Archive for the ‘North Talibania’ Category

Os Currais de Cristo

outubro 4, 2010

Jabuti não sobe árvore. Movimentos como este, não captado pelas pesquisas, não decorrem de nenhuma onda. Ondas são antevistas e precisam de energia e tempo. Movimentos destes podem ser reflexos de alguma catástrofe (o atentado em Madrid, por exemplo). Ou de algo mais sombrio.

Celso e Azenha podem ficar na confortável ilusão de que a Marina verde tenha alguma relevância nesse resultado. Engano. A Marina verde era os 10% de até semana passada. O restante é essa outra Marina, a conivente com o criacionismo, para ser gentil. O restante é uma demonstração de força de igrejas evangélicas, do culto no sábado e no domingo. César Maia, com a brilhante lucidez que se permite quando não está rodando bolsinha e promovendo antas, cantou esta pedra. Não há como ser ingênuo quanto a isso. Esses votos não são de Marina, mas do Senhor.

Nesta hora eu me pergunto como Sirkis e Gabeira estão se sentindo. Talvez venham em breve a se sentir como Adam Michnik e Jacek Kuron vendo a agenda fundamentalista católica oprimindo no campo da vida biológica após a derrubada da ditadura polonesa. Porque é disto que se tratou o voto, a submissão dos corpos. Esqueçam a clivagem direita-esquerda, que esta é uma dinâmica cujo poder explicativo é cada vez mais reduzido no mundo contemporâneo. A tragédia de agora é outra.

O kudzu do pentecostalismo americano plantou raízes aqui, e não só no futebol. Não há que se ter ilusões românticas. Rebanhos são rebanhos, inocentes sob a ilusão do cuidado de seus pastores, que neles só vêem couro e carne.

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Os ovos da serpente chocaram

junho 17, 2009

Primeiro foi o assassinato do Dr. Tiller, um raro praticante remanescente de late term abortions (aquilo que se faz quando você descobre que o bebê em sua barriga tem anencefalia, por exemplo, mas que é a forma mais telegênica de propaganda contra o aborto dos cristãos teocratas). No blog do Andrew Sullivan há um monte de histórias dessas, de casos envolvendo o dr. Tiller e/ou de abortos no periodo final de gravidez. Extremamente tocantes, tendo tempo, valem o passeio. Não que o Sullivan seja inocente nessa história, como bem mostra esse delicioso post, que me fez lembrar a caracterização dele feita num episódio da segunda temporada de Queer as Folk.

Depois houve o assassinato de um guarda no Museu do Holocausto em Washington.

Agora teve essa surreal situação do grupo neo-nazista assaltando casa de traficantes para o “movimento”.

Os órfãos de Palin começam a evoluir para a violência. É só o começo. Terá sido Carnivàle uma alegoria do futuro?

A história se repete

dezembro 10, 2008

Há poucos momentos da história tão maltratados por Hollywood quanto o último dos Antoninos, sua ascenção e sua queda. Tanto “A Queda do Império Romano” quanto “Gladiador” fazem um pastiche da pior espécie, em que pese serem bem filmados.

Mas nada mais interessante do que ver a atual transição americana como reedição desse processo, com George “Mission Acomplished” Bush no papel de Comodo e agora o Blagojevitch na busca de um Juliano 1.

Blutocracia

outubro 22, 2008

Fosse pura plutocracia, vá lá. Mas, de fato, os EUA são piores que isso. Não me consta de em ouro lugar do planeta seu desempenho desportivo ser causa para se ter acesso a educação superior. Mas fosse só isso…

O gráfico abaixo provocou depressão tanto em PZ MYers quanto no John Wilkins, dois interessantes blogueiros de ciência:

Seis meses atrás eu escrevi sobre essa aversão enraizada dos EUA ao mundo intelectual, pegando como exemplo o desenho corrida maluca. Naquela época não havia ainda Sarah Palin, a mais perfeita tradução dessa miséria da alma.

Blutocracia. Junção do nome masculino americano Bluto com a palavra grega para governo. Forma nova de governo em que pessoas são escolhidas pela attitude, mesmo sem nenhuma –  e nenhuma mesmo! – qualificação, seja em termos de carreira, seja em termos intelectuais, para o cargo. Andrew Sullivan sugere uma Sarah Palin em versão CGA. That may be good, especialmente se o processo democrático tradicional for substituído por algum reality show com pessoas aleatórias mas interessantes. Imagine Boninho como kingmaker…

red herring

setembro 24, 2008

A crise não é do setor financeiro. As subprimes são só uma das pontas do Iceberg. A crise é a economia americana que cresceu duas décadas na base do consumo das famílias (sem contrapartida de crescimento de renda, ou seja fordismo financiado a juros módicos e prazos infinitos) e gasto do estado. Óbvio que essa fantasia vai estar presente no discurso dos economistas: eles vivem disso. Mas é fantasia, discurso que se faz para não se encarar a verdade.

Qual seja: os US$ 700 bilhões de Paulson são para a estatização das dívidas dos americanos como um todo, e não só de um relapso, inconsequente ou criminoso setor financeiro. Não que eles sejam inocentes, mas também não são culpados. Foram só o agente da irresponsabilidade coletiva, a wermacht financeira dos willing executioners do capitalismo americano. O que se passa agora é algo como a estatização da dívida externa por Delfim, o estado americano assumindo a carga e as culpas perante o mundo como forma da economia não desmontar.

