Archive for the ‘pílulas vermelhas’ Category

À moda de Reflexões (1)

outubro 5, 2010

“In today’s post-political democracy, the traditional bipolarity between a Social-Democratic Center-Left and Conservative Center-Right is gradually being replaced by a new bipolarity between politics and post-politics: the technocratic-liberal multiculturalist-tolerant party of post-political administration and its Rightist-populist counterpart of passionate political struggle… The key question now is who will articulate this discontent? Will it be left to nationalist populists to exploit? Therein resides the big task for the left.)”

Zizek, introdução de Living in the end of times

Os Currais de Cristo

outubro 4, 2010

Jabuti não sobe árvore. Movimentos como este, não captado pelas pesquisas, não decorrem de nenhuma onda. Ondas são antevistas e precisam de energia e tempo. Movimentos destes podem ser reflexos de alguma catástrofe (o atentado em Madrid, por exemplo). Ou de algo mais sombrio.

Celso e Azenha podem ficar na confortável ilusão de que a Marina verde tenha alguma relevância nesse resultado. Engano. A Marina verde era os 10% de até semana passada. O restante é essa outra Marina, a conivente com o criacionismo, para ser gentil. O restante é uma demonstração de força de igrejas evangélicas, do culto no sábado e no domingo. César Maia, com a brilhante lucidez que se permite quando não está rodando bolsinha e promovendo antas, cantou esta pedra. Não há como ser ingênuo quanto a isso. Esses votos não são de Marina, mas do Senhor.

Nesta hora eu me pergunto como Sirkis e Gabeira estão se sentindo. Talvez venham em breve a se sentir como Adam Michnik e Jacek Kuron vendo a agenda fundamentalista católica oprimindo no campo da vida biológica após a derrubada da ditadura polonesa. Porque é disto que se tratou o voto, a submissão dos corpos. Esqueçam a clivagem direita-esquerda, que esta é uma dinâmica cujo poder explicativo é cada vez mais reduzido no mundo contemporâneo. A tragédia de agora é outra.

O kudzu do pentecostalismo americano plantou raízes aqui, e não só no futebol. Não há que se ter ilusões românticas. Rebanhos são rebanhos, inocentes sob a ilusão do cuidado de seus pastores, que neles só vêem couro e carne.

O enterro da república de 46

setembro 10, 2010

A menos que um cisne das trevas incendeie-se em caos, Dilma está eleita no primeiro turno. Há vários ângulos a serem explorados nesse resultado que se aproxima, surpreendente para alguns, mas que para mim é bastante óbvio. Tem um amigo meu que queria até fazer apostas, mas apostas são coisas que não fazem parte do meu axé. Digamos ele é pago para crer, eu para cumprir meu horário. Mas conversava em maio com esse amigo que a eleição já estava decidida, e que as pesquisas que ele citava… as pesquisas, como as agências de risco, só mostram o passado imediato. E um passado amarrado à estrutura de suas perguntas. Um poste com luz, por vezes, portanto. Em inglês, lembro, poll pode tanto ser pesquisa como votação… mas voltando ao amigo, ele via Serra crescendo em Minas, pesquisas muito secretas etc e tal. Violação do quarto mandamento de Notorious BIG, claramente.

Em 1982 eu fazia uma pesquisa (engenharia, não política) numa fábrica que havia cá no Rio, nas cercanias da avenida Brasil. Fábrica de centenas de operários. Antes mesmo das pesquisas (eleitorais) retratarem a movimentação, os operários da fábrica já estavam decididos a votar em Brizola, para surpresa de nós, universitários moradores de bairros litorâneos. O proletariado tem uma percepção distinta das coisas – há que se respeitá-lo nisso (ele lá, eu cá). Os anos seguintes provaram o ridículo onfalocêntrico do PT carioca de então, quando em fins de 1985, um obscuro operário, tendo, se não me falha a memória, a professora Miriam Limoeiro por vice, obteve menos votos que o Partido Humanista na eleição para prefeito. O PT carioca nunca foi lá grande coisa, tendo servido seguidas vezes como esparro das composições políticas do PT nacional. Mas dá pra se votar nele com uma certa tranqüilidade, coisa que se pode dizer de muito poucas legendas cá do Rio.

