refletem a demanda reduzida que há hoje; não há o que se fazer com os resíduos (vide, para tomar um exemplo recentíssimo, o virtual cancelamento do projeto Yucca no orçamento de Obama); e, last but not least, basta um único acidente numa usina do leste europeu para que o pânico se instaure e a indústria vá por terra. E isso sem contar os problemas de proliferação, de restrições à disseminação tecnológica no setor etc.

Adicionalmente, não creio que as formas alternativas de geração de energia em discussão no cenário atual possam, por algumas décadas, se comparar à praticidade, ao volume e ao preço que os combustíveis fósseis permitem hoje. Os projetos de biomassa exigiriam uma quantidade descomunal de água e terra. Projetos de energia solar ainda apresentam os mesmos transientes entre as expectativas nas planilhas dos engenheiros e a realidade de custos e eficiência, tal como aconteceu com a energia nuclear, fora o problema da estocagem de energia. Qual seja: não acredito que uma forma venha a se tornar hegemônica tal como o binômio petróleo-carvão num horizonte próximo. Fontes alternativas de energia não se firmarão por custo individual, mas por decisão política que leva em conta o custo global.

E o que vale para os EUA, vale em boa parte para o restante do mundo desenvolvido.

A queda de braço

Suponhamos que o preço do petróleo, que reza o missal ajusta demanda e oferta, seja dividido em 3 componentes: o custo, a diferença entre seu custo e o custo de quem está com “água pelo nariz”, e o que deveria propriamente se chamar de lucro. A primeira parte, o nome já diz, é custo. A segunda parte é de quem é no fundo o dono, isto é, crescentemente dos estados-nação.

A questão é quem fica com a terceira parte. Numa situação em que o pico do petróleo é uma realidade palpável, a terceira parte tende a ficar cada vez mais significativa. No entanto, numa situação em que os estados estarão reprimindo o consumo de petróleo – e portanto colocando taxas que tomam um naco dessa terceira parte – e em que os estados não têm o menor compromisso com os donos do petróleo (que são outros estados-nação), por que não ficar com essa terceira parte toda? Por que não impor uma tributação que virtualmente liquide com os lucros até o ponto que só reste a produção suficiente para atender à demanda desejada? Perceba-se que para muitos produtores, que estão fora da linha d’água, isso ainda permitirá operar com ganhos significativos (a segunda parte da Árabia Saudita é enorme), mesmo que numa situação onde os custos de exploração são cada vez maiores e as incertezas em relação ao setor altamente desestimulantes ao investimento.

A questão que se coloca é: e quem está na linha d’água? Esse, em alguns momentos, estará afogado.

Meu pressentimento, mau pressentimento

Se o quadro acima vier a se realizar, o Brasil estará fazendo um péssimo negócio com o investimento no pré-sal, talvez o maior passo na direção contrária ao desenvolvimento que já tenhamos dado. O que na cabeça das pessoas é um novo ciclo do ouro, é só um esforço gigantesco de investir naquilo que terá uma importância reduzida no futuro, reduzida à beira da criminalização. O Brasil tem tradição nisso: fomos a última grande economia escravista. Nós e, sintomaticamente, o sul do EUA.

O petróleo do pré-sal será o nível máximo da piscina. Ou será extraído com prejuízo, ou será tributado até a alma. Qualquer esforço nosso de pressionar o mercado gerará, basicamente, ganhos para os produtores cuja geologia os tornou mais eficientes.

Um bom exemplo que temos hoje é a questão do álcool. Como somos praticamente o único produtor, a exportação do álcool brasileiro é pesadamente tributada, ou como proteção e ou, simplesmente pelo fato de “e por que não fazê-lo?”. Ou, para usar um exemplo local, o fato de que o petróleo é praticamente a única coisa sobre a qual não se cobra ICMS: praticamente só o Estado do Rio produzia petróleo quando da Constituinte.

No curto prazo, esse capital investido gerará muitos empregos, muitos ganhos para os setores de mecânica pesada e contrução civil, muita especulação imobiliária em Macaé etc. Mas 2030 não será 2010. Não é o gasto por si só que moverá a economia em 2030, mas a conseqüência do gasto. Se não, teríamos um perfeito moto-perpétuo, e qualquer gasto, por mais estéril que seja, seria válido (há quem acredite nisso – especialmente os devotos do gasto militar – mas não me incluo entre eles). Em 2030 há uma boa chance de termos nas mãos uma grande pirâmide, não no sentido Madoff mas no sentido Queops. E as pirâmides, lembro, eram estruturas concebidas para enterrar pessoas, mortas e vivas, em função de uma projeção sobre o futuro.

