Archive for the ‘economia’ Category

As meninas da escola saudita na véspera de Trinta

novembro 29, 2011

A virtude e o vício, amigos. Nada mais nobre a se lutar do que pela virtude e contra o vício. Bem, talvez salvar o mundo seja mais relevante. Mas se há uma nobre missão a ser desempenhada, há uma fellowship – ou, para ser mais contemporâneo, um comitê – a assumi-la. E se houve momentos não muito distantes em que heróis salvaram, com notáveis raras exceções®, o mundo, há aqueles que lutam para trazer ordem e perfeição em meio a esta crise. Veja-se o esforço dos alemães e do Banco que zela pela estabilidade do euro. (Não, não usemos cá o termo Banco Central. Este se aplica a instituições com ambigüidades, que visam adicionalmente coisas como manter o nível de emprego e os juros em taxas razoáveis. Lembremo-nos que a dissolução moral começa no bunga bunga e termina na volatilidade conforme as circunstâncias.)

Pois este conjunto de instituições – UE, BCE, FMI – que conseguiu depor o viciado em sexo talhado em Milão que há anos constrangia as pessoas de bem e a Economist como ocupante do governo da Itália, e obter a renúncia de um oligarca de “esquerda” encastelado na Grécia, pondo em ambos os postos flexians com o menor compromisso possível com as perversões corruptas do mundo político local; que conseguiram reendireitar os parlamentos ibéricos, de forma que num corte inglês venham a adquirir as virtudes d’austeridade. Que nome, pois, atribuir a tal conjunto de pessoas para quem cut não se aplica aos detalhes, mas pleno verbo à prática de cortar a própria carne dos orçamentos públicos e das obrigações assumidas de longa data para com os cidadãos, que nome que não Comitê pela propagação da virtude e prevenção do vício?

Há uma história das meninas na escola saudita, de uma década atrás. Os países da Europa são hoje as meninas na escola saudita. Uma série de ficções de ordem moral os fará arder em nome da virtude, zarzuelas de Bayreuth ao fundo diria José. Não vou entrar aqui na discussão técnica dos problemas e das soluções: seria redundante com o muito que se discute no momento, tanta coisa que nem sei por onde começar e fazer justiça a todos. E é inútil. Tal como vejo, mantida a atual institucionalidade européia, não há salvação.

É chegado o momento da Europa derrubar sua República Velha. É chegado o momento de se romper a estrutura federativa tênue, feita para beneficiar o principal Estado, seja em termos populacionais, seja em termos de poderio econômico e exportações, e investir numa estrutura unificada em que as soluções atendam à maioria e não ao maior. É chegada a hora de se derrubar do pedestal São Paulo… perdão, a Alemanha, e se fazer a União vir antes dos Estados.

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Ouvido no Ônibus

novembro 4, 2011

Preparando para sair, ainda sentado.

Dois banco à frente, do outro lado, um típico idiota de nossas ditas classe médias (os 10%), reclama com o trocador: “Nós temos a gasolina mais cara do mundo”.

Não. Nós temos é a moeda mais cara do mundo. A gasolina está barata, como prova o constante engarrafamento. E mais do que ela, está barato o dólar, que permite essas contas idiotas.

Caçando ursos, ou hedge enquanto sexo (portulanos 5)

agosto 10, 2011

“- Fala sério: você não vem aqui para caçar urso?”

Essa é uma piada clássica. Cá nos servirá para refletir sobre a justificativa clássica dos mercados. Hedge existe para reduzir riscos dos produtores. Os mercados servem para financiar as empresas. Sexo existe para a reprodução.

Façam a conta: quantas trepadas são executadas para cada filho que é produzido? Se originalmente, nalgum macaco distante, sexo visava a reprodução, cá entre nós é artifício remoto. Aliás, o sexo como identidade, como discurso de afirmação na polis, é justamente aquele que prescinde totalmente de sua vinculação à reprodução: parada gay.

Sexo, portanto preenche outro papel. E hedge também. Esqueçamos a história da carochinha do agricultor querendo garantir seu preço e do especulador querendo correr o risco. Quase todo mundo que está no mercado está para ganhar dinheiro e não se defender de um risco para seu negócio físico. Para ter prazer imediato e não se perpetuar enquanto carne no tempo bíblico-darwiniano, portanto.

