Archive for the ‘hegemonia’ Category

As meninas da escola saudita na véspera de Trinta

novembro 29, 2011

A virtude e o vício, amigos. Nada mais nobre a se lutar do que pela virtude e contra o vício. Bem, talvez salvar o mundo seja mais relevante. Mas se há uma nobre missão a ser desempenhada, há uma fellowship – ou, para ser mais contemporâneo, um comitê – a assumi-la. E se houve momentos não muito distantes em que heróis salvaram, com notáveis raras exceções®, o mundo, há aqueles que lutam para trazer ordem e perfeição em meio a esta crise. Veja-se o esforço dos alemães e do Banco que zela pela estabilidade do euro. (Não, não usemos cá o termo Banco Central. Este se aplica a instituições com ambigüidades, que visam adicionalmente coisas como manter o nível de emprego e os juros em taxas razoáveis. Lembremo-nos que a dissolução moral começa no bunga bunga e termina na volatilidade conforme as circunstâncias.)

Pois este conjunto de instituições – UE, BCE, FMI – que conseguiu depor o viciado em sexo talhado em Milão que há anos constrangia as pessoas de bem e a Economist como ocupante do governo da Itália, e obter a renúncia de um oligarca de “esquerda” encastelado na Grécia, pondo em ambos os postos flexians com o menor compromisso possível com as perversões corruptas do mundo político local; que conseguiram reendireitar os parlamentos ibéricos, de forma que num corte inglês venham a adquirir as virtudes d’austeridade. Que nome, pois, atribuir a tal conjunto de pessoas para quem cut não se aplica aos detalhes, mas pleno verbo à prática de cortar a própria carne dos orçamentos públicos e das obrigações assumidas de longa data para com os cidadãos, que nome que não Comitê pela propagação da virtude e prevenção do vício?

Há uma história das meninas na escola saudita, de uma década atrás. Os países da Europa são hoje as meninas na escola saudita. Uma série de ficções de ordem moral os fará arder em nome da virtude, zarzuelas de Bayreuth ao fundo diria José. Não vou entrar aqui na discussão técnica dos problemas e das soluções: seria redundante com o muito que se discute no momento, tanta coisa que nem sei por onde começar e fazer justiça a todos. E é inútil. Tal como vejo, mantida a atual institucionalidade européia, não há salvação.

É chegado o momento da Europa derrubar sua República Velha. É chegado o momento de se romper a estrutura federativa tênue, feita para beneficiar o principal Estado, seja em termos populacionais, seja em termos de poderio econômico e exportações, e investir numa estrutura unificada em que as soluções atendam à maioria e não ao maior. É chegada a hora de se derrubar do pedestal São Paulo… perdão, a Alemanha, e se fazer a União vir antes dos Estados.

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Terras Raras (Paragem 1)

junho 24, 2011

Provocou-me um antigo daimiô para que eu, usando de minha capacidade de navegar pelos mais variados assuntos (e de meu google-fu, que não se compara ao seu, auto-exilado amigo), considerasse a questão das terras raras. Fiz algumas buscas, mas concretamente, a conclusão que cheguei foi de que o ponto relevante na questão das terras raras não são as ditas cujas, sua distribuição, seus potenciais.

Explica o The Disappearing Spoon que as terras raras de propriamente raro não têm nada (mais detalhes sobre terras raras na wikipedia, que referencia parte do argumento que se segue). Há uma certa complicação em sua separação, não costumam ter uma distribuição tão concentrada como alguns outros metais, costumam estar na companhia de elementos desagradáveis e radioativos, mas, fora isso, não há grandes mistérios. Nem vou puxar aqui a divertida história do mais raro e nobre metal que já existiu: o alumínio.

O problema das terras raras é outro, problema de políticas, problema que retrata de forma exemplar o que é cerne da economia globalizada desta virada de século. No tempo em que terras raras eram basicamente uns elementos engraçadinhos da tabela periódica, os tempos de Tio Tungstênio quando pobres mortais podiam comprar sais radioativos pelo correio, e mesmo tomá-los como tônicos, nós cá no Brasil éramos dos maiores produtores mundiais. As areias monazíticas, que aprendemos na escola ricas no radioativo tório (ao qual voltarei noutra paragem), eram as fontes desses elementos.

