De como aprendi a amar os juros altos (portulanos 3)

Amigo Hermê, até essa crise começar em 2007 eu era um franco acusador da incompetência vendida do BACEN em se recusar a baixar os juros. Em 2008 me tornei, como você bem sabe, um defensor entusiasta da política de juros altos do BACEN. O que eu chamo de Modelo MaMei, em homenagem aos seus involuntários criadores Mantega e Meireles. Não pelas razões pelas quais ela é discursada, mas pelos seus reais impactos.

Pensemos com a nossa burrice pragmática de quem sonha coisas claras. Juros atendem a três papéis:

  • para quem poupa vs consome, a relação da criança com o marshmellow, se o come ou se espera por mais um brinde.
  • para quem os paga, um custo no processo de produção/investimento;
  • para quem os recebe, uma renda.

Ao manter a SELIC alta, duas coisas são atendidas. A primeira, principal delas imvho, razão pela qual o Brasil escapou da crise, é que a SELIC alta cria um patamar razoável de remuneração para quem recebe rendas. Não só pessoas físicas que fazem tesouro direto, como fundos de pensão e assemelhados tem uma renda risk free alta o bastante para não se preocupar com ginásticas e inovações que permitam extrair alguns pontinhos de rendimento adicional numa mesma faixa de “risco”. Qual seja, aqui ninguém precisa ficar chamando urubeta de meu alfa, investindo em produtos inovadores com sólidos modelos matemáticos por trás para conseguir manter seu fluxo de renda. A SELIC é o bolsa-família das elites e do mercado.

Os juros altos têm uma segunda conseqüência, perversa, porém com algumas consequências positivas. Eles eliminam idiotas que não conseguem gerar grande rentabilidade. As empresas no Brasil têm margens de lucro absurdas, o que as torna resistentes a eventuais choques. Dirá você que isso é uma sacanagem com o consumidor, e eu direi que sim. Uma sacanagem como o preço de um cafezinho na Suécia. É o welfare do empresariado. Mas é a garantia de que, bem ou mal, os incompetentes não entram e os negócios não são destruídos com tanta facilidade.

Por outro lado, parte significativa do investimento está em outra taxa, a TJLP. E a TJLP tem uma peculiaridade que nenhuma outra taxa tem: ela vem com due diligence. Pois se noutras partes do mundo o capital flui sem complicações e burocracias custosas e demoradas, aqui no Brasil os empresários são obrigados a viver no Templo da Diligência que é o BNDES. A beleza disso é que se investimento (isto é, aquisição de máquinas, modernização de instalações, greenfields) então o capital existe a custo baixo, livre dos ditames de curto prazo a da percepção limitada de risco do mercado.

O problema que se tem hoje é que as barreiras à entrada de dinheiro de fora, que não é necessário para o país hoje, são muito baixas. E isso faz com que o câmbio seja afetado, achatando as margens das empresas que cá estão (mas tendo um belo efeito anti-inflação).

Noutras paragens voltarei a essa questão das peculiaridades do modelo brasileiro

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8 Respostas to “De como aprendi a amar os juros altos (portulanos 3)”

  1. Luciano Says:

    Muito boa análise. Hayek ensina.

  2. Hermenauta Says:

    E no entanto, deve haver alguma outra maneira pela qual o mundo desenvolvido, que goza de juros baixos, consegue ou extrair os benefícios citados de outra forma, ou gozar de outros benefícios maiores. Em outras palavras, não creio que só nós e a Turquia estejamos no caminho certo neste vasto mundo…

  3. ohermenauta Says:

    Elaborando, sua argumentação é mais ou menos como se um médico, ou uma mãe previdente, dissesse o seguinte sobre um paciente acidentado: “Sim, fulano infelizmente está em coma profundo há uns dez anos. Mas o lado bom é que por isso ele não pratica esportes radicais, nem se envolve com drogas.”

    • samurainoutono Says:

      Não Hermê. Digamos que o Brasil está numa dieta. O açúcar passou dos 400, e aí uma sucessão de médicos exigiram do paciente uma dieta permanente e uma série de hábitos ascéticos. Enquanto isso, as outras crianças se divertem com seus maclanches felizes. Em suma: cá o de Vany substituiu a Vani.
      A propósito: as medidas tomadas pelo governo vão bem em cima do ponto: câmbio. Ainda há uma porta a ser reduzida: a remessa de lucros. Mas não demorará.

  4. Moacir Says:

    Talvez, no momento, o Brasil seja o obeso que já perdeu uns dez quilos, continua gordo-e fazendo dieta-, mas está se sentindo cada vez melhor-, e os países desenvolvidos sejam o sujeito magro que quase se matou de tanto comer em uma só refeição-mesmo que o peso total do indivíduo não tenha aumentado tanto. Nem o sofrimento da dieta do gordo justifica o banquete do magro nem a indigestão do magro torna a saúde do gordo menos delicada.

    • samurainoutono Says:

      Mas aí que está Moacir, acho que o caso não é de sofrimento. Uma dieta é uma escolha. Digamos que nesse momento somos uma experiência diferente do restante do mundo, um capitalismo outro que não o anglo-saxão e o asiático.

      • Moacir Says:

        Sempre possível, claro, mas o tempo dirá se os juros anômalos que temos agora são elementos definidores do nosso capitalismo ou se são só uma resposta a certos problemas herdados do passado recente. Afinal, a Suíça tem juros asiáticos, os EUA têm juros suíços, etc,, as diferenças entre os capitalismos dos países desenvolvidos não passam pelas taxas de juros, que são catolicamente baixas. Uma dieta é uma opção, mas é também um sofrimento diretamente proporcional ao “deferment of pleasure” exigido. O problema é que “o açúcar passou dos 400, e aí uma sucessão de médicos exigiram do paciente uma dieta permanente e uma série de hábitos ascéticos.” A esperança dos médicos- e do paciente- é que a “dieta permanente” não seja tão permanente assim e que o gordinho possa, depois de perder umas dezenas de quilos, voltar a cometer as mesmas loucuras das outras crianças (preservada sua individualidade), sem que um maclanche signifique um passeio à beira do abismo.

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