A imagem que eu usava há uns três anos para explicar derivativos e seu papel na crise era esta: o episódio the muffin tops de Seinfeld. No caso, todo mundo quer o top of the muffin, ninguém quer o corpo denso e sem graça do bolinho. Qual seja: todo mundo quer a parte de “rentabilidade” dos papéis e não o custo de carregar o papel. Isto vale tanto para mendigos quanto para fundos de pensão. Portanto, o mercado fornece isso, um mundo sem papéis físicos, um mundo em que ninguém precisa arcar com o custo de carregar as ações ou os grãos para que se tenha a “rentabilidade”.

Voltando às imagens sexuais, o mercado hoje é uma casa de swing na qual não há restrições na entrada de homens desacompanhados. Raros se dão bem e por vezes degenera em gang bang (tipo o caso da AIG). Sabendo as pessoas de que na verdade se trata de um quarto escuro, beleza. Mas a versão oficial ainda é de que se trata de uma caçada.

A bolsa

agosto 8, 2011

Pelo visto estão antecipando o dia de ações de graça.

ditado popular

agosto 4, 2011

– Por que estão subindo de preço os títulos americanos?

– Como diz o ditado popular, se estiver chovendo pica pega uma pequena e enfia rápido antes que sobre uma grande…

De como aprendi a amar os juros altos (portulanos 3)

julho 18, 2011

Amigo Hermê, até essa crise começar em 2007 eu era um franco acusador da incompetência vendida do BACEN em se recusar a baixar os juros. Em 2008 me tornei, como você bem sabe, um defensor entusiasta da política de juros altos do BACEN. O que eu chamo de Modelo MaMei, em homenagem aos seus involuntários criadores Mantega e Meireles. Não pelas razões pelas quais ela é discursada, mas pelos seus reais impactos.

Pensemos com a nossa burrice pragmática de quem sonha coisas claras. Juros atendem a três papéis:

  • para quem poupa vs consome, a relação da criança com o marshmellow, se o come ou se espera por mais um brinde.
  • para quem os paga, um custo no processo de produção/investimento;
  • para quem os recebe, uma renda.

Ao manter a SELIC alta, duas coisas são atendidas. A primeira, principal delas imvho, razão pela qual o Brasil escapou da crise, é que a SELIC alta cria um patamar razoável de remuneração para quem recebe rendas. Não só pessoas físicas que fazem tesouro direto, como fundos de pensão e assemelhados tem uma renda risk free alta o bastante para não se preocupar com ginásticas e inovações que permitam extrair alguns pontinhos de rendimento adicional numa mesma faixa de “risco”. Qual seja, aqui ninguém precisa ficar chamando urubeta de meu alfa, investindo em produtos inovadores com sólidos modelos matemáticos por trás para conseguir manter seu fluxo de renda. A SELIC é o bolsa-família das elites e do mercado.

Os juros altos têm uma segunda conseqüência, perversa, porém com algumas consequências positivas. Eles eliminam idiotas que não conseguem gerar grande rentabilidade. As empresas no Brasil têm margens de lucro absurdas, o que as torna resistentes a eventuais choques. Dirá você que isso é uma sacanagem com o consumidor, e eu direi que sim. Uma sacanagem como o preço de um cafezinho na Suécia. É o welfare do empresariado. Mas é a garantia de que, bem ou mal, os incompetentes não entram e os negócios não são destruídos com tanta facilidade.

Por outro lado, parte significativa do investimento está em outra taxa, a TJLP. E a TJLP tem uma peculiaridade que nenhuma outra taxa tem: ela vem com due diligence. Pois se noutras partes do mundo o capital flui sem complicações e burocracias custosas e demoradas, aqui no Brasil os empresários são obrigados a viver no Templo da Diligência que é o BNDES. A beleza disso é que se investimento (isto é, aquisição de máquinas, modernização de instalações, greenfields) então o capital existe a custo baixo, livre dos ditames de curto prazo a da percepção limitada de risco do mercado.

O problema que se tem hoje é que as barreiras à entrada de dinheiro de fora, que não é necessário para o país hoje, são muito baixas. E isso faz com que o câmbio seja afetado, achatando as margens das empresas que cá estão (mas tendo um belo efeito anti-inflação).

Noutras paragens voltarei a essa questão das peculiaridades do modelo brasileiro

Terras Raras (Paragem 1)

junho 24, 2011

Provocou-me um antigo daimiô para que eu, usando de minha capacidade de navegar pelos mais variados assuntos (e de meu google-fu, que não se compara ao seu, auto-exilado amigo), considerasse a questão das terras raras. Fiz algumas buscas, mas concretamente, a conclusão que cheguei foi de que o ponto relevante na questão das terras raras não são as ditas cujas, sua distribuição, seus potenciais.

