Archive for the ‘chiboquetes’ Category

O caminho do jardim com o gato dentro da caixa morto

novembro 8, 2010

C’est pire qu’un crime, c’est une faute“.

Na hora eu não tinha certeza do autor. Fouché foi um nome que veio à mente na hora – assim como Metternich, cuja contrapartida francesa eu não lembrava na hora e eu tinha quase certeza de ser o autor da frase – mas a frase era perfeita no contexto. A frase, como abertura/síntese de uma pergunta à qual o Dr. Eliezer não entendeu (ou não quis entender) sobre os caminhos que a CVRD que ele criara tomou com a privatização. O caminho de Itajubá e Ouro Preto, o caminho daqueles engenheiros cujo horizonte é o das toupeiras, que só vêem o que escavucam. O caminho dos resultados trimestrais.

Em “Eliezer Baptista, o engenheiro do Brasil”, um documentário interessante mas que sofre do problema geral do documentário nacional – a beatificação do documentado, que tem removidas todas as suas contradições, arestas, elementos que o tornam humanamente falível naquilo em que é notável – há uma passagem, um depoimento que por si só vale todo o filme. Raphael de Almeida Magalhães falando porque a CVRD não deveria ser privatizada e qual o papel da empresa para a nação. Do ponto de vista estratégico, um erro. A questão é: qual erro?

A matéria da Exame sobre o filme enxerga esse momento (outros passaram ao largo). Mas como boa publicação de negócios, conta ovelhas e pega o cachorro. Não era a capacidade de geração de caixa da CVRD que permitiria viabilizar as obras de infraestrutura. Era o fato de que a CVRD era A empresa brasileira de logística. A CVRD tinha, como se mostra ao longo do filme, uma capacidade extraordinária de gestão nas áreas de ferrovias e portos. E isto, Raphael bem percebe, valia bem mais para o país do que a mineradora em si. (O cara da Exame, preocupado em pagar seus chiboquetes ao mercado, fica na fantasia do faturamento realizado – e com um erro grotesco, que é comparar uma companhia que só produz tradables com uma que só produz untradables).

Mas para Sérgio Motta e suas privatizações confusas, sempre com Dantas ganhando no final, bem como para o mercado e seu interesse em resultados imediatos, sacrificar uma “oportunidade” em prol da resolução do fator crítico do Custo Brasil era coisa que não se colocava. O problema é que, ao contrário do setor de telecomunicações onde apenas cometeu-se um crime, a regulamentação feita no setor de transportes associada a transformação crescente da Vale numa mineradora teve como conseqüência duas décadas de atraso para o setor de logística no Brasil.

E neste sentido, é também emblemático o depoimento do atual presidente da Vale no filme. Um típico crente do evangelho do mercado, daqueles que não vê diferença entre o que uma empresa faz e o que ela pega na prateleira de congelados do supermercado. O quase suicídio da empresa na fracassada tentativa de compra da Xstrata – erro do qual ele foi salvo pelo governo Lula – era razão suficiente para mandá-lo para o espaço. E ao que parece a hora dele está chegando. Mas por si só isso não reverte uma tragédia que começou com o fabricante de pano para jeans como “capitalista” e por uma década tem o funcionário de carreira de banco de varejo como protagonista. A tragédia da transformação da CVRD na Vale, essa extraordinária empresa de mineração – e nada além disso.

Um quarto de século atrás a CVRD não tinha como exportar para a China. Não havia lá portos capazes de receber os navios concebidos sob a gestão de Eliezer para o comércio com a Ásia. Isso é um dado que não está no filme. Mas é a diferença fundamental para se entender a diferença entre a visão do engenheiro e a do tucanato de negócios.

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Globonews crash and burn watch

setembro 22, 2009

Não tenho mais o hábito de ver noticiário na TV. É doloroso. A Globonews então, mais PIG que nunca, nem se fala. Mas por força de jantar junto com meu pai, lá me pego eu tendo que ver meia hora inacreditável. Vamos lá, pegando emprestado o título ao DeLong (o que em si já é um sinal de porque não perco mais meu tempo com “noticiário” de TV):

– Chego e Merval Pereira está falando do Zelaya (linda a ação de nosso governo, btw). Merval deveria, quem sabe, dar um pulinho em algum lugar como o two weeks notice (já que o Al Giordano seria, digamos assim, por demais a esquerda, muito embora gente como o Sullivan o tenha usado de fonte quando do golpe). Talvez aí ele visse que o Zelaya não queria fazer um golpe plebiscitário.

