O caminho do jardim com o gato dentro da caixa morto

C’est pire qu’un crime, c’est une faute“.

Na hora eu não tinha certeza do autor. Fouché foi um nome que veio à mente na hora – assim como Metternich, cuja contrapartida francesa eu não lembrava na hora e eu tinha quase certeza de ser o autor da frase – mas a frase era perfeita no contexto. A frase, como abertura/síntese de uma pergunta à qual o Dr. Eliezer não entendeu (ou não quis entender) sobre os caminhos que a CVRD que ele criara tomou com a privatização. O caminho de Itajubá e Ouro Preto, o caminho daqueles engenheiros cujo horizonte é o das toupeiras, que só vêem o que escavucam. O caminho dos resultados trimestrais.

Em “Eliezer Baptista, o engenheiro do Brasil”, um documentário interessante mas que sofre do problema geral do documentário nacional – a beatificação do documentado, que tem removidas todas as suas contradições, arestas, elementos que o tornam humanamente falível naquilo em que é notável – há uma passagem, um depoimento que por si só vale todo o filme. Raphael de Almeida Magalhães falando porque a CVRD não deveria ser privatizada e qual o papel da empresa para a nação. Do ponto de vista estratégico, um erro. A questão é: qual erro?

A matéria da Exame sobre o filme enxerga esse momento (outros passaram ao largo). Mas como boa publicação de negócios, conta ovelhas e pega o cachorro. Não era a capacidade de geração de caixa da CVRD que permitiria viabilizar as obras de infraestrutura. Era o fato de que a CVRD era A empresa brasileira de logística. A CVRD tinha, como se mostra ao longo do filme, uma capacidade extraordinária de gestão nas áreas de ferrovias e portos. E isto, Raphael bem percebe, valia bem mais para o país do que a mineradora em si. (O cara da Exame, preocupado em pagar seus chiboquetes ao mercado, fica na fantasia do faturamento realizado – e com um erro grotesco, que é comparar uma companhia que só produz tradables com uma que só produz untradables).

Mas para Sérgio Motta e suas privatizações confusas, sempre com Dantas ganhando no final, bem como para o mercado e seu interesse em resultados imediatos, sacrificar uma “oportunidade” em prol da resolução do fator crítico do Custo Brasil era coisa que não se colocava. O problema é que, ao contrário do setor de telecomunicações onde apenas cometeu-se um crime, a regulamentação feita no setor de transportes associada a transformação crescente da Vale numa mineradora teve como conseqüência duas décadas de atraso para o setor de logística no Brasil.

E neste sentido, é também emblemático o depoimento do atual presidente da Vale no filme. Um típico crente do evangelho do mercado, daqueles que não vê diferença entre o que uma empresa faz e o que ela pega na prateleira de congelados do supermercado. O quase suicídio da empresa na fracassada tentativa de compra da Xstrata – erro do qual ele foi salvo pelo governo Lula – era razão suficiente para mandá-lo para o espaço. E ao que parece a hora dele está chegando. Mas por si só isso não reverte uma tragédia que começou com o fabricante de pano para jeans como “capitalista” e por uma década tem o funcionário de carreira de banco de varejo como protagonista. A tragédia da transformação da CVRD na Vale, essa extraordinária empresa de mineração – e nada além disso.

Um quarto de século atrás a CVRD não tinha como exportar para a China. Não havia lá portos capazes de receber os navios concebidos sob a gestão de Eliezer para o comércio com a Ásia. Isso é um dado que não está no filme. Mas é a diferença fundamental para se entender a diferença entre a visão do engenheiro e a do tucanato de negócios.

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