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Terras Raras (Paragem 1)

junho 24, 2011

Provocou-me um antigo daimiô para que eu, usando de minha capacidade de navegar pelos mais variados assuntos (e de meu google-fu, que não se compara ao seu, auto-exilado amigo), considerasse a questão das terras raras. Fiz algumas buscas, mas concretamente, a conclusão que cheguei foi de que o ponto relevante na questão das terras raras não são as ditas cujas, sua distribuição, seus potenciais.

Explica o The Disappearing Spoon que as terras raras de propriamente raro não têm nada (mais detalhes sobre terras raras na wikipedia, que referencia parte do argumento que se segue). Há uma certa complicação em sua separação, não costumam ter uma distribuição tão concentrada como alguns outros metais, costumam estar na companhia de elementos desagradáveis e radioativos, mas, fora isso, não há grandes mistérios. Nem vou puxar aqui a divertida história do mais raro e nobre metal que já existiu: o alumínio.

O problema das terras raras é outro, problema de políticas, problema que retrata de forma exemplar o que é cerne da economia globalizada desta virada de século. No tempo em que terras raras eram basicamente uns elementos engraçadinhos da tabela periódica, os tempos de Tio Tungstênio quando pobres mortais podiam comprar sais radioativos pelo correio, e mesmo tomá-los como tônicos, nós cá no Brasil éramos dos maiores produtores mundiais. As areias monazíticas, que aprendemos na escola ricas no radioativo tório (ao qual voltarei noutra paragem), eram as fontes desses elementos.

Quando eles passaram a ter alguma utilidade, a ser mais que um curioso resíduo, os americanos passaram a ser o grande produtor. E aí, ao final da primeira década da Nova Ordem Mundial, os chineses tomaram o posto onde até o momento estão. E esse é o ponto interessante: como tomaram e por que, mantidas as atuais condições, lá ficarão por um bom tempo.

Once upon a time havia uma fábrica de imãs de alta tecnologia, Magnequench. Uma grande corporação, o que era bom para ela era bom para os EUA, negociou essa fábrica, que não era o seu core business. Os chineses, dizem as más línguas, ficaram tão felizes com esse negócio que inclusive deram a essa corporação possibilidades de entrada em seus mercados que não havia antes. Sábia essa corporação, que hoje vende mais na China que na própria América.

Os chineses, no entanto, percebendo que se ao contrário deles não havia interesse da grande corporação em manter o negócio, já que o que é bom para a grande corporação é bom para os EUA (tanto que depois ela mesma – grande heresia – incorporou-se provisoriamente aos EUA), não havia porque eles chineses mantê-lo lá. E logo fechou-se a mina americana. E logo eles fecharam a fábrica. E mudaram tudo para a China. E lá começaram a extrair, de seus minérios, esses elementos. E a dominar seu comércio para aqueles que se davam ao trabalho de não comprar seus imãs.

O problema dessa história é que, no cálculo frio de seu dever para com os acionistas, a grande corporação não estava errada em fazê-lo. E nisso não vai uma crítica ao capitalismo contemporâneo (coisa à qual voltarei também noutra paragem). Provavelmente a grande corporação seria de fato um obstáculo ao desenvolvimento desse negócio, maior do que seu uso para seu core business. Se a economia americana é disfuncional ao ponto de permitir a destruição de sua base industrial e/ou estratégica em prol de seu dever para com os acionistas (discurso e lenda sobre o qual creio que o buraco é outro – mas coisa que veremos noutras paragens), isso já é outra questão. A desnacionalização/dissolução do negócio não se deve apenas à grande corporação. E aqui tomo um caminho diferente dos que vejo tomados por aí.