– Depois o mesmo Merval aparece conversando sobre o pré-sal com o Sardenberg. Sardenberg mais ou menos sabe do que se trata um fundo soberano, mas me parece desconhecer que poupança vira investimento em algum lugar. Mas certamente a Petrobrás ter monopólio do pré-sal é um mal.

– Aí vem um editorial ambientalista que pensei: “cara, estão turbinado a Marina”. Qual o que: finalizou-se o editorial – que teceu elogios a nossa política de biocombustíveis que, francamente, não é coisa tõ ambientalista assim (mas essa é outra discussão) – com um ataque ao “retrocesso” (tchan tchan tchan, usinas de carvão pensei quando ouvi a palavra) de se autorizar veículos de passeio movidos a diesel. Vem cá: alguém ali já foi a algum lugar do mundo civilizado, qual seja, algum lugar fora desse país que não seja Miami e adjacências? Alguém ali entende alguma coisa sobre automóveis?

É muito para meia hora!

Dora, a explanadora

julho 2, 2009

Lá no Nassif, o próprio se pergunta sobre a lógica de Dora Kramer. É simples, muito simples: basta olhar qual é a agenda do momento da loja do Grande Partido de Pernambuco. Qual a barbaridade que Jungmann e Roberto Freire estiverem cometendo no momento, qual duplipensar pragmático-oportunista que justifique seu alinhamento político

Olhe para Jungmann e Freire: lá estará Dora. (BTW, Noblat também tem um certo alinhamento com essa loja)

Alma sem batismo, o Virgílio não irá além do purgatório, já que o paraíso estará povoado por pessoas como Beatriz. Mas os Siths de Higienópolis e adjacências lhe arranjarão algum canto.

E aonde eles deveriam estar?

janeiro 2, 2009

Lá no meu amigo Hermê vai um post sobre um post de um blogueiro do Estadão. Noutra peça do mesmo blogueiro lá citada, há uma frase que é uma pérola:

“… além do mais, é praxe entre os líderes do Hamas esconder-se covardemente entre a população civil, o que denota o desprezo desses dirigentes pela vida dos palestinos que eles dizem defender.”

Para começar, o Hamas não diz defender os palestinos: ele os representa. O Hamas ganhou as eleições, eleições limpas, eleições das quais os resultados eram clara e incontestavelmente conhecidos dias depois (ao contrário das eleições americanas, vide a novela Coleman-Franken). Portanto, ao que me consta, membros de um partido vitorioso nas eleições não vivem “escondidos covardemente” no meio da população civil: são parte dela.

Em segundo lugar, qual o problema deles estarem “escondidos covardemente”? É porque Israel – que é um pais que na prática não tem pena de morte – permite que suas forças armadas pratiquem execuções extrajudiciais sobre as não-pessoas dos “territórios“?  E porque essas execuções não levam em conta se não-pessoas como bebês serão também executados, vítimas involuntárias da precisão não-tão-cirúrgica das munições guiadas de aviões e helicópteros, armas de bravos e boni?

Covarde é sempre o Outro, o Outro é sempre Covarde.

Noblat distorcendo os fatos

dezembro 18, 2008

E lá no blog do Noblat está uma pequena notícia, feita para incentivar o rancor ralo da volumosa ala direita dos frequentadores do blog (que é bem democrático, frise-se: há agora lá uma pequena minora contestando o erro): “Correa anuncia calote, mas compra avião de luxo“. O que uma coisa tem a haver com a outra? Calote quer dizer deixar de pagar. Deixar de pagar não quer dizer não ter dinheiro.

Bem, aí mora o erro. Noblat afirma que Correa “anunciou que não tem dinheiro para pagar a dívida externa do seu país“.  Isto é um erro crasso. O Equador não anunciou moratória porque não tinha dinheiro para pagar, como bem mostra esta matéria no Bloomberg. O Equador está contestando judicialmente a dívida. É um direito que assiste a qualquer devedor, direito por demais utilizado neste país. Por exemplo, para pessoas tão preocupadas com o BNDES e com a estabilidade de contratos, peguemos o caso da dívida do setor agrícola, novamente sujeita a “renegociação“. Ou então as confusões decorrentes da desvalorização em 99 sobre os financiamentos de leasing em dólar, pois ao consumidor é dado o direito de ser burro (um ano antes comprou-se um Palio lá em casa, e recusamos a oferta de uma taxa mais baixa em dolar –  eu expliquei para a vendedora que eu tinha estudado macro no livro do Dornbusch).