Explica o The Disappearing Spoon que as terras raras de propriamente raro não têm nada (mais detalhes sobre terras raras na wikipedia, que referencia parte do argumento que se segue). Há uma certa complicação em sua separação, não costumam ter uma distribuição tão concentrada como alguns outros metais, costumam estar na companhia de elementos desagradáveis e radioativos, mas, fora isso, não há grandes mistérios. Nem vou puxar aqui a divertida história do mais raro e nobre metal que já existiu: o alumínio.

O problema das terras raras é outro, problema de políticas, problema que retrata de forma exemplar o que é cerne da economia globalizada desta virada de século. No tempo em que terras raras eram basicamente uns elementos engraçadinhos da tabela periódica, os tempos de Tio Tungstênio quando pobres mortais podiam comprar sais radioativos pelo correio, e mesmo tomá-los como tônicos, nós cá no Brasil éramos dos maiores produtores mundiais. As areias monazíticas, que aprendemos na escola ricas no radioativo tório (ao qual voltarei noutra paragem), eram as fontes desses elementos.

Quando eles passaram a ter alguma utilidade, a ser mais que um curioso resíduo, os americanos passaram a ser o grande produtor. E aí, ao final da primeira década da Nova Ordem Mundial, os chineses tomaram o posto onde até o momento estão. E esse é o ponto interessante: como tomaram e por que, mantidas as atuais condições, lá ficarão por um bom tempo.

Once upon a time havia uma fábrica de imãs de alta tecnologia, Magnequench. Uma grande corporação, o que era bom para ela era bom para os EUA, negociou essa fábrica, que não era o seu core business. Os chineses, dizem as más línguas, ficaram tão felizes com esse negócio que inclusive deram a essa corporação possibilidades de entrada em seus mercados que não havia antes. Sábia essa corporação, que hoje vende mais na China que na própria América.

Os chineses, no entanto, percebendo que se ao contrário deles não havia interesse da grande corporação em manter o negócio, já que o que é bom para a grande corporação é bom para os EUA (tanto que depois ela mesma – grande heresia – incorporou-se provisoriamente aos EUA), não havia porque eles chineses mantê-lo lá. E logo fechou-se a mina americana. E logo eles fecharam a fábrica. E mudaram tudo para a China. E lá começaram a extrair, de seus minérios, esses elementos. E a dominar seu comércio para aqueles que se davam ao trabalho de não comprar seus imãs.

O problema dessa história é que, no cálculo frio de seu dever para com os acionistas, a grande corporação não estava errada em fazê-lo. E nisso não vai uma crítica ao capitalismo contemporâneo (coisa à qual voltarei também noutra paragem). Provavelmente a grande corporação seria de fato um obstáculo ao desenvolvimento desse negócio, maior do que seu uso para seu core business. Se a economia americana é disfuncional ao ponto de permitir a destruição de sua base industrial e/ou estratégica em prol de seu dever para com os acionistas (discurso e lenda sobre o qual creio que o buraco é outro – mas coisa que veremos noutras paragens), isso já é outra questão. A desnacionalização/dissolução do negócio não se deve apenas à grande corporação. E aqui tomo um caminho diferente dos que vejo tomados por aí.

O fato de que a China permite às empresas do Ocidente acesso a produtos e insumos por um preço que é um negócio da China mais do que um sucesso é um sintoma. A China é uma ditadura, ponto. Guarda isso na cabeça, amigo, repete várias vezes: a China é uma ditadura. Ditadura. Ao fim e ao cabo, mercado é um jogo no qual as pessoas consentidas pela ditadura participam, jogo no qual as pessoas privilegiadas pela ditadura participam. E pessoas são o crítico disso. Creio que a observação de Fukuyama em Trust (e que bate com o retrato em Os Excluídos, de Yiyun Li), da cultura chinesa como sendo eminentemente familiar, pouco afeita à civic culture e à impessoalidade objetivista (dupla de características que, diga-se de passagem, é meio uma contradição, mas esta é outra paragem) que se demanda no mundo corporativo, continua válida.

A grande corporação e suas irmãs – bem como os gnomos que sonham um dia ser como elas, ou que compartilham de seu Credo e de seu Salve Rainha – amam a China pelos trinkets que ela lhes dá. E invejam seu sucesso, que no fundo vêm de uma liberdade que eles perderam ou vêm perdendo há décadas.