O fato de que a China permite às empresas do Ocidente acesso a produtos e insumos por um preço que é um negócio da China mais do que um sucesso é um sintoma. A China é uma ditadura, ponto. Guarda isso na cabeça, amigo, repete várias vezes: a China é uma ditadura. Ditadura. Ao fim e ao cabo, mercado é um jogo no qual as pessoas consentidas pela ditadura participam, jogo no qual as pessoas privilegiadas pela ditadura participam. E pessoas são o crítico disso. Creio que a observação de Fukuyama em Trust (e que bate com o retrato em Os Excluídos, de Yiyun Li), da cultura chinesa como sendo eminentemente familiar, pouco afeita à civic culture e à impessoalidade objetivista (dupla de características que, diga-se de passagem, é meio uma contradição, mas esta é outra paragem) que se demanda no mundo corporativo, continua válida.

A grande corporação e suas irmãs – bem como os gnomos que sonham um dia ser como elas, ou que compartilham de seu Credo e de seu Salve Rainha – amam a China pelos trinkets que ela lhes dá. E invejam seu sucesso, que no fundo vêm de uma liberdade que eles perderam ou vêm perdendo há décadas.

A China hoje é a mãe de todas as externalidades. Se cá como no mundo desenvolvido as empresas estão sujeitas a restrições ambientais, a práticas de governança, a responsabilidades com seus consumidores, ao peso de um aparato legal que torna proibitivamente caros certos processos e atividades, na China isso não é obstáculo para que o desenvolvimento aconteça. Accounting, em ambas as versões que a palavra têm quando traduzida em nossa língua, lá não se aplica. Os custos, portanto, são muito baixos. As responsabilidades, também: do leite das crianças à mãe de todas as Balbinas, às empresas é permitido lucrar, ao estado é permitido criar como se não houvesse amanhã. Se nós país do futuro, a China agora.

Portanto, não dá para competir com a China pelas regras estabelecidas de livre comércio internacional. Não que ela não participe honestamente do livre comércio, ou que ela pratique um câmbio desleal. Essa é uma desculpa ou uma interpretação que não leva em conta o que é o processo social que acontece ali. Uma mudança no câmbio ou nas condições certamente desmantelaria uma operação manufatureira chinesa que, suponho, está em boa parte na fronteira do vermelho. Mas a China triunfa porque ela difere, transfere um custo que as grandes corporações e os gnomos têm que arcar no mundo fora delas. A China triunfa porque, ao fim e ao cabo as suas perdas internacionais são hoje imensas (por perdas internacionais, termo que aproprio e reinvento do falecido Brizola, entenda-se um país produzir e transferir seu meio ambiente, trabalho e sangue para fora do país em termos de troca não favoráveis – a troco de nada, por exemplo – em detrimento da sua população e em benefício do estado ou de algumas elites – no caso chinês – ou de um exterior que impõe as condições desfavoráveis – no caso do endividado Brasil dos 80).

Mas voltando às terras raras: não dá para competir hoje com os chineses, a menos que você esteja disposto ao risco de ter prejuízo se eles resolverem ter prejuizo (ditaduras não respondem a acionistas). E por que, mantidas as atuais condições de “mercado perfeito” de temperatura e pressão, alguém gostaria de fazê-lo?

As elites chinesas estão dispostas a oferecer em holocausto o trabalho de seu povo, sua saúde presente e futura, auferindo em troca as benesses no porvir do grande deus-mercado, materializadas nessa indulgência chamada reservas monetárias (e não só das oficiais). Não há porque não se usufruir disso, dessa tentativa das elites chinesas de abreviar o Purgatório. Claro que uma esmola para um homem que é são tem suas conseqüências. Poeticamente, eu diria que o ópio comes to roost na economia ocidental.

Um pressentimento sobre o pré-sal

outubro 31, 2009

Tem umas semanas que o Hermê postou isso e ninguém comentou.

Maio de 2009. Escrevi esse texto um pouco antes de ver o filme do Peter. Circulei-o entre meia dúzia de amigos, entre os quais o Hermê, que fizeram uma ou outra pergunte. È texto~: não há links. Deixei-o decantar e cá está:

Outro dia, na minha imersão usual na web, concebi uma narrativa sobre a próxima década. Em termos simples: a exploração do pré-sal pode vir a ser um dos maiores erros que a economia brasileira possa ter cometido em sua história.

