Archive for novembro \26\UTC 2010

O silêncio antes do tsunami

novembro 26, 2010

E eis que o romance epistolar da política externa americana chega ao momento em que Valmont vaza. Parece que tem Brasil na história. Em meio a um Rio em pânico, eu e minha toalha esperamos. Cantarolo “…someone better slap me…” antevendo os queixos que cairão.

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Esculacho

novembro 11, 2010

Outro dia eu estava numa apresentação de conjuntura (muito boa por sinal) e fiz um questionamento sobre a política de austeridade do governo Tory. Na minha opinião ela não atendia a nenhuma demanda do mercado traduzida em juros mas, pura e simplesmente, era um esculacho praticado contra os pobres. Até o Boris se revoltou contra os cortes.

Mas isso, agora, é café pequeno. Ian Duncan Smith, um católico que já liderou os tories, quer instituir trabalho “voluntário” como critério para se pagar seguro desemprego. Recusar trabalho é pecado. Se havia dúvidas quanto ao que move o gabinete de milionários que há hoje no Reino Unido acho que elas estão dirimidas.

Consequências? Um acesso de sanidade dos liberais-democratas rompendo a coalizão e fazendo um governo com o Labour assim que a situação social começar a degringolar. Ou alguma distopia na linha Alan Moore.

E música punk de qualidade! Os momentos tatcherianos foram aqueles que produziram o melhor punk rock. E eles voltarão.

BTW, assombrosa a semelhança entre Ian Duncan Smith e Adam James Susan.

BaruEire dirige-se à escada

novembro 10, 2010

“Every creature on this earth dies alone” (Roberta Sparrow)

Cadê os entusiastas do tigre celta? Onde foram parar os Constantinos da vida, que em plena gestação da crise ainda apontava para o sucesso irlandês? Onde estão os Giambiagi (e seus parceiros do mercado) e o extraordinário superávit fiscal irlandês? Este aqui então é um chiboquete insuperável: educação dez ao invés de fome zero!

Particularmente, acho Belíndia e Engana dois reducionismos problemáticos que não levam em conta os processos sociais e históricos de cada país, más metáforas que atendem a um entendimento pusilâmine do puzzle brasileiro. Mas vou fazer uma gracinha desse tipo. Proponho uma palavra que é uma estratégia comum, e não um contraste: BaruEire: Barueri = Eire.

Na wikipédia, neste momento em que escrevo, na parte de economia de Barueri está escrito o seguinte:

“Barueri é um dos principais centros financeiros do estado de São Paulo, e um dos pólos empresariais mais famosos do Brasil.

Sua economia baseia-se em sua arrecadação de impostos, em especial o ISS, proveniente da prestação de serviços. A cidade abriga o bairro de Alphaville, um dos centros empresariais mais renomados do país, contando com sedes e filiais de grandes empresas. Possui a alíquota de ISS mais baixa da Região Metropolitana de São Paulo, que varia entre 2% e 3%, conforme dados da prefeitura de Barueri.

A cidade é a 9ª mais rica do Brasil, com um produto interno bruto (PIB) de R$ 25.483.663, superior à 20 capitais estaduais e grandes cidades do interior do país, sendo o terceiro maior do estado de São Paulo, atrás apenas das cidades de São Paulo e Guarulhos (Região Metropolitana de São Paulo).”

A Irlanda é um país pequeno cujo sucesso dependeu significativamente de uma política predatória em relação aos seus parceiros de OCDE. Assim como Barueri, que lesou a cidade de São Paulo com uma política predatória em relação ao ISS, a Irlanda “atraiu” o “investimento” externo na área de tecnologia pelas facilidades fiscais oferecidas. Casos como a Google, por exemplo. Até Obama andou reclamando.

O sucesso da austeridade irlandesa a partir do fim dos 80 foi fruto de condições muito específicas. A tentativa recente de austeridade, celebrada pelos festivos do capitalismo, está a dar com os burros n’água. Ajudou-se de forma perversa os bancos. Para nada.