Quando eles passaram a ter alguma utilidade, a ser mais que um curioso resíduo, os americanos passaram a ser o grande produtor. E aí, ao final da primeira década da Nova Ordem Mundial, os chineses tomaram o posto onde até o momento estão. E esse é o ponto interessante: como tomaram e por que, mantidas as atuais condições, lá ficarão por um bom tempo.

Once upon a time havia uma fábrica de imãs de alta tecnologia, Magnequench. Uma grande corporação, o que era bom para ela era bom para os EUA, negociou essa fábrica, que não era o seu core business. Os chineses, dizem as más línguas, ficaram tão felizes com esse negócio que inclusive deram a essa corporação possibilidades de entrada em seus mercados que não havia antes. Sábia essa corporação, que hoje vende mais na China que na própria América.

Os chineses, no entanto, percebendo que se ao contrário deles não havia interesse da grande corporação em manter o negócio, já que o que é bom para a grande corporação é bom para os EUA (tanto que depois ela mesma – grande heresia – incorporou-se provisoriamente aos EUA), não havia porque eles chineses mantê-lo lá. E logo fechou-se a mina americana. E logo eles fecharam a fábrica. E mudaram tudo para a China. E lá começaram a extrair, de seus minérios, esses elementos. E a dominar seu comércio para aqueles que se davam ao trabalho de não comprar seus imãs.

O problema dessa história é que, no cálculo frio de seu dever para com os acionistas, a grande corporação não estava errada em fazê-lo. E nisso não vai uma crítica ao capitalismo contemporâneo (coisa à qual voltarei também noutra paragem). Provavelmente a grande corporação seria de fato um obstáculo ao desenvolvimento desse negócio, maior do que seu uso para seu core business. Se a economia americana é disfuncional ao ponto de permitir a destruição de sua base industrial e/ou estratégica em prol de seu dever para com os acionistas (discurso e lenda sobre o qual creio que o buraco é outro – mas coisa que veremos noutras paragens), isso já é outra questão. A desnacionalização/dissolução do negócio não se deve apenas à grande corporação. E aqui tomo um caminho diferente dos que vejo tomados por aí.

O fato de que a China permite às empresas do Ocidente acesso a produtos e insumos por um preço que é um negócio da China mais do que um sucesso é um sintoma. A China é uma ditadura, ponto. Guarda isso na cabeça, amigo, repete várias vezes: a China é uma ditadura. Ditadura. Ao fim e ao cabo, mercado é um jogo no qual as pessoas consentidas pela ditadura participam, jogo no qual as pessoas privilegiadas pela ditadura participam. E pessoas são o crítico disso. Creio que a observação de Fukuyama em Trust (e que bate com o retrato em Os Excluídos, de Yiyun Li), da cultura chinesa como sendo eminentemente familiar, pouco afeita à civic culture e à impessoalidade objetivista (dupla de características que, diga-se de passagem, é meio uma contradição, mas esta é outra paragem) que se demanda no mundo corporativo, continua válida.

A grande corporação e suas irmãs – bem como os gnomos que sonham um dia ser como elas, ou que compartilham de seu Credo e de seu Salve Rainha – amam a China pelos trinkets que ela lhes dá. E invejam seu sucesso, que no fundo vêm de uma liberdade que eles perderam ou vêm perdendo há décadas.

A China hoje é a mãe de todas as externalidades. Se cá como no mundo desenvolvido as empresas estão sujeitas a restrições ambientais, a práticas de governança, a responsabilidades com seus consumidores, ao peso de um aparato legal que torna proibitivamente caros certos processos e atividades, na China isso não é obstáculo para que o desenvolvimento aconteça. Accounting, em ambas as versões que a palavra têm quando traduzida em nossa língua, lá não se aplica. Os custos, portanto, são muito baixos. As responsabilidades, também: do leite das crianças à mãe de todas as Balbinas, às empresas é permitido lucrar, ao estado é permitido criar como se não houvesse amanhã. Se nós país do futuro, a China agora.