Hoje, final da primeira década do século XXI, dois fantasmas pairam sobre a indústria do petróleo, dois fantasmas que anunciam sua morte em algum momento deste século. Não são fantasmas desconhecidos, mas assim como na relação entre o cigarro e o câncer (para usar um exemplo bastante conhecido), muita gente tem a negação dessas hipóteses como um cavalo de batalha ideológico ou como um ganha-pão. Mas para apreciar o argumento que construirei, é necessário que se aceite duas premissas:

a)   que o aquecimento global é uma realidade crescentemente aceita e os governos em algum momento tomarão medidas orientadas por essa percepção. Qual seja: não importa se o leitor crê ou não no aquecimento global (entendeu, Luciano), basta apenas admitir a hipótese de que os governos tomem medidas tendo o aquecimento global como justificativa.

b)  que o petróleo, tal como o conhecemos, “picou”. Qual seja: a produção de petróleo tenderá a cair no futuro. Ou se manterá estável por um bom tempo com pressões crescentes de demanda, o que dá no mesmo. Outros formatos de energia a base de carbono fóssil, como xisto e carvão, não são petróleo, mas soluções caras tendo em vista os problemas ambientais adicionais que sua produção e seu emprego trazem (em parte, isso se soma à premissa anterior).

A primeira hipótese é mais ou menos consenso, salvo para alguns setores conservadores cuja aversão aos ambientalistas é maior do que a sua capacidade de aceitar o consenso da ciência. A segunda, digamos assim, corre a boca pequena na comunidade de energia. Não é o tipo da coisa que os governos gostem de tratar, pois os danos à qualidade de vida que o pico do petróleo pode provocar chegarão bem mais cedo que os do aquecimento global.

Hoje praticamente nada da política econômica, seja do Brasil (não adiante colocar no PAC aquecimento solar para casas quando se implanta termoelétricas a carvão num dos países do mundo que mais pode prescindir delas), seja dos demais países, leva essas premissas em conta. Mas até a entrada da década de 20 deste século estes assuntos estarão influindo decisivamente na formulação tanto da política fiscal quanto da de desenvolvimento, seja aqui, seja nos EUA.

Despossuídos poderosos

A quase totalidade das reservas de petróleo do mundo está hoje nas mãos do estado, seja através de empresas suas, seja através de parcerias com o setor privado nas quais o estado tem um poder discricionário bastante significativo. Isto pode ser um problema para quem crê no discurso ideológico da perfeição do mundo privado, o que não é o caso deste que cá escreve.

No entanto, o fato de que as reservas de petróleo hoje estão na mão do estado é um  problema para a indústria. Basicamente, se as empresas americanas (e européias) não mais estão bebendo o milk-shake de árabes, africanos, venezuelanos e, futuramente, brasileiros, se não há uma relação de exploração (no duplo sentido do termo), também não há interessados em manter essa exploração. Qual seja: hoje, e, principalmente, daqui a alguns anos quando a produção do Mar do Norte tiver colapsado, há uma divisão entre os países que produzem petróleo e os que o consomem. E essa divisão não se dá só na geografia: ela se dá na posse e no controle desses recursos e de seus ganhos.

Portanto, um aumento do petróleo quer dizer uma transferência clara de renda dos países consumidores para os países produtores. Os produtores nos países consumidores são cada vez menores. Os “exploradores” (no sentido Galeano da palavra) têm cada vez menos espaço, são cada vez mais raros.

O pico do petróleo deve fazer o preço disparar. Conseqüentemente, essa transferência será cada vez maior, a menos que alguma coisa mude. E como Paris bem vale uma missa, as bases que sustentam a ideologia do livre mercado nesse campo irão se esvanecer em função de valores mais importantes. Como o poder de compra dos eleitores, a necessidade de lhes dar renda e a pressão por mercados para o Mercado.