O ensinamento que ficou foi: circule. Olhe as pesquisas com cuidado. Veja se as perguntas fazem algum senso. Reflita sobre os resultados à luz da teoria, da história. Perceba que o novo não é fruto da vontade de algum ator específico, mas do inesperado ou do longamente maturado. Que a decisão do eleitor vem da exclusão, dança das cadeiras, resta um, e não necessariamente paixão clubística. O que quer dizer que, tal como percebo, identificação partidária quer dizer pouco ou nada no Brasil, mas as vantagens de um incumbent bem sucedido e claramente percebido como tal são nítidas.

Um dos sintomas da modernização da política brasileira é esse. A eleição em 1996 dos obscuros e defeituosos Conde e Pitta mostravam a clara capacidade de um governo razoavelmente bem sucedido de eleger o poste que bem entendesse. E nem César nem Maluf tinham a popularidade, a abrangência de aceitação que o presidente Lula tem.

Derrotar o presidente Lula dependeria deste desejar ser derrotado. Tanto Juscelino quanto FhC desejavam ser derrotados para retornarem triunfantes, seja como presidente em 65, seja numa reedição em bases permanentes da solução parlamentarista de crise institucional de 1961 quatro décadas depois. Lula não. Lula, na sua simplicidade de quem sabe o seu papel simbólico, de quem vem de um mundo de reais pares – o chão de fábrica-, e não de um mundo de pares hierárquicos do reino – a torre de marfim, a oligarquia -, não tem dependência orgânica da bajulação. A lenda diz que ele gosta de coisas simples: mulheres, álcool, futebol. Por vezes até demais, diz-se. So what? Fato é: Lula decidiu que não ia perder. Ao fim e ao cabo, Lula é o PT, um partido com o grave defeito de insistir em agir como partido no sentido estrito num país em que a forma partido tem uma fluidez, uma malemolência típica destes trópicos. Como bom Mick Jagger ele sabe muito bem que fora da banda ele não dura seis meses, e que se a banda sofrerá sem ele, sem a banda que lhe dá suporte ele acaba. E ele nem precisou nos submeter às crueldades como She’s the boss para perceber isso.

Derrotar o presidente Lula dependeria de fechar-se uma coalizão forte em torno de uma candidatura da oposição, uma coalizão que incluísse todo mundo e mais o PMDB, que em si é um mundo à parte com regras de coalizão muito específicas e confusas. O PMDB é um partido-costela: paga-se pela peça inteira mas metade dela é osso. Mas do PMDB falo outra hora. Fato é que a oferta que o PT fez ao PMDB – a vice-presidência de uma chapa favorita nas eleições de um governo popular que está no poder – é uma oferta difícil de ser batida. Para o PMDB, um partido que como a falecida DC italiana tem facções locais tão fortes e bem instaladas que sequer consegue estabelecer uma delas para concorrer à presidência, só a convergência total das oposições atrás de um candidato do próprio partido serviria. Sem isso, as tentações fragmentam o partido. E aí, haja ossos na peça, que continua sendo paga ao quilo, por ambos os lados.

Mas o ponto que dá título a este post é outro. A eleição de Dilma é o enterro do mundo do pré-64. Serra e sua entourage do Partidão (Aloísio, Goldman, Freire) são os remanescentes físicos e institucionais do que foi um mundo do pré-64. Não são continuidades familiares-oligárquicas, como o clã dos Gomes, os Neves, os Sarney, os Caiado e outros tantos. São continuidades de um modelo de fazer política, de relações com a massa da população que não cabe mais num mundo em que os processos de comunicação se pluralizaram e o papel estruturador das classes médias desapareceu.

A partir de 80 o PT (e de um ponto de vista secundário e regionalizado, o PCdoB) passou a ser o foco atrator tanto do movimento operário quanto da juventude de esquerda. O Partidão, que abandonara qualquer perspectiva de ação material para “levar o barco devagar” e conseguir bom convívio, boa posição no jogo político, perdeu qualquer capacidade de cooptação de voluntários. Virou uma clique, um empreendimento familiar. Laços do passado unem pessoas que pertenceram à organização. E se muitas dessas pessoas saíram oficialmente do campo da esquerda têm tempo (César Maia, por exemplo), outros (os Casseta, por exemplo) só são contraditórios para quem não quer perceber. “Because of the kids. They called me Mr Glass” – não se chamava na universidade no início dos 80 a “Reforma” de “A Direita” à toa.