O monetarista que há dentro de mim sabe que isso resultará em inflação e em destruição da moeda, das expectativas de longo prazo. O marxista sabe que nesse processo as instituições americanas – que foram construídas por um processo histórico expansão permanente – ver-se-ão sujeitas à interpretação do profeta Daniel. E o keynesiano sabe que, no desenrolar dessa crise, a classe dos burocratas terá sucedido à dos empresários, relegado esta e os austríacos, de Hayek a Schumpeter, ao mundo micro, mundo de alfas microscópicos.

(sem saco nesse momento para sair pondo links)

 

PS: acabei me esquecendo de postar, e eis que a Yves me sai com um post muito bem acertado sobre a crise.

O bebe de Reginaldo

setembro 23, 2008

Na mesma novela que tinha o imortal Barbosa, Fogo no Rabo, o protagonista era um empresário chamado Reginaldo. “Eu nunca vendi uma criança que estivesse com defeito” foi uma das suas notáveis frases.

Certas horas penso que Sarah Palin é algum demoníaco bebe de Reginaldo. Como, por exemplo, no seu amor pela natureza.

Teoria macroeconômica republicana

setembro 15, 2008

Christ saves (so you don’t need to do it).

A ordem das coisas

setembro 2, 2008

Pois o discurso é que a vida privada dos Palin é vida privada. Sorry, it’s not. O discurso conservador sempre foi no sentido de impor seus padrões de conduta sobre os outros. Portanto, seus padrões de conduta são sim alvo de avaliação.

Pois bem: a ordem das coisas, sendo conservador (ou não), costumava ser:

  1. maturidade
  2. casamento
  3. sexo
  4. gravidez

Mas essa sequência cristianista é:

  1. sexo
  2. gravidez
  3. casamento
  4. maturidade

Será que no comercial “celebrity” do Obama vão substituir a Britney pela Bristol?

Se bem que o cara está mais para American Pie.

 

PS: lá no Sadly, no!, o melhor tratamento da hipocrisia conservadora sobre a questão da teen pregnancy e do respeito aos filhos.

 

O detalhe que realmente me incomoda nessa história é que nos dias de hoje gravidez juvenil deveria ser que nem sarampo: extinto. Se vocês viram Austin Powers, esse diálogo mostra bem qual é o problema:

  • Vanessa Kensington: You know I meant…did you use a condom?
    Austin Powers:
    No-ho-ho-ho!!  Only sailors use condoms, baby!
    Vanessa Kensington:
    Not in the nineties, Austin!
    Austin Powers:
    Well, they should, those filthy beggars!  They go from port to port!

Isso é o que mais me incomoda nessa história. É como a revolta do personagem do namorado do noivo de Banquete de Casamento do Ang Lee: não é o sexo o problema, é o sexo desprotegido. Uma precaução resolve dois problemas. Safe sex.

beirando o inacreditável

setembro 1, 2008

Se for verdade que o filho da Palin é na verdade neto, é bom McCain ter um AVC para os republicanos poderem escolher algum candidato a presidente que possa, ao menos, evitar a “catastre”. Porque a desmoralização será completa.

PS: a Palin acaba de anunciar que a filha dela de 17 anos está grávida. E vai casar. Abstinência e valores familiares costumavam fazer parte de uma operação não comutativa no discurso conservador. Será que ela vai casar na delegacia?

Donativo e empréstimos

agosto 25, 2008

IMVHO, a melhor observação de Marx para entender os detalhes da atual crise americana não está em sua obra econômica, mas na obra política.

Donations and loans — the financial science of the lumpen proletariat, whether of high degree or low, is restricted to this.” (cap 4 do Brumário)

A história americana da década de 30 para cá tem sido uma negação da luta de classes. Essa negação passou por uma transformação, que eu chutaria operada pelo/no âmbito do fordismo, da identidade do cidadão. Ao invés da identidade definida pelo seu papel de produtor, os consumos materiais e simbólicos passaram a dizer quem os americanos são.

Nesse sentido, essa discussão que rola no Krugman, que é uma variante do problema que está descrito neste gráfico (evolução de dívida das famílias, que pode ser vista numa série mais extensa e com outras discussões ainda mais interessantes neste post recente no Seeking Alpha). E, no fundo, o que está por trás do gráfico neste post do Naked Capitalism. E que, noutro sentido, desse post do Salmon.

Qual seja: a sociedade americana resolveu seu problema de conflito de classes (e intra-classes no caso das pessoas jurídicas), transformando-se, no fundo, no paraíso do lúmpen. Assim sendo, o assalto ao futuro abriu a possibilidade transformação de ativos e fluxos em renda imediata, uma forma indolor e invisível de se retirar as pressões políticas e inflacionárias por um melhor padrão de vida. Esse veio, não por uma melhor distribuição de renda, mas pela via do endividamento, do valor presente. É sintomático que, voltando ao gráfico no Yves, tenha sido exatamente a era dos junk bonds como “heróis do capitalismo” o início dessa tendência, no fundo, inflacionária, para a economia americana como um todo. Uma inflação não financeira, mas nas expectativas, nos ativos.

E se os empréstimos agora começam a falhar, tenta-se os tax rebates. Donativos e empréstimos, donativos e empréstimos. Let a thousand new new bubbles blow, para manter o espírito olímpico.

Duas frase adiante, Marx, como se estivesse, um século e meio depois, escrevendo para o The Daily Show ou o The Onion: “Never has a pretender speculated more stupidly on the stupidity of the masses“.

Puro Nostradamus!