Há o mesmo tempo o mesmo tem (portulanos 4)

Buffy: Just tell me what kind of demon I’m fighting.
Travers: Well, that’s the thing, you see. Glory isn’t a demon.
Buffy: What is she?
Travers: She’s a god.
(checkpoint)

 
Indo direto ao ponto para que a ausência de surpresa torne mais surpreendente a trama: o que se tem hoje são crises do capitalismo enquanto ancien régime, que se descobrirá outra coisa em algum momento. Só que após este não vem o mundo maravilhoso em que o proletariado caminha para a restauração do comunismo perdido lá atrás (no advento da agricultura/estado?), nem a continuidade do capitalismo sob outra forma, mas por uma nova contradição de classes entre criadores e agentes. Se lá atrás guildas eram o futuro conflito de classes ainda sem uma especiação clara, podemos dizer hoje o mesmo de venture capital?

Comecemos, pois, nossa história.

Naquele tempo, “Japan, with its purely feudal organization of landed property and its developed petite culture, gives a much truer picture of the European middle ages than all our history books, dictated as these are, for the most part, by bourgeois prejudices. It is very convenient to be “liberal” at the expense of the middle ages.” (K 1, 27)

Sigamos, pois, o ensinamento. No Livro dos Cinco Elementos (ou dos Cinco Anéis, conforme a tradução que preferir), Musashi descreve quatro caminhos: o agricultor, o comerciante, o guerreiro e o carpinteiro. Do comerciante ele fala:

Second is the Way of the merchant. The Sake brewer obtains his ingredients and puts them to use, making his living from the profit he gains according to the quality of the product. Whatever the business, the merchant exists only by taking profit.

Deliciosa descrição de D-M-D’, não acha?

Falta alguém nessa sociedade de Musashi? Quem? Quem não é camponês, burguês, profissional liberal ou operário? Estão nessa Galápagos medieval todos os personagens contemporâneos?

Faltam na pintura os monges. O trabalho dos que escrevem, dos que oram. Sintomático Musashi não ver isso como um caminho. Talvez porque esse seja um caminho no qual coisas concretas – objetos definíveis, trocáveis – não são produzidas. Pois a língua, a continuidade intergeneracional da cultura escrita, o equilíbrio cósmico produzido pela existência do mosteiro, tudo isso é bem non-rival, quase non-excludable. Tudo isso é tão trivial.

O momento de triunfo do capitalismo, em que ele virou o discurso hegemônico, o claro princípio do mercado como organizador do mundo (da mercadoria ao invés da hierarquia como definição das relações humanas como mostra Dumont), foi exatamente o momento em que sua superação começou a se fazer presente, nítida. A revolução industrial pôs a questão do conhecimento/inovação na proa, carranca a simbolizar o barco. No entanto, esse novo é coisa a ser produzida, coisa que requer trabalho, que requer crescentemente mais trabalho, que requer um trabalho diferente, diferenciado, tempo não mais contido no trabalhador da fábrica, mas na máquina, no produto enquanto conceito, um trabalho que não vira produto em si, mas potencial de produto. Um trabalho que ao final resulta em puro capital: o trabalho contido num fonograma, numa prova matemática, num conceito. Infinitos podem usá-lo sem que seja necessário fazer virtualmente nada para recompor o produto/capital novo que passou a existir. E puro, indesgastável capital que se reproduz sem custo-trabalho não gera valor. Esse trabalho está além do princípio do valor-trabalho na sua possibilidade de realização no mercado.
Atente a isso, amigo. No próximo episódio desse continente voltaremos a Buffy.

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