Essa estratégia fazia sentido num mundo político em que uma pequena elite, convivendo nos mesmos espaços urbanos, com as mesmas referências e a não mais que três graus de separação controlava a vida intelectual e política do país. Qualquer biografia de alguém nascido antes dos sessenta vai mostrar isso, o tamanho reduzido e a imbricação dessas elites com sua classe média. Mas o mundo tornou-se complexo demais, diversificado demais, cheio de gente das mais diversas origens demais.

A era das classes médias clássicas acabou. É sintomático que os órgãos de sua doutrinação, a imprensa que chomsquianamente inventa agora as violências do sigilo violado – essa profanação tão sem sentido para quem ganha um único salário, somente salário, não mais que salário-, estejam tão desesperados. Uma imprensa que nunca conseguiu ser de massa, que não consegue incorporar o discurso cultural popular que não seja de forma atrasada, caricata e paternalista. O Padrão Globo de Qualidade não tem lugar num mundo cada vez mais plural. Sintomático que os (ex-)devotos do dirigismo socialista tenham vindo se juntar a ele, servi-lo tão entusiasmadamente.

A irrelevância simbólica vem se juntar à irrelevância numérica dessas classes médias. O povo está solto (ele lá, eu cá, obviamente). Mas o povo hoje tem que ser manipulado diretamente. Fazê-lo através das classes médias não funciona mais. Os medos que movem essas classes médias são quase incompreensíveis para a grande massa. E antes de perceber isso, Folha e Globo, Estadão e Partidão, estarão mortos. Outros tipos de manipulação virão, não tenham dúvida. Mas conduzidas por outras pessoas físicas e, provavelmente outras pessoas jurídicas. Este é o desespero das pessoas e instituições que, herdeiras de um mundo em que o jornalista Carlos Lacerda comandou os carnavais que comandou, vêem um mundo de Lulas e Chávez a bypassá-los, ignorá-los.

Dos 4 candidatos que apareceram no debate da Band, 3 eram oriundos do PT. Isso é o sintoma de uma hegemonia, como as diferentes facções do que foi o MDB de São Paulo que governam o estado há quase três décadas, como Marcelo, Garotinho e César, cisões da árvore do brizolismo. Há que se prestar atenção nisso para se pensar de onde pode vir uma oposição eleitoralmente viável no futuro.

O que a polícia estava fazendo lá?

outubro 23, 2009

Madrugada. A van desce a Ponte e constata que há uma blitz. Desvia (não tinha me dado conta que aquela van era pirata), corta por uma rua, por outra, mas um carro da polícia a espera. Um par de policiais. Um deles avisa aos passageiros que há uma ameaça, que o pessoal do Rio de Janeiro iria invadir as favelas de São Gonçalo. Discursa calma, sensata e longamente sobre a situação de segurança. O outro caminha para lá e para cá com o cara da van. Menos de 10 minutos depois a van está liberada e seguimos. O bom senso típico dos políciais cá do estado (e aqui não vai ironia), ante a uma van lotada de trabalhadores, estudantes e boêmios querendo chegar logo em casa, permite que aquela pequena contravenção continue. Passados o episódio e alguns minutos, eu comento, para o motorista e meia dúzia de gatos pingados remanescentes: “os caras precisam mostrar serviço”. O motorista resplica: “Eles querem o do cafezinho. O chato é que eles só gostam de café espresso, daquele caro”.

Enquanto isso, clama-se por mais recursos para segurança, anuncia-se que estão orçados mais recursos, promete-se mais recursos, fala-se que os recursos existentes para segurança não são usados. Parodiando Naomi Klein, vivemos sob “A Doutrina de Achaque”.

Em menos de uma semana, na voracidade de nosso news cycle, no entanto, a PM foi de Nascimento a Zero-um. Se no final de semana passado Lula e Gilmar expressavam seu choque, agora o comandante pede desculpas porque a “A PM errou”, o que prá mim soa por demais ato-falho.

IMVHO, há um equívoco generalizado na cobertura da imprensa do episódio. Ao invés de ficarmos escandalizados com a violência no Rio, e questionarmos a incompetência da ação da polícia, que tal fazermos a seguinte pergunta: o que a polícia estava fazendo lá? Pode parecer absurda a pergunta, eu sei, mas:

– A polícia não foi lá para expulsar traficantes do Morro dos Macacos. Foi para impedir que traficantes de uma facção rival fossem para lá. Louvável, tirando o fato que lá já há uma sólida presença de traficantes. Portanto, ao cercar o morro, a polícia poderia apenas garantir que determinado grupo de traficantes não viria a ocupar a área.

