O enterro da república de 46

A menos que um cisne das trevas incendeie-se em caos, Dilma está eleita no primeiro turno. Há vários ângulos a serem explorados nesse resultado que se aproxima, surpreendente para alguns, mas que para mim é bastante óbvio. Tem um amigo meu que queria até fazer apostas, mas apostas são coisas que não fazem parte do meu axé. Digamos ele é pago para crer, eu para cumprir meu horário. Mas conversava em maio com esse amigo que a eleição já estava decidida, e que as pesquisas que ele citava… as pesquisas, como as agências de risco, só mostram o passado imediato. E um passado amarrado à estrutura de suas perguntas. Um poste com luz, por vezes, portanto. Em inglês, lembro, poll pode tanto ser pesquisa como votação… mas voltando ao amigo, ele via Serra crescendo em Minas, pesquisas muito secretas etc e tal. Violação do quarto mandamento de Notorious BIG, claramente.

Em 1982 eu fazia uma pesquisa (engenharia, não política) numa fábrica que havia cá no Rio, nas cercanias da avenida Brasil. Fábrica de centenas de operários. Antes mesmo das pesquisas (eleitorais) retratarem a movimentação, os operários da fábrica já estavam decididos a votar em Brizola, para surpresa de nós, universitários moradores de bairros litorâneos. O proletariado tem uma percepção distinta das coisas – há que se respeitá-lo nisso (ele lá, eu cá). Os anos seguintes provaram o ridículo onfalocêntrico do PT carioca de então, quando em fins de 1985, um obscuro operário, tendo, se não me falha a memória, a professora Miriam Limoeiro por vice, obteve menos votos que o Partido Humanista na eleição para prefeito. O PT carioca nunca foi lá grande coisa, tendo servido seguidas vezes como esparro das composições políticas do PT nacional. Mas dá pra se votar nele com uma certa tranqüilidade, coisa que se pode dizer de muito poucas legendas cá do Rio.

O ensinamento que ficou foi: circule. Olhe as pesquisas com cuidado. Veja se as perguntas fazem algum senso. Reflita sobre os resultados à luz da teoria, da história. Perceba que o novo não é fruto da vontade de algum ator específico, mas do inesperado ou do longamente maturado. Que a decisão do eleitor vem da exclusão, dança das cadeiras, resta um, e não necessariamente paixão clubística. O que quer dizer que, tal como percebo, identificação partidária quer dizer pouco ou nada no Brasil, mas as vantagens de um incumbent bem sucedido e claramente percebido como tal são nítidas.

Um dos sintomas da modernização da política brasileira é esse. A eleição em 1996 dos obscuros e defeituosos Conde e Pitta mostravam a clara capacidade de um governo razoavelmente bem sucedido de eleger o poste que bem entendesse. E nem César nem Maluf tinham a popularidade, a abrangência de aceitação que o presidente Lula tem.

Derrotar o presidente Lula dependeria deste desejar ser derrotado. Tanto Juscelino quanto FhC desejavam ser derrotados para retornarem triunfantes, seja como presidente em 65, seja numa reedição em bases permanentes da solução parlamentarista de crise institucional de 1961 quatro décadas depois. Lula não. Lula, na sua simplicidade de quem sabe o seu papel simbólico, de quem vem de um mundo de reais pares – o chão de fábrica-, e não de um mundo de pares hierárquicos do reino – a torre de marfim, a oligarquia -, não tem dependência orgânica da bajulação. A lenda diz que ele gosta de coisas simples: mulheres, álcool, futebol. Por vezes até demais, diz-se. So what? Fato é: Lula decidiu que não ia perder. Ao fim e ao cabo, Lula é o PT, um partido com o grave defeito de insistir em agir como partido no sentido estrito num país em que a forma partido tem uma fluidez, uma malemolência típica destes trópicos. Como bom Mick Jagger ele sabe muito bem que fora da banda ele não dura seis meses, e que se a banda sofrerá sem ele, sem a banda que lhe dá suporte ele acaba. E ele nem precisou nos submeter às crueldades como She’s the boss para perceber isso.

Derrotar o presidente Lula dependeria de fechar-se uma coalizão forte em torno de uma candidatura da oposição, uma coalizão que incluísse todo mundo e mais o PMDB, que em si é um mundo à parte com regras de coalizão muito específicas e confusas. O PMDB é um partido-costela: paga-se pela peça inteira mas metade dela é osso. Mas do PMDB falo outra hora. Fato é que a oferta que o PT fez ao PMDB – a vice-presidência de uma chapa favorita nas eleições de um governo popular que está no poder – é uma oferta difícil de ser batida. Para o PMDB, um partido que como a falecida DC italiana tem facções locais tão fortes e bem instaladas que sequer consegue estabelecer uma delas para concorrer à presidência, só a convergência total das oposições atrás de um candidato do próprio partido serviria. Sem isso, as tentações fragmentam o partido. E aí, haja ossos na peça, que continua sendo paga ao quilo, por ambos os lados.

