Rumo à estação das barcas (portulanos 1,4142)

Digamos que este é o retorno de saturno de uma conversa casual. Naqueles tempos andávamos de ônibus (eu ainda ando) e conversávamos despreocupadamente, todo o tempo do mundo pela frente. No caso, a companhia era o Furley (AKA Johanes Barbosinha), que posteriormente fez fama como grande contador da história. Atribuíam os enxadristas do fundo do Bloco F ao Furley o conceito de “marxismo exibição” (em oposição ao “marxismo-força”). Furley estava longe do reformismo de outros citados em seu verbete, contemporâneos apenas, mas nunca seus pares. Estes eram os enxadristas, na maioria niteroienses, todos marxistas não alinhados a nenhuma tendência.

Mas o que de notável houve nessa conversa de menos de hora num 998? Sacando de suas notas sobre os Grundrisse, Furley argumentou que uma cantora de ópera cantando no banheiro não gerava valor, mas que havia mais-valia quando a mesma cantora o fazia num teatro pertencente a um burguês.

Tipo da coisa que a ficha não cai na hora, mas que quase três décadas depois é bastante clara para mim (e provavelmente para o Furley, que não encontro faz um par de décadas: curiosamente me contou sobre seus planos quanto ao mercado de livros didáticos): valor é uma relação social (a conversa com Luciano nos comentários deste post por si só é uma paragem – e possivelmente a primeira vez em que me formulei a questão do valor trabalho nesses termos. Aliás, uma discussão entre Furley e Luciano em que eu conseguisse desligar o clown poseur de ambos seria certamente genial)

Poderia aqui entrar com Smith, Dumont etc e tal, mas vou jogar só este trecho de obra-prima roliudiana com descrição clássica de valor-trabalho:

Howard: Gold in Mexico? Why sure there is. Not ten days from here by rail and pack train, there’s a mountain waiting for the right guy to come along, discover a treasure, and then tickle her until she lets him have it. The question is, are you the right guy?…Aw, real bonanzas are few and far between that take a lot of finding. Say, answer me this one, will ya? Why’s gold worth some twenty bucks an ounce?
Man: I don’t know. ‘Cause it’s scarce.
Howard: A thousand men, say, go searching for gold. After six months, one of ‘em is lucky – one out of the thousand. His find represents not only his own labor but that of nine hundred and ninety-nine others to boot. That’s uh, six thousand months or five hundred years scrabbling over mountains, going hungry and thirsty. An ounce of gold, mister, is worth what it is because of the human labor that went into the finding and the getting of it.
(O tesouro de Sierra Madre)

Ambos estão certos e errados. Certo porque é isso mesmo, ambos mecanismos estão presentes. Errados porque descrevem como material, palpável, como da ordem natural, algo que no fundo são alguns dentre vários mecanismos que operam por trás da realidade da regra que é realmente visível, palpável (e nem por isso mais real): dinheiro. Há, portanto, duas relíquias bárbaras ao mesmo tempo nesta cena.

Por que essa conversa fiada, você perguntará? Calma, eu chego lá. Tenho uma reputação envyasada a zelar. Se encontrar Marx, mate-o. Na próxima passagem vamos ao passado para entender o futuro. E depois, quem sabe, perceber que nem sempre a repetição é a mesma, e que a máxima de Tancredi continua válida.

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