Os recursos que serão enterrados pelo Brasil na continuação do século XX seriam necessários para uma melhor inserção no século XXI. A aposta internacional que estaremos fazendo estará na contra-mão do fluxo das idéias, dos valores, das ações dos grandes atores. Infelizmente nossos olhos continuam presos ao presente, voltados à repetição da maldição das commodities que é a nossa fixação em narrar a nossa história econômica como uma sucessão de ciclos exportadores. Ninguém quer sequer admitir que o pré-sal possa entrar no vermelho. Sonha-se em ser uma nova Arábia Saudita, um lugar onde dinheiro jorra fácil do chão. Este é um bom projeto individual para meia dúzia de agraciados pela fortuna, mas uma ambição muito modesta para um país das dimensões e da complexidade do Brasil.

O jardim dos concursos que se bifurcam

julho 8, 2009

Lá no meu amigo Hermê vem um par de discussões envolvendo funcionalismo público, salário etc. Bem, alerto que sou um membro lato senso do funcionalismo concursado da União. E acho que o vasto público não consegue, digamos assim, ter uma visão formal do processo de escolha que leva ao caminho público ou ao privado. Façamos de conta que somos todos fgvistas defendendo um ponto do estrito interesse do mercado, qual seja, modelemos (mas sem chegarmos em equações, pois eu sou um lazy barnabé que não sabe fazer essas coisas no wordpress).

Uma vez concluídos os estudos, o futuro profissional tem duas opções:

Opção 1 –  setor público: o concursado recebe uma perpetuidade, sem grandes variações ao longo do tempo. Qualquer variação mais significativa vai depender do schmérito (categoria que será explicada posteriormente em outro post) do funcionário. A proposta é atraente porque permite construir uma vida estável e de qualidade logo de cara. Mas, salvo corrupção, não há scalability alguma, para usar o termo do Taleb. É aquilo e ponto final, até a morte. Em alguns momentos o poder aquisitivo cai um pouco, mas após alguns anos se recompõe, portanto, suponhamos a estabilidade até a morte.

Opção 2 –  setor privado: o trainee, profissional liberal ou o que quer que seja o formato com que pessoa se encaixe no mercado, recebe uma remuneração, por vezes chamada de salário. Essa remuneração tem uma variância maior que a do setor público. Essa remuneração tem uma incerteza maior que a do setor público – as chances de desemprego são maiores. Essa remuneração exige algum tipo de poupança para cobrir a aposentadoria.

A princípio, o valor presente da série no segundo caso deve ser maior do que no primeiro. Há um prêmio de risco a ser pago aos que estão no mercado. Há certamente outros fatores intervenientes (como por exemplo, os benefícios simbólicos e de satisfação que fazem com que pessoas virem professores universitários ou perversos semelhantes), mas deixemos eles de lado para não complicar o modelo. Portanto, bastaria (aparentemente) fazer-se um pequeno estudo para verificar se o modelo acima é pertinente, e qual seria o prêmio de risco pago pelo mercado (ou verificar que o setor público paga absurdamente, pois a série do funcionário público seria maior).

Admitindo que a série privada seja mais valiosa, os dois fatores que suponho explicariam a opção entre um caminho e outro poderiam ambos ser definidos como o maior conservadorismo do optante pelo setor público, que consideraria a incerteza maior que a do grupo que optou pelo mercado; e/ou que descontaria o futuro com uma taxa maior.

Bem, para começar, e aí é que está parte significativa do problema dessa discussão pelo grande público, em qualquer estudo de verificação de uma hipótese como a descrita acima a comparação não deve ser feita entre membros de uma profissão (digamos formados em direito) mas entre alunos da mesma turma (pessoas formadas em direito na UFRJ em 90, por exemplo). Por que? Porque a comparação tem que ser feita entre material humano equivalente e, creio, há uma diferença entre Oxford e a Bolívia. A questão está em comparar a escolha de life plan de um indivíduo (lembrem-se, somos fgvistas, quem sabe até Mises-em-cínicos), e não cair em generalidades de botequim.