Trocando as Taxas

Voltemos ao aquecimento global. Toda uma fantasia se desenvolve para criar a ilusão de que pela via de mecanismos de mercado irá se reduzir o consumo de combustíveis fósseis e se gerar incentivos para soluções que removam o carbono da atmosfera. Nos 90, no apogeu da ideologia dos mercados como solução para tudo que foi a belle époque Clinton, cap’n trade se afigurou como a solução para se manter a lógica do mundo ao mesmo tempo em que se resolvia o problema. E na era Bush, os impostos eram o Mal. Atravessando a crise que estamos, no entanto, acho que a fé nos mercados começa a desmoronar, que a aversão ao estado começa a ceder, e que uma taxa sobre combustíveis fósseis virá a ser instituída.

Independente de ser taxa ou cap’n trade, algum mecanismo em que um custo seja imposto sobre a utilização de combustíveis fósseis e a renda conseqüentemente transferida ao estado (tributante ou vendedor de direitos) será adotado. Claro que, privadas dos confortos que o uso desses combustíveis hoje permite, as pessoas ficarão bastante zangadas. Algum agrado ou alívio terá que ser feito.

Dois séculos atrás, exportações e importações eram o local fácil (e corriqueiro) para o estado obter tributação. Hoje, essas taxas caíram praticamente em desuso, com impostos sobre rendimentos e sobre valor agregado/comercialização de produtos sendo as principais fontes de renda dos estados.

Nada impede que mudanças venham a acontecer na área de tributação. Nada impede que a tributação sobre combustíveis fósseis venha a se tornar uma grande fonte de renda para os estados. Assim como a tributação que conhecemos sobre o cigarro, que visa reduzir seu consumo e seus males por tabela (e produzir uma boa receita pela relativa inelasticidade do produto), a tributação sobre o petróleo pode ser uma solução para estados em crise fiscal por conta das medidas que serão tomadas nos próximos anos para reduzir a atual crise econômica. O aquecimento global é um belo (e sincero pretexto) para justificar esse deslocamento de taxas. A redução das outras taxas uma forma visível de mostrar que o Estado está reduzindo seu peso sobre o bolso das empresas e cidadãos.

“Mas isso vai provocar uma grande inflação”, diz um amigo. Bem, ante a necessidade de se produzir taxas de juros negativas, de se impedir uma deflação nas economias em crise do mundo desenvolvido, um choque inflacionário de curto prazo seria “a feature, not a bug”. E daria uma justificativa moral à estagflação que algumas dessas economias passarão.

Antevejo, num prazo não tão longo assim, um deslocamento de taxas. Haverá resistências, haverá pressões da indústria do petróleo. Mas hoje esta está sozinha. Ela só tem dinheiro, mas não tem mais uma significativa clientela de trabalhadores, fornecedores e outros setores da economia (automóveis, por exemplo) vinculados ao seu destino. Cleópatra se depara com Otávio.

Andando para a frente

Peguemos especificamente o caso americano. Há uma maciça destruição criativa para ser feita nos EUA. Não só no estoque de capital nas mãos das empresas, mas nos bens de capital que estão nas mãos da população. As casas onde habitam os americanos, os veículos que permitem que eles trabalhem e comprem, não são compatíveis com o novo mundo do pós-petróleo. Há que se refazer essa equação energética, há que se sucatear muito desse capital.

A transformação dos EUA de uma sociedade aquecida e movida a carvão e petróleo para uma sociedade adaptada a fazer uso mais intenso de mecanismos de conservação de energia e de energias derivadas do sol e da natureza (e aqui não se leia nenhum romantismo ou idealismo bicho-grilo), me parece ser o salto político, tecnológico e produtivo a ser realizado na próxima década. E para que isso aconteça, é necessário que as novas tecnologias tenham uma proteção que tornem-nas competitivas. É necessário que haja recursos para custear seu desenvolvimento e subsidiar a etapa inicial de sua massificação. É necessário que o estado americano não tenha problemas sérios de caixa, de contas externas, ao mesmo tempo que não exerça um footprint significativo sobre o combalido bolso do consumidor americano.