A Irlanda é a bola da vez. Parece que o fechamento da lavanderia fiscal será uma das exigências para salvá-la. O Mercado, impiedoso, não leva em conta que a Irlanda é aquele país que fez todas as libações que ele pregava.

Interessante o silêncio daqueles que outrora pregavam o sucesso de pequenos free-riders – Irlanda, Chile – como se isso fosse factível para um país com a dimensão do Brasil. Como se suas práticas fossem passíveis de generalização. O tempo é cruel com os free-riders.

O caminho do jardim com o gato dentro da caixa morto

novembro 8, 2010

C’est pire qu’un crime, c’est une faute“.

Na hora eu não tinha certeza do autor. Fouché foi um nome que veio à mente na hora – assim como Metternich, cuja contrapartida francesa eu não lembrava na hora e eu tinha quase certeza de ser o autor da frase – mas a frase era perfeita no contexto. A frase, como abertura/síntese de uma pergunta à qual o Dr. Eliezer não entendeu (ou não quis entender) sobre os caminhos que a CVRD que ele criara tomou com a privatização. O caminho de Itajubá e Ouro Preto, o caminho daqueles engenheiros cujo horizonte é o das toupeiras, que só vêem o que escavucam. O caminho dos resultados trimestrais.

Em “Eliezer Baptista, o engenheiro do Brasil”, um documentário interessante mas que sofre do problema geral do documentário nacional – a beatificação do documentado, que tem removidas todas as suas contradições, arestas, elementos que o tornam humanamente falível naquilo em que é notável – há uma passagem, um depoimento que por si só vale todo o filme. Raphael de Almeida Magalhães falando porque a CVRD não deveria ser privatizada e qual o papel da empresa para a nação. Do ponto de vista estratégico, um erro. A questão é: qual erro?

A matéria da Exame sobre o filme enxerga esse momento (outros passaram ao largo). Mas como boa publicação de negócios, conta ovelhas e pega o cachorro. Não era a capacidade de geração de caixa da CVRD que permitiria viabilizar as obras de infraestrutura. Era o fato de que a CVRD era A empresa brasileira de logística. A CVRD tinha, como se mostra ao longo do filme, uma capacidade extraordinária de gestão nas áreas de ferrovias e portos. E isto, Raphael bem percebe, valia bem mais para o país do que a mineradora em si. (O cara da Exame, preocupado em pagar seus chiboquetes ao mercado, fica na fantasia do faturamento realizado – e com um erro grotesco, que é comparar uma companhia que só produz tradables com uma que só produz untradables).

Mas para Sérgio Motta e suas privatizações confusas, sempre com Dantas ganhando no final, bem como para o mercado e seu interesse em resultados imediatos, sacrificar uma “oportunidade” em prol da resolução do fator crítico do Custo Brasil era coisa que não se colocava. O problema é que, ao contrário do setor de telecomunicações onde apenas cometeu-se um crime, a regulamentação feita no setor de transportes associada a transformação crescente da Vale numa mineradora teve como conseqüência duas décadas de atraso para o setor de logística no Brasil.

E neste sentido, é também emblemático o depoimento do atual presidente da Vale no filme. Um típico crente do evangelho do mercado, daqueles que não vê diferença entre o que uma empresa faz e o que ela pega na prateleira de congelados do supermercado. O quase suicídio da empresa na fracassada tentativa de compra da Xstrata – erro do qual ele foi salvo pelo governo Lula – era razão suficiente para mandá-lo para o espaço. E ao que parece a hora dele está chegando. Mas por si só isso não reverte uma tragédia que começou com o fabricante de pano para jeans como “capitalista” e por uma década tem o funcionário de carreira de banco de varejo como protagonista. A tragédia da transformação da CVRD na Vale, essa extraordinária empresa de mineração – e nada além disso.

Um quarto de século atrás a CVRD não tinha como exportar para a China. Não havia lá portos capazes de receber os navios concebidos sob a gestão de Eliezer para o comércio com a Ásia. Isso é um dado que não está no filme. Mas é a diferença fundamental para se entender a diferença entre a visão do engenheiro e a do tucanato de negócios.