“Coça aqui no saco” ou “O conto dos 59 Benjamins”

Retomando o tema do post anterior, mais uma manifestação daqueles que vêem a tampa da lata de lixo da história se fechar sobre suas cabeças. Um abaixo assinado. 59 Benjamins, clamando para serem ouvidos, enquanto um carro alegre, cheio de um povo contente, os atropela, indiferente. Benjamins: não personagens de Chico, mas 59 César Benjamins, tão esplendidamente explicado pelo Azenha em “a patética esquerda sem povo”. Aliás, o que há para se dito sobre o abaixo assinado no fundo está ali, um ano antes, no Azenha. Leiam, releiam se já leram antes.

Vejamos a lista. Hum… dois quase nonagenários de esquerda – mas ortodoxamente católicos, porta-vozes das pautas reacionárias em relação a células-tronco, direitos reprodutivos da mulher etc e tal – a abrem (nessa hora eu me lembro de uma matéria do Idelber analisando a questão dos evangélicos no governo Lula, ponto que se a preguiça me permitir tratarei algum dia destes). Depois um ex-juiz do STF indicado por Collor, um outro nomão do mundo jurídico… bem, no Os Amigos do Presidente Lula há a lista têm a maioria dos nomes explicados. Redundante fazê-lo aqui.

Mas como eu sou um perverso patrulhador, vou direto em um deles. Ali não tem só “sociedade civil”, tem também candidato. O 22º é candidato ao Senado pelo partido 23 no RJ. Deve ter sido para ler “… 22. Marcelo Cerqueira 23…”. Por que este é um personagem interessante e paradigmático para se entender certa esquerda brasileira e o ponto que eu fiz no post anterior? Para começar, quem tiver tempo leia sua entrevista no Memória do Movimento Estudantil. Está todo mundo lá meio século atrás, um verdadeiro orkut de parte das elites de esquerda deste meio século, de Serra a Jabor. Gente que está assinando a lista, gente que está com Lula. Trata-se, portanto, de um personagem com história. Bela história. No site do candidato há seu currículo. Lá há referências a suas lutas, uma trajetória de relevo no esforço pela restauração da democracia. Mas há um detalhe que não está ali, pequeno detalhe. Se formos no currículo que está numa proposta de homenagem (da ALERJ) a esse ilustre combatente pela liberdade (sem ironia nesta afirmação), há um pequeno, estranho detalhe. Um detalhe que não consta – no momento em que escrevo – do currículo no site, e que, sinceramente, não consigo entender:

FUNÇÕES PÚBLICAS NA ÁREA DO DIREITO
Advogado do Sistema BNDES, 1975/1994
Consultor Jurídico da IBRASA/BNDES/BNDES par, 1976/1977
Membro Titular da Comissão de Justiça da Câmara do dos Deputados, 1979/1983
Consultor Jurídico do Ministério da Justiça, 1985/1986
Consultor Jurídico do Ministério da Previdência Social, 1986/1986
Procurador-Geral do INCRA, 1993/1993
Procurador-Geral do CADE, 1993/1995.

Reparem que os dois primeiros itens não constam do currículo no site do candidato. Aliás, é a única coisa que não consta. Me pergunto: como um cara que até as pedrinhas portuguesas das calçadas em frente ao Amarelinho e à Fiorentina sabiam que era do PCB consegue entrar para o BNDES em 1975, especificamente para um lugar IBRASA/BNDESpar cuja entrada se dava sem concurso?

Talvez porque o mundo dessas elites fosse pequeno. Um mundo em que o povo entra como um elemento folclórico na história, figurantes de Canal 100. E esse, caro leitor, é o problema que me incomoda em se fazer uma discussão de classes pegando a terminologia do mercado publicitário, a do acesso presente e passado a bens, sejam culturais, sejam materiais. Classes são resultantes de valores, de relações com o mundo do trabalho, com mundos simbólicos, hierarquias por vezes não verbalizadas. Classes são ondas, quebram, superpõe, perecem em espuma. Classes frequentaram a mesma escola, o mesmo bar, integram-se em famílias, sejam de esquerda ou de direita. E atente-se a isso: por vezes a política se faz de direita-esquerda, por vezes se faz por identidade de classes.

Os 4% de que fala o Idelber não estão perdendo a eleição. Estão perdendo a dominação. A nova classe C tem uma identidade própria. Não será a direita atual que irá capturá-la, mas alguma outra que irá se constituir nesta década.

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4 Respostas to ““Coça aqui no saco” ou “O conto dos 59 Benjamins””

  1. Tiago Says:

    No X Congresso do PCB, Ivan Pinheiro denuncia o Comitê Central revisionista:

    Ivan Pinheiro fala sobre seu programa de governo:

  2. Hermenauta Says:

    Mas esse encosto anda por aqui também, vejam só…

  3. samurainoutono Says:

    Pois se esse capixaba não identificado botar cá mais uma peça de propaganda do verdadeiro movimento punk eu vou rickrollar todos os links dele

  4. Tiago Says:

    “Pois se esse capixaba não identificado…”
    Serrano, na verdade. Embora, “capixaba” possa certamente se referir aos naturais do estado do Espírito Santo e aos habitantes da cidade de Vitória, os termos “espirito-santense” para o nativo do Estado e capixaba para o morador da capital- à imagem do que ocorre com “fluminense” para o natural do estado do Rio e carioca para o nascido na “Cidade Maravilhosa”- parece mais adequado, evitando ambiguidades.

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