Cabe observar que energia nuclear tal como concebido atualmente não é uma solução. Vários problemas: os preços do combustível atuais refletem a demanda reduzida que há hoje; não há o que se fazer com os resíduos (vide, para tomar um exemplo recentíssimo, o virtual cancelamento do projeto Yucca no orçamento de Obama); e, last but not least, basta um único acidente numa usina do leste europeu para que o pânico se instaure e a indústria vá por terra. E isso sem contar os problemas de proliferação, de restrições à disseminação tecnológica no setor etc.

Adicionalmente, não creio que as formas alternativas de geração de energia em discussão no cenário atual possam, por algumas décadas, se comparar à praticidade, ao volume e ao preço que os combustíveis fósseis permitem hoje. Os projetos de biomassa exigiriam uma quantidade descomunal de água e terra. Projetos de energia solar ainda apresentam os mesmos transientes entre as expectativas nas planilhas dos engenheiros e a realidade de custos e eficiência, tal como aconteceu com a energia nuclear, fora o problema da estocagem de energia. Qual seja: não acredito que uma forma venha a se tornar hegemônica tal como o binômio petróleo-carvão num horizonte próximo. Fontes alternativas de energia não se firmarão por custo individual, mas por decisão política que leva em conta o custo global.

E o que vale para os EUA, vale em boa parte para o restante do mundo desenvolvido.

A queda de braço

Suponhamos que o preço do petróleo, que reza o missal ajusta demanda e oferta, seja dividido em 3 componentes: o custo, a diferença entre seu custo e o custo de quem está com “água pelo nariz”, e o que deveria propriamente se chamar de lucro. A primeira parte, o nome já diz, é custo. A segunda parte é de quem é no fundo o dono, isto é, crescentemente dos estados-nação.

A questão é quem fica com a terceira parte. Numa situação em que o pico do petróleo é uma realidade palpável, a terceira parte tende a ficar cada vez mais significativa. No entanto, numa situação em que os estados estarão reprimindo o consumo de petróleo – e portanto colocando taxas que tomam um naco dessa terceira parte – e em que os estados não têm o menor compromisso com os donos do petróleo (que são outros estados-nação), por que não ficar com essa terceira parte toda? Por que não impor uma tributação que virtualmente liquide com os lucros até o ponto que só reste a produção suficiente para atender à demanda desejada? Perceba-se que para muitos produtores, que estão fora da linha d’água, isso ainda permitirá operar com ganhos significativos (a segunda parte da Árabia Saudita é enorme), mesmo que numa situação onde os custos de exploração são cada vez maiores e as incertezas em relação ao setor altamente desestimulantes ao investimento.

A questão que se coloca é: e quem está na linha d’água? Esse, em alguns momentos, estará afogado.

Meu pressentimento, mau pressentimento

Se o quadro acima vier a se realizar, o Brasil estará fazendo um péssimo negócio com o investimento no pré-sal, talvez o maior passo na direção contrária ao desenvolvimento que já tenhamos dado. O que na cabeça das pessoas é um novo ciclo do ouro, é só um esforço gigantesco de investir naquilo que terá uma importância reduzida no futuro, reduzida à beira da criminalização. O Brasil tem tradição nisso: fomos a última grande economia escravista. Nós e, sintomaticamente, o sul do EUA.

O petróleo do pré-sal será o nível máximo da piscina. Ou será extraído com prejuízo, ou será tributado até a alma. Qualquer esforço nosso de pressionar o mercado gerará, basicamente, ganhos para os produtores cuja geologia os tornou mais eficientes.