A China hoje é a mãe de todas as externalidades. Se cá como no mundo desenvolvido as empresas estão sujeitas a restrições ambientais, a práticas de governança, a responsabilidades com seus consumidores, ao peso de um aparato legal que torna proibitivamente caros certos processos e atividades, na China isso não é obstáculo para que o desenvolvimento aconteça. Accounting, em ambas as versões que a palavra têm quando traduzida em nossa língua, lá não se aplica. Os custos, portanto, são muito baixos. As responsabilidades, também: do leite das crianças à mãe de todas as Balbinas, às empresas é permitido lucrar, ao estado é permitido criar como se não houvesse amanhã. Se nós país do futuro, a China agora.

Portanto, não dá para competir com a China pelas regras estabelecidas de livre comércio internacional. Não que ela não participe honestamente do livre comércio, ou que ela pratique um câmbio desleal. Essa é uma desculpa ou uma interpretação que não leva em conta o que é o processo social que acontece ali. Uma mudança no câmbio ou nas condições certamente desmantelaria uma operação manufatureira chinesa que, suponho, está em boa parte na fronteira do vermelho. Mas a China triunfa porque ela difere, transfere um custo que as grandes corporações e os gnomos têm que arcar no mundo fora delas. A China triunfa porque, ao fim e ao cabo as suas perdas internacionais são hoje imensas (por perdas internacionais, termo que aproprio e reinvento do falecido Brizola, entenda-se um país produzir e transferir seu meio ambiente, trabalho e sangue para fora do país em termos de troca não favoráveis – a troco de nada, por exemplo – em detrimento da sua população e em benefício do estado ou de algumas elites – no caso chinês – ou de um exterior que impõe as condições desfavoráveis – no caso do endividado Brasil dos 80).

Mas voltando às terras raras: não dá para competir hoje com os chineses, a menos que você esteja disposto ao risco de ter prejuízo se eles resolverem ter prejuizo (ditaduras não respondem a acionistas). E por que, mantidas as atuais condições de “mercado perfeito” de temperatura e pressão, alguém gostaria de fazê-lo?

As elites chinesas estão dispostas a oferecer em holocausto o trabalho de seu povo, sua saúde presente e futura, auferindo em troca as benesses no porvir do grande deus-mercado, materializadas nessa indulgência chamada reservas monetárias (e não só das oficiais). Não há porque não se usufruir disso, dessa tentativa das elites chinesas de abreviar o Purgatório. Claro que uma esmola para um homem que é são tem suas conseqüências. Poeticamente, eu diria que o ópio comes to roost na economia ocidental.

BaruEire dirige-se à escada

novembro 10, 2010

“Every creature on this earth dies alone” (Roberta Sparrow)

Cadê os entusiastas do tigre celta? Onde foram parar os Constantinos da vida, que em plena gestação da crise ainda apontava para o sucesso irlandês? Onde estão os Giambiagi (e seus parceiros do mercado) e o extraordinário superávit fiscal irlandês? Este aqui então é um chiboquete insuperável: educação dez ao invés de fome zero!

Particularmente, acho Belíndia e Engana dois reducionismos problemáticos que não levam em conta os processos sociais e históricos de cada país, más metáforas que atendem a um entendimento pusilâmine do puzzle brasileiro. Mas vou fazer uma gracinha desse tipo. Proponho uma palavra que é uma estratégia comum, e não um contraste: BaruEire: Barueri = Eire.

Na wikipédia, neste momento em que escrevo, na parte de economia de Barueri está escrito o seguinte:

“Barueri é um dos principais centros financeiros do estado de São Paulo, e um dos pólos empresariais mais famosos do Brasil.

Sua economia baseia-se em sua arrecadação de impostos, em especial o ISS, proveniente da prestação de serviços. A cidade abriga o bairro de Alphaville, um dos centros empresariais mais renomados do país, contando com sedes e filiais de grandes empresas. Possui a alíquota de ISS mais baixa da Região Metropolitana de São Paulo, que varia entre 2% e 3%, conforme dados da prefeitura de Barueri.

A cidade é a 9ª mais rica do Brasil, com um produto interno bruto (PIB) de R$ 25.483.663, superior à 20 capitais estaduais e grandes cidades do interior do país, sendo o terceiro maior do estado de São Paulo, atrás apenas das cidades de São Paulo e Guarulhos (Região Metropolitana de São Paulo).”

A Irlanda é um país pequeno cujo sucesso dependeu significativamente de uma política predatória em relação aos seus parceiros de OCDE. Assim como Barueri, que lesou a cidade de São Paulo com uma política predatória em relação ao ISS, a Irlanda “atraiu” o “investimento” externo na área de tecnologia pelas facilidades fiscais oferecidas. Casos como a Google, por exemplo. Até Obama andou reclamando.