– Mas ao impedir a invasão, a polícia estaria a defender a população da favela dos efeitos colaterias de uma guerra de quadrilhas. Louvável, fosse esse tipo de ação o padrão da polícia. Não é . Em geral, a polícia não intervem nesses casos.

– Dias depois, parece que o pessoal do Morro dos Macacos invadiu o morro adjacente. E daí? E daí nada.

Há um sério trabalho de jornalismo investigativo (ou de pesquisa acadêmica) a ser feito sobre a questão do crime organizado no Rio de Janeiro. Envolve riscos, riscos muito mais graves do que filmar cenas escandalosa em favelas.  Entre outras possibilidades que certamente existem, as seguintes linhas podem ser conduzidas num trabalho que pode levar tempo mas envolve basicamente dados públicos:

– mapear quem são os atores envolvidos na ação/inação da polícia: qual facção levou vantagem/qual facção perdeu com a operação. Quais forças conduziram a operação, sob que ordens.

– mapear quem são os advogados das pessoas (do crime organizado – que não envolve só tráfico – há as situações de contruções ilegais em favelas e de provimento de serviços públicos paralelos, como proteção, gatonet e transporte, por exemplo) de alguma forma envolvidas (seja diretamente, seja pela geografia) nesse processo, quem está pagando a conta, quais as eventuais conexões políticas desses advogados, quais causas ganharam e em que tribunais. Fazer six degrees e ver até onde o passeio leva.

Claro que daí só poderiam ser obtidas inferências sem valor processual. Mas dicas de onde procurar, onde fazer uma investigação mais profunda, podem aparecer. E isso seria a good beginning.

Dora, a explanadora

julho 2, 2009

Lá no Nassif, o próprio se pergunta sobre a lógica de Dora Kramer. É simples, muito simples: basta olhar qual é a agenda do momento da loja do Grande Partido de Pernambuco. Qual a barbaridade que Jungmann e Roberto Freire estiverem cometendo no momento, qual duplipensar pragmático-oportunista que justifique seu alinhamento político

Olhe para Jungmann e Freire: lá estará Dora. (BTW, Noblat também tem um certo alinhamento com essa loja)

Alma sem batismo, o Virgílio não irá além do purgatório, já que o paraíso estará povoado por pessoas como Beatriz. Mas os Siths de Higienópolis e adjacências lhe arranjarão algum canto.

Rebuilding the Simonal (dita)brand: Ninguém sabe à ditadura o que dei?

maio 29, 2009

Da série Lies, damn lies, statistics and’ocumentários biográficos.
Tenho uns 5 CDs do Simonal: uma coletânea de meados dos 90, comprada na época; 4 outros os álbuns originais, relançados uns anos depois. Bons discos, longe de serem excepcionais. Mas bons discos. Adoraria ter a caixa, mas não esbarrei com ela a preço camarada. Muito longe da beleza e da relevância de um “Samba Esquema Novo” ou de um “Afro-sambas” , para citar duas obras primas dos 60 que correm em linhas não muito distintas das cantadas por Simonal. Inferiores aos discos de Gil, de Milton e de Roberto da época, só para citar nomes bem pops cuja carreira sobrevive até hoje (e não se chamam Caetano nem tem olhos verdes). Era um bom cantor, muito bom cantor, muito adequado à época. Mas como falou Maquiavel sobre Júlio II , a morte por vezes nos preserva dos erros que cometeríamos.
Está estreando, com toda a babação da Globo que tem direito, um panfleto ficcional sob forma de documentário que visa, entre outras coisas, transformar Simonal numa espécie de mártir político. Uma espécie muito rara (e dialética): um oprimido pelos oprimidos sendo membro do establishment. Um dos autores dessa peça publicitária faz parte de um simpático grupo artístico, o Casseta, cuja origem é a ala mais reformista da Reforma. No Fantástico, apareceu o próprio filho, parte de um talentoso consórcio de nepotes da MPB. E não tomem por ironia esses dois comentários anteriores: ri muito com os primeiros, tenho muitos bons CDs graças aos segundos. Mas para entender o filme é necessário, em parte, se ter esse background em conta. Guardemos essa informação para o fim.