Um bom exemplo que temos hoje é a questão do álcool. Como somos praticamente o único produtor, a exportação do álcool brasileiro é pesadamente tributada, ou como proteção e ou, simplesmente pelo fato de “e por que não fazê-lo?”. Ou, para usar um exemplo local, o fato de que o petróleo é praticamente a única coisa sobre a qual não se cobra ICMS: praticamente só o Estado do Rio produzia petróleo quando da Constituinte.

No curto prazo, esse capital investido gerará muitos empregos, muitos ganhos para os setores de mecânica pesada e contrução civil, muita especulação imobiliária em Macaé etc. Mas 2030 não será 2010. Não é o gasto por si só que moverá a economia em 2030, mas a conseqüência do gasto. Se não, teríamos um perfeito moto-perpétuo, e qualquer gasto, por mais estéril que seja, seria válido (há quem acredite nisso – especialmente os devotos do gasto militar – mas não me incluo entre eles). Em 2030 há uma boa chance de termos nas mãos uma grande pirâmide, não no sentido Madoff mas no sentido Queops. E as pirâmides, lembro, eram estruturas concebidas para enterrar pessoas, mortas e vivas, em função de uma projeção sobre o futuro.

Os recursos que serão enterrados pelo Brasil na continuação do século XX seriam necessários para uma melhor inserção no século XXI. A aposta internacional que estaremos fazendo estará na contra-mão do fluxo das idéias, dos valores, das ações dos grandes atores. Infelizmente nossos olhos continuam presos ao presente, voltados à repetição da maldição das commodities que é a nossa fixação em narrar a nossa história econômica como uma sucessão de ciclos exportadores. Ninguém quer sequer admitir que o pré-sal possa entrar no vermelho. Sonha-se em ser uma nova Arábia Saudita, um lugar onde dinheiro jorra fácil do chão. Este é um bom projeto individual para meia dúzia de agraciados pela fortuna, mas uma ambição muito modesta para um país das dimensões e da complexidade do Brasil.

O flagelo de deus

agosto 20, 2009

Meu pobre amigo Luciano, no seu afã de posar de agnóstico devoto de Bach, no seu ceticismo por aspectos da ciênca que são da estima de tree-huggers e outros seres análogos que não ajudam a pagar suas contas nem nunca se dispuseram a lhe oferecer favores de outra natureza, e com sua doçura enquanto personagem público (pessoalmente, Luciano é como nos comentários que ele cá faz, o mais arguto, implacável e irônico opositor que alguém pode ter, razão pela qual é um dos meus mais favoritos amigos tem mais de duas décadas, para revolta e ciume de ex-amigo nosso), acaba por atrair comentários que sugerem pouca compreensão da ciência.

Luciano, basta referenciar cientistas. Assim como você é doutor em ciência política, o que faz com que seus comentários estejam além da mérdia, há bons blogueiros biólogos. Portanto, remeta seu leitor ao Panda’s Thumb, por exemplo. Ou a revistas de ciência, como a New Scientist. Ou ao radical e popular lugar onde toda a esperança cessa ao entrar: o Pharyngula, provavelmente o principal blog de ciência hoje.

Claro que por vezes seus ídolos de “ciência” praticam as maiores traições, veja este recente caso do Lomborg, que você amigo Luciano provavelmente leu no FT – Sceptic switches tack. Um belo caso de um homem abrindo mão do ceticismo mas sem largar o osso que o sustenta. Os anéis, vão se os anéis…

Mas voltando a deus, outro dia passava uma chamada do Millenium com o Dawkins e a namorada me perguntava: “e se você encontrasse com Deus ao morrer, o que você diria?”. E eu respondi: “Com qual deus?” Curiosamente Dawkins deu praticamente a mesma resposta (“qual deus é você?”), segundo ela, que viu o programa (eu não assisto mais – fiquei traumatizado com o desperdício Naomi Klein ante a um desinteressado, ignorante e senilento Lucas Mendes). Provavelmente Dawkins também conhece o argumento do um deus a menos.