O sucesso da austeridade irlandesa a partir do fim dos 80 foi fruto de condições muito específicas. A tentativa recente de austeridade, celebrada pelos festivos do capitalismo, está a dar com os burros n’água. Ajudou-se de forma perversa os bancos. Para nada.

A Irlanda é a bola da vez. Parece que o fechamento da lavanderia fiscal será uma das exigências para salvá-la. O Mercado, impiedoso, não leva em conta que a Irlanda é aquele país que fez todas as libações que ele pregava.

Interessante o silêncio daqueles que outrora pregavam o sucesso de pequenos free-riders – Irlanda, Chile – como se isso fosse factível para um país com a dimensão do Brasil. Como se suas práticas fossem passíveis de generalização. O tempo é cruel com os free-riders.

O caminho do jardim com o gato dentro da caixa morto

novembro 8, 2010

C’est pire qu’un crime, c’est une faute“.

Na hora eu não tinha certeza do autor. Fouché foi um nome que veio à mente na hora – assim como Metternich, cuja contrapartida francesa eu não lembrava na hora e eu tinha quase certeza de ser o autor da frase – mas a frase era perfeita no contexto. A frase, como abertura/síntese de uma pergunta à qual o Dr. Eliezer não entendeu (ou não quis entender) sobre os caminhos que a CVRD que ele criara tomou com a privatização. O caminho de Itajubá e Ouro Preto, o caminho daqueles engenheiros cujo horizonte é o das toupeiras, que só vêem o que escavucam. O caminho dos resultados trimestrais.

Em “Eliezer Baptista, o engenheiro do Brasil”, um documentário interessante mas que sofre do problema geral do documentário nacional – a beatificação do documentado, que tem removidas todas as suas contradições, arestas, elementos que o tornam humanamente falível naquilo em que é notável – há uma passagem, um depoimento que por si só vale todo o filme. Raphael de Almeida Magalhães falando porque a CVRD não deveria ser privatizada e qual o papel da empresa para a nação. Do ponto de vista estratégico, um erro. A questão é: qual erro?

A matéria da Exame sobre o filme enxerga esse momento (outros passaram ao largo). Mas como boa publicação de negócios, conta ovelhas e pega o cachorro. Não era a capacidade de geração de caixa da CVRD que permitiria viabilizar as obras de infraestrutura. Era o fato de que a CVRD era A empresa brasileira de logística. A CVRD tinha, como se mostra ao longo do filme, uma capacidade extraordinária de gestão nas áreas de ferrovias e portos. E isto, Raphael bem percebe, valia bem mais para o país do que a mineradora em si. (O cara da Exame, preocupado em pagar seus chiboquetes ao mercado, fica na fantasia do faturamento realizado – e com um erro grotesco, que é comparar uma companhia que só produz tradables com uma que só produz untradables).

Mas para Sérgio Motta e suas privatizações confusas, sempre com Dantas ganhando no final, bem como para o mercado e seu interesse em resultados imediatos, sacrificar uma “oportunidade” em prol da resolução do fator crítico do Custo Brasil era coisa que não se colocava. O problema é que, ao contrário do setor de telecomunicações onde apenas cometeu-se um crime, a regulamentação feita no setor de transportes associada a transformação crescente da Vale numa mineradora teve como conseqüência duas décadas de atraso para o setor de logística no Brasil.

E neste sentido, é também emblemático o depoimento do atual presidente da Vale no filme. Um típico crente do evangelho do mercado, daqueles que não vê diferença entre o que uma empresa faz e o que ela pega na prateleira de congelados do supermercado. O quase suicídio da empresa na fracassada tentativa de compra da Xstrata – erro do qual ele foi salvo pelo governo Lula – era razão suficiente para mandá-lo para o espaço. E ao que parece a hora dele está chegando. Mas por si só isso não reverte uma tragédia que começou com o fabricante de pano para jeans como “capitalista” e por uma década tem o funcionário de carreira de banco de varejo como protagonista. A tragédia da transformação da CVRD na Vale, essa extraordinária empresa de mineração – e nada além disso.

Um quarto de século atrás a CVRD não tinha como exportar para a China. Não havia lá portos capazes de receber os navios concebidos sob a gestão de Eliezer para o comércio com a Ásia. Isso é um dado que não está no filme. Mas é a diferença fundamental para se entender a diferença entre a visão do engenheiro e a do tucanato de negócios.

Um pressentimento sobre o pré-sal

outubro 31, 2009

Tem umas semanas que o Hermê postou isso e ninguém comentou.