a) O Rat Pack Tupiniquim dos 60:
Antes de mais nada, há um Tenzing Norgay da história sobre o qual o filme toca muito en passant: Carlos Imperial, Ao contrário de Simonal, cujo desaparecimento súbito da mídia (o que não quer dizer que a carreira dele tenha realmente acabado – essa é uma das ficções) permite uma visão edulcorada da história, Carlos Imperial manteve até o fim de sua existência uma trajetória de decadência, de esbórnia, de esculhambação, de escárnio em relação a moralidade e ao bom gosto. Carlos Imperial virou vereador, virou Jabba, Foi ele que descobriu e lançou Simonal, foi ele o formalizador da pilantragem, Imperial é quem montou o discurso do personagem. São dele os versos de “carango” que dão título ao filme. É dele (também) a história na música.
Os anos sessenta foram uma época de transição. Se por um lado você tinha os movimentos (ideológicos?) jovens e o rock se consolidando, por outro havia persistências dos mundos pops anteriores, com o cenário da música pop ainda contendo músicas basicamente instrumentais com apropriações bastante diluídas do jazz (vide Elevator Music para quem quiser aprofundar um pouco). Uma dessas, a nossa Bossa Nova, fez tabula rasa em relação à música brasileira anterior, reapropriando o samba e matando com o paradigma de cantores de vozeirão anteriores. A bossa nova era nova internacionalização do Brasil, o som de um Brasil novo, revolucionário…
… e já obsoleto. Pois durante os 60, lá fora, dois sons que se gestavam enquanto a bossa nova salvava provisoriamente o jazz como música pop construíram uma trajetória de hegemonia até o final dos 60: o rock, reapropriado pelos brancos (ingleses) e o soul/funk dos negros americanos. Assim na terra como no céu, no início dos 70 essas forças estavam aqui presentes.
Do ponto de vista social, se havia desde os 50 sinais de uma liberação sexual, ela não está plenamente consolidada nos 60. Os hippies são um experimento moral, a liberdade no sentido da experimentação moral Stuart Mill. Entre uma coisa e outra, tem-se o mundo do Rat Pack e do bachelor pad. O Rat Pack é Frank Sinatra e turma posando de playboys, Guinle e Rubirosa para as massas. Simonal é parte do equivalente nacional disso, incorporando, ao final dos 60, elementos do mundo jovem experimental de uma forma tão autêntica quanto o Tin Machine querendo ser o Pixies.
E como bom fanfarrão, lá está ele ao lado de ídolos do esporte, andando em carrão, fazendo a pose de comi deus e o mundo. Nice, mas naquela época o hip-hop ainda não havia sido inventado, e aquela atitude não causava mais a fascinação de algo semi-proibido, ousado.
Na segunda metade dos 60, entre várias outras coisas, acontecem quatro escolas que representam a morte desse blairismo que foi a bossa nova: a jovem guarda, a resistência do samba carioca, a Tropicália e os mineiros. As quatro foram movimentos jovens, sinceros e autênticos. Roberto Carlos, Paulinho da Viola, Caetano e Milton Nascimento: todos portadores de um discurso novo, criadores do seu próprio repertório. Todos associados a outros jovens, a estilos de vestir, a uma identidade. Até a metade dos 70, duas coisas vieram a se somar nesse quadro: os nordestinos e os Secos e Molhados. (deixo o MAU de fora porque as carreiras indiviuais que se seguem não fazem parte do mesmo conjunto, digamos assim)
A pergunta que fica é: qual o cantor que não tinha repertório próprio que sobreviveu? E não falo só daqui. Lá fora, que nome significativo do cenário pop do estilo de Simonal –cantor, sexo masculino, que não compõe seu próprio repertório, que canta “sucessos”, sobreviveu no mainstream no início dos setenta?
Na música-tema do Globo Cor Especial, de um mundo em que Emerson Fittipaldi (e não mais Pelé) era o novo grande herói nacional, a letra dizia “morcego velho, bangue-bangue de mentira, vocês já eram…”. Chico Anísio, quando foi fazer humor com música, pegou os baianos. O estilo de ser e cantar de Simonal não era mais relevante (como bem mostra essa análise do Tarik). Lâmina de Ocam, não preciso de “perseguição” para justificar seu desaparecimento. As forças do mercado e da moda cuidaram disso. Quando você faz um disco com o sintomático título de “olhaí balândro… é bufo no birrolho grinza!”, tentando voltar às raízes das quais você não faz mais parte (no caso, Os Originais do Samba), um samba que tinha pessoas autênticas, militantes, conectadas com a comunidade dos sambistas, como Paulinho e Martinho, pessoas realmente engraçadas como Mussum, you’re dead. Quando você tenta imitar um Jorge Bem passado, quando o próprio Jorge Ben começa a mudar para um nicho cada vez mais sofisticado e Bebeto assume o papel de genérico para as massas da fusão do samba com o soul do Ben, you’re dead. “… o nosso papo é alegria”, assim termina a música.
(Há dois caminhos quando você fica obsoleto: você fica no nicho (como nomes muito dignos e competentes de blues, jazz ou dance) ou migra para um caminho “popular”, onde a sua onda está chegando com atraso. Simonal não fez isso: sabia curtir, sabia cantar. Imperial fez, migrando da música para o cinema.)
Last but not least no argumento histórico, Simonal e turma faziam parte das cliques televisivas da Record e da Tupi. No início dos 70 a Globo (e seu padrão de qualidade) começa a se tornar hegemônica. É outra panela, sem nenhum compromisso afetivo com ele, muito pelo contrário. Mas obre isso eu não vou discorrer aqui. Leiam Na barriga da Baleia a tese de doutorado de Eduardo Henrique de Scoville, deliciosa em sua descrição do ambiente musical da época e da relação do padrão globo de qualidade com a música. Dela pode-se depreender de quanto a carreira de Simonal dependeu da televisão. Talvez por ali dê para se entender porque tanta gente responsável pela criação do Padrão Globo esteja dando depoimentos no filme. Complementando essa tese, uma olhada nesse paper de Eduardo Vicente permite uma boa compreensão de nosso mercado musical, e o entendimento claro do ponto do Tarik de Souza.
“O pop não poupa ninguém”. A evaporação de carreiras bem sucedidas por mudanças súbitas de mercado (Bee Gees na virada dos 70 e o Skid Row com o advento do grunge são belos exemplos disso) é o normal num mercado que está vivo e dinâmico.