BTW, o poster está no escritório do Lar do Hermê em Brasília. Ficou lindo.

Está faltando um Bill Gates

maio 13, 2009

Para muitos, Bil Gates é o mal. Para mim, Bill Gates é um grande sujeito que trouxe a comoditificação do computador. Não me interessa se a solução B ou C teria sido melhor: o fato de que um padrão existe e que as pessoas não estão sendo barradas a produzir naquele padrão torna o mundo muito mais eficiente em termos de escala de produção. Entre um bonsai na mão de Brian Arthur e uma floresta, fico com a floresta.

Mas vamos ao caso: o carro elétrico. A questão que se coloca para a generalização do carro elétrico é o seu curto alcance. No entanto, essa noção de alcance parte da premissa que o carro elétrico deverá ser reabastecido como um automóvel. Mas suponhamos que o carro elétrico, ao invés de ser simplesmente reabastecido numa tomada, possa trocar de bateria? As pessoas trocam o bujão de gás ao invés de enchê-lo, por exemplo.

Isso permitiria grandes ganhos de eficiência na reciclagem de baterias, na adoção de modelos novos e mais eficientes, na entrada de novos produtores com preços mais competitivos.

O que impede? Basicamente, o fato de que trocar as baterias seria uma operação complexa. Mas e se os carros seguirem um padrão em que as baterias estejam na mesma posição de fácil troca? E se você puder chegar num posto e em 2 minutos trocar suas baterias por outras carregadas e continuar sua trip na route 66?

O pré-açucar

março 27, 2009

imvho, não será o pré-sal a redenção energética brasileira, mas a eventual introdução de fuel-cells a base de etanol. O etanol é muito mais seguro que o hidrogênio, muito mais fácil de produzir e estocar, e é nosso.

Esta notícia mostra um passo importante nessa direção. Talvez daqui a 20 anos os motores otto sejam só peças de coleção.

O bebe de Reginaldo

setembro 23, 2008

Na mesma novela que tinha o imortal Barbosa, Fogo no Rabo, o protagonista era um empresário chamado Reginaldo. “Eu nunca vendi uma criança que estivesse com defeito” foi uma das suas notáveis frases.

Certas horas penso que Sarah Palin é algum demoníaco bebe de Reginaldo. Como, por exemplo, no seu amor pela natureza.

soberanos

setembro 10, 2008

Os fundos, soberanos. Como estes, com vontades e limitações morais claras.

Os fundos soberanos não são psicopatas como as corporações. Mas certamente, neuróticos, ranzinzas, cheios de manias.

Choques como este entre os interesses de lucro da Rio Tinto e o caráter dos norugueses serão cada vez mais frequentes.

começou…

setembro 1, 2008

Uns meses atrás, James Lovelock estava pessimista. Aliás, tem algum tempo que ele está pessimista. De fato, há sinais.

O que não quer dizer que nada possa ser feito…

E no comércio não vai nada?

julho 28, 2008

Uma coisa que eu me perguntava outro dia, em função de uma série de discussões que rolava lá no Hermê entre ele e o FYI, é qual o impacto da produção destinada a exportação nas emissões chinesas, agora que a China é a grande culpada em números absolutos das emissões. Bem, a resposta é 33%.

A pergunta é: isso é emissão de quem vende ou de quem compra? Não tenho opinião formada ainda, mas acho que essa pode ser uma questão bastante complicada nos próximos anos.

A evolução em marcha

maio 19, 2008

Ilhas são os laboratórios de engenharia genética da natureza.

Essa notícia é aterrorizante: camundongos transformados em caçadores. Tipo da coisa que mereceria um especial de terror: certamente as cenas são mais brutais que qualquer matança de focas. Mas como não há pessoas diretamente culpadas, nem dá prá posar com camisa da PETA

http://www.guardian.co.uk/environment/2008/may/19/wildlife.endangeredspecies