Maio de 2009. Escrevi esse texto um pouco antes de ver o filme do Peter. Circulei-o entre meia dúzia de amigos, entre os quais o Hermê, que fizeram uma ou outra pergunte. È texto~: não há links. Deixei-o decantar e cá está:

Outro dia, na minha imersão usual na web, concebi uma narrativa sobre a próxima década. Em termos simples: a exploração do pré-sal pode vir a ser um dos maiores erros que a economia brasileira possa ter cometido em sua história.

Hoje, final da primeira década do século XXI, dois fantasmas pairam sobre a indústria do petróleo, dois fantasmas que anunciam sua morte em algum momento deste século. Não são fantasmas desconhecidos, mas assim como na relação entre o cigarro e o câncer (para usar um exemplo bastante conhecido), muita gente tem a negação dessas hipóteses como um cavalo de batalha ideológico ou como um ganha-pão. Mas para apreciar o argumento que construirei, é necessário que se aceite duas premissas:

a)   que o aquecimento global é uma realidade crescentemente aceita e os governos em algum momento tomarão medidas orientadas por essa percepção. Qual seja: não importa se o leitor crê ou não no aquecimento global (entendeu, Luciano), basta apenas admitir a hipótese de que os governos tomem medidas tendo o aquecimento global como justificativa.

b)  que o petróleo, tal como o conhecemos, “picou”. Qual seja: a produção de petróleo tenderá a cair no futuro. Ou se manterá estável por um bom tempo com pressões crescentes de demanda, o que dá no mesmo. Outros formatos de energia a base de carbono fóssil, como xisto e carvão, não são petróleo, mas soluções caras tendo em vista os problemas ambientais adicionais que sua produção e seu emprego trazem (em parte, isso se soma à premissa anterior).

A primeira hipótese é mais ou menos consenso, salvo para alguns setores conservadores cuja aversão aos ambientalistas é maior do que a sua capacidade de aceitar o consenso da ciência. A segunda, digamos assim, corre a boca pequena na comunidade de energia. Não é o tipo da coisa que os governos gostem de tratar, pois os danos à qualidade de vida que o pico do petróleo pode provocar chegarão bem mais cedo que os do aquecimento global.

Hoje praticamente nada da política econômica, seja do Brasil (não adiante colocar no PAC aquecimento solar para casas quando se implanta termoelétricas a carvão num dos países do mundo que mais pode prescindir delas), seja dos demais países, leva essas premissas em conta. Mas até a entrada da década de 20 deste século estes assuntos estarão influindo decisivamente na formulação tanto da política fiscal quanto da de desenvolvimento, seja aqui, seja nos EUA.

Despossuídos poderosos

A quase totalidade das reservas de petróleo do mundo está hoje nas mãos do estado, seja através de empresas suas, seja através de parcerias com o setor privado nas quais o estado tem um poder discricionário bastante significativo. Isto pode ser um problema para quem crê no discurso ideológico da perfeição do mundo privado, o que não é o caso deste que cá escreve.

No entanto, o fato de que as reservas de petróleo hoje estão na mão do estado é um  problema para a indústria. Basicamente, se as empresas americanas (e européias) não mais estão bebendo o milk-shake de árabes, africanos, venezuelanos e, futuramente, brasileiros, se não há uma relação de exploração (no duplo sentido do termo), também não há interessados em manter essa exploração. Qual seja: hoje, e, principalmente, daqui a alguns anos quando a produção do Mar do Norte tiver colapsado, há uma divisão entre os países que produzem petróleo e os que o consomem. E essa divisão não se dá só na geografia: ela se dá na posse e no controle desses recursos e de seus ganhos.

Portanto, um aumento do petróleo quer dizer uma transferência clara de renda dos países consumidores para os países produtores. Os produtores nos países consumidores são cada vez menores. Os “exploradores” (no sentido Galeano da palavra) têm cada vez menos espaço, são cada vez mais raros.

O pico do petróleo deve fazer o preço disparar. Conseqüentemente, essa transferência será cada vez maior, a menos que alguma coisa mude. E como Paris bem vale uma missa, as bases que sustentam a ideologia do livre mercado nesse campo irão se esvanecer em função de valores mais importantes. Como o poder de compra dos eleitores, a necessidade de lhes dar renda e a pressão por mercados para o Mercado.

Trocando as Taxas

Voltemos ao aquecimento global. Toda uma fantasia se desenvolve para criar a ilusão de que pela via de mecanismos de mercado irá se reduzir o consumo de combustíveis fósseis e se gerar incentivos para soluções que removam o carbono da atmosfera. Nos 90, no apogeu da ideologia dos mercados como solução para tudo que foi a belle époque Clinton, cap’n trade se afigurou como a solução para se manter a lógica do mundo ao mesmo tempo em que se resolvia o problema. E na era Bush, os impostos eram o Mal. Atravessando a crise que estamos, no entanto, acho que a fé nos mercados começa a desmoronar, que a aversão ao estado começa a ceder, e que uma taxa sobre combustíveis fósseis virá a ser instituída.