b) A cena continua:
A narrativa: Simonal, num deslize, usa de seus contatos com pessoas da polícia que levarão um pobre contador a ser temporariamente “hospedado” pelos serviços de segurança da época. Isso serve de pretexto para uma perseguição racista conduzida por umas elites liberais de um blog, quer dizer, jornal alternativo, o Pasquim. E aí um complô silencioso das esquerdas destrói com aquele que era o maior ídolo popular que já existiu.
Bem, antes de mais nada tenho a dizer que tenho curiosidade o bastante para me lembrar de Chico Alves, e olha que nasci muito depois do acidente (uma década depois, um dos meus maiores amigos do segundo grau tinha o nome de Francisco em homenagem a Chico Alves. Seu pai chorara por três dias a morte do ídolo). Portanto, não vejo nada de tão extraordinário assim na cena do Maracanãzinho, onde eu vi rolideionaice, e muitos anos depois, vários shows.
Mas respondendo à pergunta do Chico Anísio, para ser informante você precisa estar dentro das paradas. E sinceramente, não me consta de Simonal ser Bruce Wayne ou Don Diego de la Veja. Ou Elia Kazan. Ali a personalidade era uma só. Portanto, como ele poderia entregar o que não sabia? Isso é óbvio. Não é a questão de ser “dedo-duro” no sentido estrito a conexão de Simonal com a ditadura. É o fato de que ele se beneficiava dela, que se beneficiou dela, em seu momento mais negro, mais do que qualquer outro nome de nossa música. “Simonal que estava certo, na razão do patropi”, diz a primeira estrofe de “take me back to Piauí”, a genial crítica de Juca Chavez a exaltação nacionalista daqueles anos. Juca Chavez que também gostava de carrões, mas não apenas de posar dentro deles. Nesse sentido, o filme não mente. Aliás, o filme não mente: ele interpreta, recorta. O que ele faz você inferir dali é que é equivocado.
Mas por que não, por exemplo, se entrar na questão da ida dele para a RCA? Peguemos essa entrevista com o André Midani feita pelo Pedro Alexandre Sanches:

PAS – No livro você passa muito de raspão pela história com Wilson Simonal, não? O que você fala no livro e acho que eu não sabia é que foi Marcos Lázaro (empresário, nos anos 60 e 70, de artistas como Roberto Carlos, Elis Regina e Simonal) a pessoa que intermediou a contratação dele pela Philips, a “pedido” da ditadura.
AM – Foi.
PAS – E aí foi do jeito que você relata, você levou o assunto Simonal para discussão no grupo de trabalho?
AM – Foi uma barra. Foi a primeira reunião. Hoje acho que faria de outra maneira. Na primeira reunião disse “olha, tenho um puta pepino aqui, achei que tinha que contratar o Simonal”. Zuenir Ventura me olhou de um jeito que me lembro até hoje.
PAS – Ninguém queria ele na gravadora mesmo? Você tinha me falado isso uma vez, eu tinha entendido que era o elenco da Philips que resistia. Eram então os membros do grupo de trabalho?
AM – Não, eu temia que pessoas como Chico, que são, ou eram, no sentido convencionalmente político, não no sentido pejorativo, mas no sentido da posição, me dissessem “olha, se um filho da puta vai entrar eu não fico”. Eu temia isso. Então cheguei ao grupo de trabalho e dizia: “Estou temendo isso, como é que eu faço?, o que faço?”. Foi assim.
PAS – Mas não aconteceu? Ninguém disse “ou ele ou eu”?
AM – Que eu me lembre não. Eu lembro que o Chico não ficou lá muito contente (ri).
PAS – Mas você explicou para a companhia, que era uma imposição da ditadura?
AM – É, eu tinha que ser um pouco discreto também, fazia entender que era adequado tomar essa decisão.

Vamos à discografia de Simonal: em 73, “Balândro” (Phillips); em 75, “Ninguém proíbe o amor” , RCA, sendo que a última faixa é de Chico Buarque (regravação de uma faixa do “Construção”! Em 77, “A vida é só prá cantar”,  um disco de tentativa de retornar ao passado, receita sempre infalível de fracasso comercial (o que não quer dizer que o disco seja ruim – na maioria das vezes as vaias tem maior qualidade que dezenas de milhares de pessoas num coro, sendo o QOTSA no rock in rio talvez o melhor exemplo recente disso). Fato é que entre 73 e 85, ele lançou um disco em cada ano impar. Boicotado, ao que me consta, sequer grava. Cabe lembrar que em 74 Chico gravou um álbum como cantor, “Sinal Fechado”. A censura não permitia mais a ele cantar suas próprias músicas…
Isso escapa ao filme. Ao invés de Chico Buarque, Chico Anísio é entrevistado. Procura-se a chave onde a luz é boa, não aonde caiu.
Em meados dos anos 70, quando Simonal tentava manter sua carreira de artista pop, Milton Nascimento, negro como ele, foi forçado a fazer um disco virtualmente instrumental. Gil passou uns anos sem lançar um LP, e quem tiver ouvido o CD “Cidade do Salvador” saberá a imensa qualidade do Gil fez naquela época. Taiguara gravou um disco sublime, disco que ouvi tem mais de uma década, tomando umas super bocks numa madrugada de verão em Portugal, disco devidamente recolhido no Brasil. E o Pasquim foi alvo de uma guerra. Enquanto isso, algumas pessoas, Wilson Simonal NÃO ERA UMA DELAS, se davam bem.
c) Brands:
Um personagem público muito querido tem sua vida de fanfarrão exposta. Ele usa de seus poderes para tentar descobrir coisas contra aquele que o revelou, um pobre coitado. O personagem público tem sua perspectiva de carreira destruída. Pallocci, o homem que seria presidente da república, e o caseiro que teve seu sigilo bancário violado.
Um personagem público muito querido nota estranhezas financeiros em meio à sua vida de fanfarrão. Cisma que seu contador o enganou e pede ajuda a uns amigos da polícia, que aplicam enhanced interrogation techniques no coitado. O personagem público tem sua carreira (em declínio) destruída.
O ano é 71. Imperial passara uma temporada preso uns anos antes. Erlon Chaves foi posto em seu lugar no ano anterior, por escandalizar a mulher de um general e o grande público. Tony Tornado teve usa carreira musical abortada, pois cá não havia espaço para Isaac Hayes em Watts. E Simonal pede ajuda a uns amigos para usar de seus poderes discricionários. Isso é o que, roteiro de filme passado na Europa nos anos 30? Se ele ficava neutro em relação ao que acontecia no país, será que ele não conseguia ver o que se passava justo ao seu lado?
Qual a confiança que você tem num político que move a máquina do mais poderoso dos ministérios para tentar desmoralizar um simples caseiro? Qual a confiança num artista que usa de seus contatos para “resolver” seus problemas com subordinados num momento em que pessoas próximas da classe artística estão sofrendo toda uma série de coerções e violências? Isso não é um lapso, um deslize. Isso é um risco. As pessoas são avessas a riscos.
Para que serve o filme, então? A agenda é simples. A Reforma quer vender o mito de uma esquerda má que perseguia pessoas. Uma esquerda que lutava contra a ditadura, coisa que ela fazia ao seu modo, levando o barco bem devagar no nevoeiro. E granjeando uma coisinha aqui e outra ali, um dia alguém ainda vai explorar essa relação deles com elementos do primeiro e do segundo escalão do governo Geisel. Os nepotes da bossa nova têm contas psicológicas a acertarem com o fato de terem seus talentosíssimos pais sumirem (ou caírem para funções menores) com as mudanças do fim dos sessenta. “O pop não poupa ninguém”, como disse um contemporâneo meu, menos sofisticado musicalmente que eles, mas com um belíssimo manejo da palavra cantada. E o povo da TV hegemônica tenta construir uma visão do mundo em que a sua responsabilidade no que se passou na época fosse bem menor do que realmente foi, e nisso não falo só dos benefícios que auferiram, mas nas carreiras que eles destruíram. Nesse sentido, cria-se ali uma útil ditabranda Simonal.
Antes de concluir, porém, a pilantragem. Pega-se um monte de pessoas sérias, sóbrias, bem maquiadas, fazendo o estilo culpa moral. As pessoas adoram gente culpada, confessante. Ponha-se Jaguar, com seu riso cínico e bêbado, meio afastado da câmera. Jaguar, um chargista genial, um herói do jornalismo desse país. O cara que apoiou Brizola enquanto Ziraldo apoiava mais um compromisso histórico da Reforma, Pasquim, 1982, a guerra da esquerda carioca nas páginas de um jornal alternativo. Ponha-se Jaguar, com seu riso cínico e bêbado, tentando criar um contexto em que o espectador saliva “olha que filho da puta, que não sente culpa~pelo coitado”. Manipulação. Alimento para reacionários como o RA, que, ao contrário do Hermê, eu me recuso a linkar. Isso é imperdoável no documentário.
Pode-se fazer bons documentários com personagens polêmicos, ambíguos em sua relação com o Mal. “The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefenstahl”, por exemplo. “Simonal: ninguém sabe o duro que eu dei” não é um deles.