Mas voltando ao caso do Equador, por tudo que se vê em Wall Street no momento, alguém põe a mão no fogo pela lisura da condução do processo de renegociação que resultou nos papéis que tiveram o pagamento suspenso? Será que não há pequenos deslizes que permitam a contestação dessas dívidas? Alguém se perguntou qual o problema de você ter um país sem moeda própria, isto é, com uma moeda totalmente atrelada aos interesses particulares de parte da economia americana? E por que a promessa de campanha de rever esses contratos é uma violação, mas a senadora e presidente de uma organização sindical patronal mantida por dinheiro público pode conduzir “renegociações”?

Seria interessante o Noblat – que é pago para ser jornalista, o que não é meu caso – fazer um levantamento de quantas pessoas foram de jatinho à posse de Katia Abreu na CNA. Seria interessante saber quais os carros dessas pessoas beneficiadas pela renegociação. Mas isso pode secar as fontes. Melhor promover a salivação daqueles que votarão em Serra, Aécio etc, e fazer o papel de neutro pela via da política da canoagem de Jerry Brown “Paddle a little on the left, paddle a little on the right, and keep on going right down the middle.”

Last but not least, jatinho de luxo é o G4.

Vândalos!

novembro 24, 2008

Fosse uma ação do MST, faço idéia como seria a chamada. Mas a chamada “Vândalos destroem sede do Ibama no Pará” puxa para uma matéria na qual se descreve que “manifestantes” e populares atacaram instalações do órgão público e tentaram invadir o hotel no qual os fiscais estavam hospedados, utilizando de tratores.

Há claro, uma diferença. No caso do MST, são pessoas que querem uma vidinha de merda sob uma ótica de uma ética católica de matriz franciscana. No caso dos depredadores, são pessoas que querem ficar ricas. Há certamente, maior empatia da imprensa com a âmbição destes.

A culpa é do Congresso (cpt. Louis Renault, 1941)

novembro 12, 2008

Um dos problemas do comentarismo que vive de vender palestra e da prestidigitação personalizada das nuvens é que eles acabam virando banda de bar-mitzva, taxistas das idéias que vão para onde o dinheiro lhes paga.

Veja-se por exemplo esse artigo que está lá no Noblat, Um Congresso Autista. Pois no meio de uma crise dessas o Congresso não toma nenhuma medida decisiva como a reforma tributária (cuja proposta em curso foi feita antes da crise, crise a qual está mudando os paradigmas de ação pública lá fora, coisa que não chegou no comentarismo daqui pelo visto) e ainda por cima, vejam vocês, ainda por cima propõe gastar R$ 1,6 bilhões a mais em emendas de parlamentares, um aumento da ordem de 25%.

Enquanto isso, no mundo real, cada vez menos Hollywood e mais Brecht, as massas de otários que acreditaram em governança auto-regulada se insurgem, aqui e lá fora. Só as perdas individuais da Aracruz e da Votorantim foram maiores do que o Congresso fará o governo gastar com essas despesas descricionárias -se e quando elas vierem a ser liberadas pelo executivo – que em geral atendem a pleitos cotidianos de pessoas que não podem contratar alguém que tem “compromisso de atender o cliente em suas necessidades 24 horas por dia”.

De fato, o Congresso tem culpa: era para ter chamado às falas o Bacen e a CVM e pedir explicações de como essas bandalheiras aconteceram e quem ganhou com essa história (como derivativos são soma zero, alguém levou a mesa. Isso ninguém diz – se alguém tiver visto algo me mande um link – o que é muito curioso).

O cara tem uma empresa, que tem clientes. Seria decente colocar uma estimativa de qual será o ganho financeiro de seus clientes com as propostas em curso. Não falo do impacto sobre crescimento que essas medidas mágicas gerariam, ou na redução de transaction costs; simplesmente gostaria de saber o quanto elas vão pagar a menos de impostos ceteris paribus.

Inocência

julho 29, 2008

Once upon a time Lúcia Hippólito foi uma cientista. Agora, ela é uma colunista que fica chocada. Talvez influência do chá das quartas, a frieza analítica que a separava do restante de nossos comentaristas de política sumiu.

Veja-se o caso dessa crítica ao processo de criação da Petrobrás Biocombustíveis. Que absurdo: os partidos políticos fizeram as indicações da diretoria! Um burocrata partidário que foi ministro foi posto na diretoria! Partidos indicaram funcionários de carreira!

So what?