Independente de ser taxa ou cap’n trade, algum mecanismo em que um custo seja imposto sobre a utilização de combustíveis fósseis e a renda conseqüentemente transferida ao estado (tributante ou vendedor de direitos) será adotado. Claro que, privadas dos confortos que o uso desses combustíveis hoje permite, as pessoas ficarão bastante zangadas. Algum agrado ou alívio terá que ser feito.

Dois séculos atrás, exportações e importações eram o local fácil (e corriqueiro) para o estado obter tributação. Hoje, essas taxas caíram praticamente em desuso, com impostos sobre rendimentos e sobre valor agregado/comercialização de produtos sendo as principais fontes de renda dos estados.

Nada impede que mudanças venham a acontecer na área de tributação. Nada impede que a tributação sobre combustíveis fósseis venha a se tornar uma grande fonte de renda para os estados. Assim como a tributação que conhecemos sobre o cigarro, que visa reduzir seu consumo e seus males por tabela (e produzir uma boa receita pela relativa inelasticidade do produto), a tributação sobre o petróleo pode ser uma solução para estados em crise fiscal por conta das medidas que serão tomadas nos próximos anos para reduzir a atual crise econômica. O aquecimento global é um belo (e sincero pretexto) para justificar esse deslocamento de taxas. A redução das outras taxas uma forma visível de mostrar que o Estado está reduzindo seu peso sobre o bolso das empresas e cidadãos.

“Mas isso vai provocar uma grande inflação”, diz um amigo. Bem, ante a necessidade de se produzir taxas de juros negativas, de se impedir uma deflação nas economias em crise do mundo desenvolvido, um choque inflacionário de curto prazo seria “a feature, not a bug”. E daria uma justificativa moral à estagflação que algumas dessas economias passarão.

Antevejo, num prazo não tão longo assim, um deslocamento de taxas. Haverá resistências, haverá pressões da indústria do petróleo. Mas hoje esta está sozinha. Ela só tem dinheiro, mas não tem mais uma significativa clientela de trabalhadores, fornecedores e outros setores da economia (automóveis, por exemplo) vinculados ao seu destino. Cleópatra se depara com Otávio.

Andando para a frente

Peguemos especificamente o caso americano. Há uma maciça destruição criativa para ser feita nos EUA. Não só no estoque de capital nas mãos das empresas, mas nos bens de capital que estão nas mãos da população. As casas onde habitam os americanos, os veículos que permitem que eles trabalhem e comprem, não são compatíveis com o novo mundo do pós-petróleo. Há que se refazer essa equação energética, há que se sucatear muito desse capital.

A transformação dos EUA de uma sociedade aquecida e movida a carvão e petróleo para uma sociedade adaptada a fazer uso mais intenso de mecanismos de conservação de energia e de energias derivadas do sol e da natureza (e aqui não se leia nenhum romantismo ou idealismo bicho-grilo), me parece ser o salto político, tecnológico e produtivo a ser realizado na próxima década. E para que isso aconteça, é necessário que as novas tecnologias tenham uma proteção que tornem-nas competitivas. É necessário que haja recursos para custear seu desenvolvimento e subsidiar a etapa inicial de sua massificação. É necessário que o estado americano não tenha problemas sérios de caixa, de contas externas, ao mesmo tempo que não exerça um footprint significativo sobre o combalido bolso do consumidor americano.

Cabe observar que energia nuclear tal como concebido atualmente não é uma solução. Vários problemas: os preços do combustível atuais refletem a demanda reduzida que há hoje; não há o que se fazer com os resíduos (vide, para tomar um exemplo recentíssimo, o virtual cancelamento do projeto Yucca no orçamento de Obama); e, last but not least, basta um único acidente numa usina do leste europeu para que o pânico se instaure e a indústria vá por terra. E isso sem contar os problemas de proliferação, de restrições à disseminação tecnológica no setor etc.

Adicionalmente, não creio que as formas alternativas de geração de energia em discussão no cenário atual possam, por algumas décadas, se comparar à praticidade, ao volume e ao preço que os combustíveis fósseis permitem hoje. Os projetos de biomassa exigiriam uma quantidade descomunal de água e terra. Projetos de energia solar ainda apresentam os mesmos transientes entre as expectativas nas planilhas dos engenheiros e a realidade de custos e eficiência, tal como aconteceu com a energia nuclear, fora o problema da estocagem de energia. Qual seja: não acredito que uma forma venha a se tornar hegemônica tal como o binômio petróleo-carvão num horizonte próximo. Fontes alternativas de energia não se firmarão por custo individual, mas por decisão política que leva em conta o custo global.