O problema não é o consumidor

março 26, 2009

Hillary vem nos dizer que o consumidor americano é o culpado pelos problemas que o tráfico está provocando no México. Sorry, but that’s wrong. O problema não está no consumidor, está nos 8 anos em que um governo da NRA permitiu o livre comércio de armas leves. O problema não está no consumidor, mas está na inovação/desregulação financeira em larga escala. Culpar o consumidor é não reconhecer que o que dá essa dimensão ao tráfico é a possibilidade de obter um alfa que só o olhar “impreciso” do estado permite. Lembrem-se que o vizinho de Senado de Hillary, grande lutador pelos interesses de Wall Street, foi dos que perdeu grana com o Maddof.

Paris bem vale uma missa

dezembro 12, 2008

Veja o caso dessa notícia de Aldo Rebelo criticando a decisão do STF pela demarcação da reserva Raposa Terra do Sol. Aparentemente ele fala das ameaças à propriedade de quem está lá e à integridade de nosso território.

No entanto, a razão é bem outra. O exército brasileiro tem uma fixação com a questão da Amazônia (uma conveniente distorção em relação à questão indígena, com toda uma mitologia justificatória), fixação essa que não passa, por exemplo, pelo reconhecimento de um crime chamado Serra Pelada praticado sob o olhar do exército. Crime: arrastão a uma propriedade da CVRD. Beneficiário principal: o interventor, membro então do Exército.

Mas, e Aldo? No início do governo Lula ele andou cotado para ser ministro da defesa. No meio do governo Lula, o nome dele apareceu de novo para substituir Waldir Pires. Agora, de novo, lá está Aldo envolvido numa operação de swap. Aldo, no entanto, tem um problema: o PCdoB foi quem conduziu a Guerrilha do Araguaia, a qual serviu de justificativa para o arrastão de Serra Pelada. Portanto, Aldo tem que dar vigorosas provas de que está engajado nos mitos e lendas de nosso exército para não ser vetado.

Portanto, se você vir ou receber qualquer post ou e-mail questionando do ponto de vista ideológico essa posição do PCdoB, tome nota: bullshit. O interesse principal deles na questão é a eventual nomeação para o ministério da defesa. Opção preferencial pela boquinha, como mostra o engajamento na gestão Paes.