Melhor é o quê? Militantes-companheiros que vão para o board de bancos ou para empresas que são concessões públicas? Pau que bate em Pedro… epa! Pedros do tucanato são imunes! Onde ficam os burocratas de um partido que está no poder? No poder, ora! Por vezes, isso acontece de forma regulada, como o caso da proporz austríaca. Por vezes de forma ampla e selvagem, como o k-street project.

A mulher fala de mérito como se isso fosse uma coisa concreta, e não uma realidade política. Talvez um pouco de de Waal fizesse ela ter uma visão de que a política está nos lugares mais inusitados.

Mas vamos aos detalhes dos chiboquetes mais graves:

O que é triste não é constatar que militantes-companheiros como Miguel Rossetto não fiquem desempregados, porque sempre há um cargo para eles.” Melhor é o quê? Serem empregados pelo “mercado” enquanto seus amigos estão no governo? Mas falar mal de “militantes-companheiros” é legal. Afinal “(…) e sindicalistas (olha eles aí de novo!)” é o tipo da coisa que sempre agrada empresários, que é quem compra palestras.

“(…) fundada na mais sólida meritocracia e, por isso, é uma das maiores empresas do mundo, tenha se tornado palco de disputas partidárias e sindicais.” Que escândalo! Nesse clipping da Radiobrás (várias notícias tratam do assunto) pode se ver o que é uma nomeação que não é “palco de disputas partidárias e sindicais”. O leitor que quiser dar uma passeada nesse link poderá sentir a sólida meritocracia na escolha dos presidentes da Petrobras. Ou será militocracia e o copidesque errou?

Não é a meritocracia que tornou a Petrobras uma das maiores empresas do mundo, mas o monopólio na área de petróleo e a decisão do governo brasileiro de realizar investimentos custosos de prospecção que nenhuma empresa com acionistas e dividendos a pagar correria o risco de realizar. Há vizinho de blog dela, gente especializada no assunto (e com o qual não concordo, fique cá bem claro, pá), que não acredita nessa tão propagada eficiência.

Não que a Petrobras não tenha uma cultura de mérito: em nenhum outro lugar na república “janeleiro” é uma acusação tão grave. Mas onde ela vê “mérito”, (uma vez o concursado lá dentro) eu vejo “sponsored mobility“.

Gerador automático de artigos

julho 27, 2008

Se há uma coisa impressionante é a sobrevivência de Mailson da Nóbrega como comentarista. Nada do que diz ultrapassa o óbvio, nada senão clichê para quem fica salivando as orações de um mercado há muito falecido.

Vejamos este último exemplar, em que ele investe contra o IPEA. O homem defende flat-tax, apontando que os países do leste europeu a adotaram. Pode haver ambição mais modesta em um ser humano? Por que esses portentos econômicos adotaram tão sábio mecanismo? Talvez pela inexistência de uma máquina tributária nos governos comunistas (qual o sentido de uma máquina tributária para cobrar de você mesmo?) e pelo desejo de adotar o que de mais “moderno” havia no discurso conservador no momento em que sairam da cortina (lembremos que o Forbes era o campeão da flat-tax). Uma visita a outra página da wikipedia permitirá constatar que a nossa taxa de 27,5% é bastante baixa para padrões do mundo civilizado.

Mas vamos a mais um pontos absurdo: por que a arrecadação de IR cresceu? É pelo crescimento da renda ou por que o Governo FHC, ao qual Mailson apoiou, não reajustou as faixas, fazendo com que a classe média pagasse proporcionalmente mais?

E as reformas estruturais? Quais são? Por que será que nos 8 anos de FHC nenhuma delas foi prá frente, exceto a terceirização do estado? Será que ele não sabe que a palavra reforma atualmente tem um bad karma? Que, assim como a palavra privatização, ela provoca mais terror do que esperança?

Por que Mailson escreve baboseiras dessas? Porque aqueles que compram sua consultoria não querem ver seus impostos aumentados. Esses chiboquetes servem de propaganda: para os incautos – o vizinho arquiteto que não entende porra nenhuma de economia que afirma para o homem que calcula a inflação oficial o sucesso do plano cruzado – a disseminação de uma tese equivocada; para os clientes, uma afirmação de que nós somos “legais” e, por favor, não comprem serviços desses malvados (e dos amigos deles) que querem esfolar seus bolsos.

Em suma: qualquer “opinião” deveria vir com uma nota explicando quanto aquela proposta beneficiária seus clientes. Isso daria uma perspectiva ao leitor.