Portanto, não dá para competir com a China pelas regras estabelecidas de livre comércio internacional. Não que ela não participe honestamente do livre comércio, ou que ela pratique um câmbio desleal. Essa é uma desculpa ou uma interpretação que não leva em conta o que é o processo social que acontece ali. Uma mudança no câmbio ou nas condições certamente desmantelaria uma operação manufatureira chinesa que, suponho, está em boa parte na fronteira do vermelho. Mas a China triunfa porque ela difere, transfere um custo que as grandes corporações e os gnomos têm que arcar no mundo fora delas. A China triunfa porque, ao fim e ao cabo as suas perdas internacionais são hoje imensas (por perdas internacionais, termo que aproprio e reinvento do falecido Brizola, entenda-se um país produzir e transferir seu meio ambiente, trabalho e sangue para fora do país em termos de troca não favoráveis – a troco de nada, por exemplo – em detrimento da sua população e em benefício do estado ou de algumas elites – no caso chinês – ou de um exterior que impõe as condições desfavoráveis – no caso do endividado Brasil dos 80).

Mas voltando às terras raras: não dá para competir hoje com os chineses, a menos que você esteja disposto ao risco de ter prejuízo se eles resolverem ter prejuizo (ditaduras não respondem a acionistas). E por que, mantidas as atuais condições de “mercado perfeito” de temperatura e pressão, alguém gostaria de fazê-lo?

As elites chinesas estão dispostas a oferecer em holocausto o trabalho de seu povo, sua saúde presente e futura, auferindo em troca as benesses no porvir do grande deus-mercado, materializadas nessa indulgência chamada reservas monetárias (e não só das oficiais). Não há porque não se usufruir disso, dessa tentativa das elites chinesas de abreviar o Purgatório. Claro que uma esmola para um homem que é são tem suas conseqüências. Poeticamente, eu diria que o ópio comes to roost na economia ocidental.

Cortina rasgada

janeiro 28, 2011

A cortina de ferro dos EUA no Oriente Médio conhece seu 68. Trabalhadores, universitários, o carro alegre toma conta das ruas, desbancando o conforto simbólico dos inimigos de praxe do mundo atual. O velho vilão, aquele que está dentro de suas fronteiras, reaparece: luta de classes, juventude, reapropriação dos espaços criados pelo capital no confronto.
No radio toca agora um poema de Maiakovski. Curiosa cincidência.

A comuna se levanta

dezembro 8, 2010

Noutra hora entrarei em maiores detalhes, mas fica aqui o registro. O que acontece neste momento é um levante sem precedentes.
A democracia representativa burguesa vê chegar seu desmascaramento. Temo que o que há pela frente é o comunismo: não a utopia marxista mas o estado policial.

O silêncio antes do tsunami

novembro 26, 2010

E eis que o romance epistolar da política externa americana chega ao momento em que Valmont vaza. Parece que tem Brasil na história. Em meio a um Rio em pânico, eu e minha toalha esperamos. Cantarolo “…someone better slap me…” antevendo os queixos que cairão.

Deep Thought – Donde es Te – Gulp! – cigalpa?

julho 8, 2009

Será que o negrito tem um big stick?

Uma intuição despropositada sobre o Irã etc

junho 23, 2009

Madrugada retrasada, miolo de uma breve troca de idéias com o Luciano:

Samurai:

Exércitos não gostam de paramilitares; hierarquias religiosas não gostam de parvenus.
O Mousavi sabe que não podem encostar nele: ele é da
família do profeta

Reflexões:

Pois é.
Por isso acho estranho isso tudo. Soube que Mousavi assinou a sentença de morte de sete mil dissidentes no final da guerra com o Iraque. Um cara desses é das “internas”. Nào estaria agindo assim sem algum nível de autorização.

Samurai:

Luciano, só porque um grupo está no poder e esteja à direita não quer dizer que ele é o grupo conservador…

Se tiver que apostar em algum black swan no Irã, é algum tipo de golpe militar. Não sei precisar para que lado.

Enquanto isso o Conde de Cascais manda-me a notícia de que aquelas gentis empresas escandinavas de equipamentos de telecomunicação estão cooperando num sub-Echelon do governo iraniano. Um boicote a elas poderia ser uma interessante iniciativa no futuro. Até porque medidas mais absurdas de circulação estão acontecendo, como as exigências do governo chinês para os fabricantes de computadores.