Nunca vi um estudo construído assim, comparando escolhas de carreiras entre iguais (quem tiver visto, feito cá no Brasil, me informe). Não adianta dizer quanto ganha um promotor versus um advogado médio, mediano ou modal. IMO, o serviço público não recruta, nem deve recrutar entre os “m”s (e aqui sei que provavelmente vai aparecer o espirito santroll reclamando do meu elitismo na minha caixa de comentários). Se o objetivo for esse, façamos a abolição do concurso e institua-se a loteria para escolha dos funcionários públicos (particularmente, a loteria é meu método predileto para contrapor alguns casos de schmérito político e corporativo, mas isso é outro post).

Você quer que seu juiz seja alguém que entrou no serviço público por qual processo, concurso ou sorteio?

PS: para aqueles que acreditam que o salário de entrada poderia ser menor, eu dou dois argumentos: não costuma haver diferença significativa entre o trabalho dos razoavelmente novos e dos experientes, o que, portanto, acabaria sendo uma discriminação contra os mais novos; e, cinicamente, uma vez que o cara já está costumado a um padrão, as chances dele pular fora do setor público para ganhar mais (a menos que seja MUITO mais) torna-se cada vez menor, e, portanto, foda-se o funcionário público tem agora filhos e desejos, o salário é esse e é isso aí – você optou pela segurança e não por férias em Bali e carro bacana, como aquele seu colega de turma que trabalha num banco privado.

IMVHO, a melhor forma de prover o setor público dos melhores profissionais possíveis e fazer concurso em momentos de retração econômica. Pagando o melhor flypaper possível.

Está faltando um Bill Gates

maio 13, 2009

Para muitos, Bil Gates é o mal. Para mim, Bill Gates é um grande sujeito que trouxe a comoditificação do computador. Não me interessa se a solução B ou C teria sido melhor: o fato de que um padrão existe e que as pessoas não estão sendo barradas a produzir naquele padrão torna o mundo muito mais eficiente em termos de escala de produção. Entre um bonsai na mão de Brian Arthur e uma floresta, fico com a floresta.

Mas vamos ao caso: o carro elétrico. A questão que se coloca para a generalização do carro elétrico é o seu curto alcance. No entanto, essa noção de alcance parte da premissa que o carro elétrico deverá ser reabastecido como um automóvel. Mas suponhamos que o carro elétrico, ao invés de ser simplesmente reabastecido numa tomada, possa trocar de bateria? As pessoas trocam o bujão de gás ao invés de enchê-lo, por exemplo.

Isso permitiria grandes ganhos de eficiência na reciclagem de baterias, na adoção de modelos novos e mais eficientes, na entrada de novos produtores com preços mais competitivos.

O que impede? Basicamente, o fato de que trocar as baterias seria uma operação complexa. Mas e se os carros seguirem um padrão em que as baterias estejam na mesma posição de fácil troca? E se você puder chegar num posto e em 2 minutos trocar suas baterias por outras carregadas e continuar sua trip na route 66?

Habemus Chávez

novembro 10, 2008

Não vou entrar aqui numa discussão mais longa de história ou sociologia. Meu argumento, de forma simples e desossada, é o seguinte:

1) O serviço público concursado é a forma possível de ascenção à classe média (ou a um determinado tipo de posição de elite) num país que é patrimonialista até a alma. O mercado, ha ha ha, o mercado…

2) Conquistando seu acesso por mérito, essas pessoas tendem a ter uma certa hostilidade em relação à aqueles que usam e abusam do mundo patrimonialista.

3) Por vezes, esses setores – cujo acesso é, em teoria, universal; cujo contato com a população é maior que o das elites patrimonialistas (já que parte vem da própria população sem patrimônio) – se insurgem.

4) Outrora, quando esse tipo de instituição tinha alguma relevância para o mundo público, época de ouro do standing army ou do warfare state como esqueleto da nação “protegida”, o exército era o local onde esses insurretos se localizavam. Tenentismo, estudamos no colégio. Hugo Chávez, para trazer um exemplo mais contemporâneo.

5) No mundo complexo de hoje, no entanto, o estado se funda em outras coisas que não a ação do poder público em avenidas largas e e bem desenhadas. A condução dos assuntos do mundo privado passou a exigir cada vez mais qualificações técnicas complexas. Portanto, forças armadas não são mais o foco principal de atração dessas pessoas tecnicamente qualificadas.