E o que vale para os EUA, vale em boa parte para o restante do mundo desenvolvido.

A queda de braço

Suponhamos que o preço do petróleo, que reza o missal ajusta demanda e oferta, seja dividido em 3 componentes: o custo, a diferença entre seu custo e o custo de quem está com “água pelo nariz”, e o que deveria propriamente se chamar de lucro. A primeira parte, o nome já diz, é custo. A segunda parte é de quem é no fundo o dono, isto é, crescentemente dos estados-nação.

A questão é quem fica com a terceira parte. Numa situação em que o pico do petróleo é uma realidade palpável, a terceira parte tende a ficar cada vez mais significativa. No entanto, numa situação em que os estados estarão reprimindo o consumo de petróleo – e portanto colocando taxas que tomam um naco dessa terceira parte – e em que os estados não têm o menor compromisso com os donos do petróleo (que são outros estados-nação), por que não ficar com essa terceira parte toda? Por que não impor uma tributação que virtualmente liquide com os lucros até o ponto que só reste a produção suficiente para atender à demanda desejada? Perceba-se que para muitos produtores, que estão fora da linha d’água, isso ainda permitirá operar com ganhos significativos (a segunda parte da Árabia Saudita é enorme), mesmo que numa situação onde os custos de exploração são cada vez maiores e as incertezas em relação ao setor altamente desestimulantes ao investimento.

A questão que se coloca é: e quem está na linha d’água? Esse, em alguns momentos, estará afogado.

Meu pressentimento, mau pressentimento

Se o quadro acima vier a se realizar, o Brasil estará fazendo um péssimo negócio com o investimento no pré-sal, talvez o maior passo na direção contrária ao desenvolvimento que já tenhamos dado. O que na cabeça das pessoas é um novo ciclo do ouro, é só um esforço gigantesco de investir naquilo que terá uma importância reduzida no futuro, reduzida à beira da criminalização. O Brasil tem tradição nisso: fomos a última grande economia escravista. Nós e, sintomaticamente, o sul do EUA.

O petróleo do pré-sal será o nível máximo da piscina. Ou será extraído com prejuízo, ou será tributado até a alma. Qualquer esforço nosso de pressionar o mercado gerará, basicamente, ganhos para os produtores cuja geologia os tornou mais eficientes.

Um bom exemplo que temos hoje é a questão do álcool. Como somos praticamente o único produtor, a exportação do álcool brasileiro é pesadamente tributada, ou como proteção e ou, simplesmente pelo fato de “e por que não fazê-lo?”. Ou, para usar um exemplo local, o fato de que o petróleo é praticamente a única coisa sobre a qual não se cobra ICMS: praticamente só o Estado do Rio produzia petróleo quando da Constituinte.

No curto prazo, esse capital investido gerará muitos empregos, muitos ganhos para os setores de mecânica pesada e contrução civil, muita especulação imobiliária em Macaé etc. Mas 2030 não será 2010. Não é o gasto por si só que moverá a economia em 2030, mas a conseqüência do gasto. Se não, teríamos um perfeito moto-perpétuo, e qualquer gasto, por mais estéril que seja, seria válido (há quem acredite nisso – especialmente os devotos do gasto militar – mas não me incluo entre eles). Em 2030 há uma boa chance de termos nas mãos uma grande pirâmide, não no sentido Madoff mas no sentido Queops. E as pirâmides, lembro, eram estruturas concebidas para enterrar pessoas, mortas e vivas, em função de uma projeção sobre o futuro.

Os recursos que serão enterrados pelo Brasil na continuação do século XX seriam necessários para uma melhor inserção no século XXI. A aposta internacional que estaremos fazendo estará na contra-mão do fluxo das idéias, dos valores, das ações dos grandes atores. Infelizmente nossos olhos continuam presos ao presente, voltados à repetição da maldição das commodities que é a nossa fixação em narrar a nossa história econômica como uma sucessão de ciclos exportadores. Ninguém quer sequer admitir que o pré-sal possa entrar no vermelho. Sonha-se em ser uma nova Arábia Saudita, um lugar onde dinheiro jorra fácil do chão. Este é um bom projeto individual para meia dúzia de agraciados pela fortuna, mas uma ambição muito modesta para um país das dimensões e da complexidade do Brasil.