Farsa em Farsi

junho 17, 2009

Os dias tem sido muito atarefados por aqui, amigo Hermê, e esse comentário que venho escrevendo desde sexta só sai hoje. Você fez dois posts, NPTO também já tratou do assunto, mas deixa eu fazer meu registro.

A analogia é uma das formas mais arriscadas que há para se entender as coisas. Solução conservadora, burkeana, ela nos faz perder o que há de específico, a lição de Tolstoi de que cada família infeliz é infeliz ao seu modo.

Glen Greenwald (para quem não conhece, um dos mais interessantes blogueiros da esquerda americana) fez o seguinte comentário, que nos é bem familiar, no fim de semana:

(4) Speaking of Iran, I don’t have any idea what really happened with its presidential election — if, as Juan Cole argues, there was widespread fraud, that would be entirely unsurprising — but Newsweek‘s long-time Middle East reporter Christopher Dickey persuasively warns against the emerging assumption that the anti-Ahmedinejad views expressed by middle class and cosmopolitan Iranians and promoted by the Western press are representative of a majority of Iranians.  In Brazil, if you ask middle class, professional and/or educated Brazilians what they think of President Lula da Silva, you would conclude that he is an intensely despised figure, when — in reality — he is profoundly popular among a majority of Brazilians largely due to the deep support from that country’s poor and under-educated population (much the same way that you’d get vastly disparate responses if, in 2004, you went to Manhattan and then to rural Kansas and solicited opinions of George Bush).  Dickey suggests that the same dynamic exists in Iran.

E esse, creio, é um erro recorrente na análise de algumas pessoas da eleição no Irã. Um amigo cá do trabalho, por exemplo, me mandou esse texto “round up the usual suspects” de esquerda ontem. Muito embora haja um claro interesse americano em mais uma revolução colorida (será Steve Jobs o gênio secreto que controla a política externa americana?), tudo indica que há uma farsa em curso.

No Moon of Alabama, um interessante blog de esquerda alemão, há a análise óbvia de classe, há perfeitas análises conspiratórias, há a suposição de que quiet americans estariam envolvidos (e aqui uma interessante observação do Irã como um dos afetados pelas “exportações” afegãs, coisa óbvia quando se pensa no assunto mas sobre a qual eu nunca li nada a respeito). É bem capaz que parte disso tenha acontecido, e está explicito o interesse do Departamento de Estado no uso político do twitter (será que eles suspenderão o serviço quando a revolução não for do interesse americano?)

No entanto, minha experiência em analisar dados eleitorais, ainda que um pouco enferrujada, sugere que o argumento do Juan Cole é difícil de ser rebatido. Resultados eleitorais não são regulares. Resultados eleitorais, a menos de alguma catástrofe bastante visível, não mudam abruptamente de uma hora para outra. Não há ali uma ilusão causada por diferenças de classe, como nos casos da Venezuela e da Tailândia.

Minha sugestão: esqueçam o noticiário e vão direto no Juan Cole. Durante o período de pique do conflito no Iraque era minha primeira leitura diária.

No mais, o Sullivan está em frenesi com esse “levante”. Nada como uma causa confortável. Em que pese que as discussões que rolaram lá sobre o aborto foram interessantíssimas, mas isso é um assunto no qual eu estou ainda mais atrasado para postar (e do qual voc~e não tratou, caro Hermê). Quem sabe daqui a pouco.

Oi!

janeiro 30, 2009

Enquanto Paris reedita seu esporte nacional, coisas mais sombrias acontecem do outro lado do Canal. Será isso a feiler faster aplicada ao processo histórico descrito nesse artigo do Evans-Pritchard?

Ze Rest In Peace

dezembro 17, 2008

ZIRP, ou o falecimento da política monetária nos EUA.

O dólar caminha para seu fim como moeda de reserva. Despenca em relação ao Euro e ao Yen, num movimento que terá consequências cataclísmicas (numa palavra: carry-trade).

Anos muito curiosos pela frente.