Isso prá dizer a seguinte coisa: há em curso hoje um processo de rebelião latente do mundo técnico-concursado contra o patrimonialismo que persiste na sociedade brasileira. Há uma revolta não estruturada das classes médias quanto à corrupção e à desordem. Quando essas duas coisas se encontrarem..

Leio que num ato de inominável estupidez, ao invés de criar uma situação em que Dantas fugiria um tempo, cumpriria um tempo e se aposentaria, ou simplesmente faria um disrespect the Bing tal como Palocci e o caseiro, partiu-se para tentar desmontar de vez a Satiagraha. É um equívoco de grandes proporções. O que poderia ser resolvido com uma dúzia de cabeças, num belo processo catártico como foi a da Comissão de Orçamento, -quando um punhado de parlamentares foi sacrificado mas a máxima de Tancredi se manteve na república fundada por Tancredo – vai se transformar numa afronta.

Assim com Juscelino e seus opositores, que só tinham olhos para 1965, o presidente Lula e seus opositores fariam bem em perceber que 2014 e 2010 não estão com lotação esgotada. A votação de Gabeira no Rio foi um sintoma disso. Num mundo em que as avenidas largas ganharam outros usos, o presidente Protógenes pode vir a ser a surpresa política da próxima década.

red herring

setembro 24, 2008

A crise não é do setor financeiro. As subprimes são só uma das pontas do Iceberg. A crise é a economia americana que cresceu duas décadas na base do consumo das famílias (sem contrapartida de crescimento de renda, ou seja fordismo financiado a juros módicos e prazos infinitos) e gasto do estado. Óbvio que essa fantasia vai estar presente no discurso dos economistas: eles vivem disso. Mas é fantasia, discurso que se faz para não se encarar a verdade.

Qual seja: os US$ 700 bilhões de Paulson são para a estatização das dívidas dos americanos como um todo, e não só de um relapso, inconsequente ou criminoso setor financeiro. Não que eles sejam inocentes, mas também não são culpados. Foram só o agente da irresponsabilidade coletiva, a wermacht financeira dos willing executioners do capitalismo americano. O que se passa agora é algo como a estatização da dívida externa por Delfim, o estado americano assumindo a carga e as culpas perante o mundo como forma da economia não desmontar.

O monetarista que há dentro de mim sabe que isso resultará em inflação e em destruição da moeda, das expectativas de longo prazo. O marxista sabe que nesse processo as instituições americanas – que foram construídas por um processo histórico expansão permanente – ver-se-ão sujeitas à interpretação do profeta Daniel. E o keynesiano sabe que, no desenrolar dessa crise, a classe dos burocratas terá sucedido à dos empresários, relegado esta e os austríacos, de Hayek a Schumpeter, ao mundo micro, mundo de alfas microscópicos.

(sem saco nesse momento para sair pondo links)

 

PS: acabei me esquecendo de postar, e eis que a Yves me sai com um post muito bem acertado sobre a crise.

Um uso para Bill e Melinda

setembro 17, 2008

Imaginemos que por algum milagre Richad Stallman ou Lawrence Lessig virasse guru de Bill e Melinda. Não para a microsoft, que tirando os excessos do Vista vai muito bem, obrigado. Tudo que o mundo precisa agora é da reconfortante estabilidade das blue screens of death, de um mundo imperfeito mas que, bem ou mal, funciona. Um mundo do qual se reclama, mas confiável. (Mas deixemos de conservadorismo fusquinha por enquanto)

Bill e Melinda, que junto com Buffet fizeram o que é o mais notável exemplo da filantropia empresarial da história, ao invés de dar dinheiro apenas para programas de vacinação ou financiar instituições de pesquisa, poderiam ser a semente do fim do sistema de patentes na área de saúde. Como?

  1. A Fundação passaria a financiar pesadamente – a fundo perdido e provavelmente com grandes contrapartidas de recursos públicos – empresas de pesquisa e universidades.
  2. As empresas e e universidades participantes assinariam um termo de compromisso na linha do creative commons. Qualquer patente derivada teria que obedecer a mesma licença.
  3. Qualquer empresa no mundo poderia produzir os remédios patenteados nesse sistema sem pagar royalties.

Com isso, o processo de desenvolvimento de pesquisa médica poderia seguir para linhas não patenteáveis (ex: novos usos de remédios), e empresas indianas de genéricos poderiam permitir ao terceiro mundo acesso rápido e barato às inovações.

Isso não impediria as empresas de lucrarem com viagras ou outras drogas recreativas que venham a desenvolver.