Mas o ponto que dá título a este post é outro. A eleição de Dilma é o enterro do mundo do pré-64. Serra e sua entourage do Partidão (Aloísio, Goldman, Freire) são os remanescentes físicos e institucionais do que foi um mundo do pré-64. Não são continuidades familiares-oligárquicas, como o clã dos Gomes, os Neves, os Sarney, os Caiado e outros tantos. São continuidades de um modelo de fazer política, de relações com a massa da população que não cabe mais num mundo em que os processos de comunicação se pluralizaram e o papel estruturador das classes médias desapareceu.

A partir de 80 o PT (e de um ponto de vista secundário e regionalizado, o PCdoB) passou a ser o foco atrator tanto do movimento operário quanto da juventude de esquerda. O Partidão, que abandonara qualquer perspectiva de ação material para “levar o barco devagar” e conseguir bom convívio, boa posição no jogo político, perdeu qualquer capacidade de cooptação de voluntários. Virou uma clique, um empreendimento familiar. Laços do passado unem pessoas que pertenceram à organização. E se muitas dessas pessoas saíram oficialmente do campo da esquerda têm tempo (César Maia, por exemplo), outros (os Casseta, por exemplo) só são contraditórios para quem não quer perceber. “Because of the kids. They called me Mr Glass” – não se chamava na universidade no início dos 80 a “Reforma” de “A Direita” à toa.

Essa estratégia fazia sentido num mundo político em que uma pequena elite, convivendo nos mesmos espaços urbanos, com as mesmas referências e a não mais que três graus de separação controlava a vida intelectual e política do país. Qualquer biografia de alguém nascido antes dos sessenta vai mostrar isso, o tamanho reduzido e a imbricação dessas elites com sua classe média. Mas o mundo tornou-se complexo demais, diversificado demais, cheio de gente das mais diversas origens demais.

A era das classes médias clássicas acabou. É sintomático que os órgãos de sua doutrinação, a imprensa que chomsquianamente inventa agora as violências do sigilo violado – essa profanação tão sem sentido para quem ganha um único salário, somente salário, não mais que salário-, estejam tão desesperados. Uma imprensa que nunca conseguiu ser de massa, que não consegue incorporar o discurso cultural popular que não seja de forma atrasada, caricata e paternalista. O Padrão Globo de Qualidade não tem lugar num mundo cada vez mais plural. Sintomático que os (ex-)devotos do dirigismo socialista tenham vindo se juntar a ele, servi-lo tão entusiasmadamente.

A irrelevância simbólica vem se juntar à irrelevância numérica dessas classes médias. O povo está solto (ele lá, eu cá, obviamente). Mas o povo hoje tem que ser manipulado diretamente. Fazê-lo através das classes médias não funciona mais. Os medos que movem essas classes médias são quase incompreensíveis para a grande massa. E antes de perceber isso, Folha e Globo, Estadão e Partidão, estarão mortos. Outros tipos de manipulação virão, não tenham dúvida. Mas conduzidas por outras pessoas físicas e, provavelmente outras pessoas jurídicas. Este é o desespero das pessoas e instituições que, herdeiras de um mundo em que o jornalista Carlos Lacerda comandou os carnavais que comandou, vêem um mundo de Lulas e Chávez a bypassá-los, ignorá-los.

Dos 4 candidatos que apareceram no debate da Band, 3 eram oriundos do PT. Isso é o sintoma de uma hegemonia, como as diferentes facções do que foi o MDB de São Paulo que governam o estado há quase três décadas, como Marcelo, Garotinho e César, cisões da árvore do brizolismo. Há que se prestar atenção nisso para se pensar de onde pode vir uma oposição eleitoralmente viável no futuro.

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10 Respostas to “O enterro da república de 46”

  1. Hermenauta Says:

    Acho que você silverbulletou vários pontos desta eleição aí, meu caro. Por exemplo, o comportamento da Veja e do Estadão nestes tempos vem sendo de exacerbação de “confirmation bias”. Não é uma operação política, é uma operação de marketing, antes que a casa caia de vez.

  2. aiaiai Says:

    Caramba 1: que belo texto. Verdadeiro, franco e bem humorado!
    Caramba 2: hermenauta, querido, cadê você? Já é papai?

    • samurainoutono Says:

      Prazer em receber sua visita, Aiaiai! Saudades das conversas lá no Hermenauta.
      Quanto ao segundo caramba, delato que nosso amigo Hermê, até onde me consta, não se encontra ainda na contagem regressiva para a chegada de um bebê. Mas isso ele passa por aqui para explicar depois.

  3. aiaiai Says:

    Vamos ficar esperando os relatos de hermenauta e seu pequeno marujo kkkkkkk…to sempre lá pelas bandas do NPTO …vc q é sumido mesmo!

    • samurainoutono Says:

      Se eu começar a comentar lá no NPTO vai rolar um barraco futebolístico de grandes proporções. Acaba o clima amistoso por lá…

  4. Luciano Dias Says:

    Samurai, what’s the point?

    • samurainoutono Says:

      O ponto, amigo Luciano, o ponto… não sei o que entender por “o ponto”. Se o ponto é algo que dá prá vender e ganhar dinheiro, comer mulher ou coisa parecida, então cá ponto não há, ponto.

      Marquetingue político e formadores de opinião – mitologias de um grupo de orgânicos em extinção com uma comunicação cada vez mais sofisticada, de uma sociedade cada vez mais fragmentada – esses cá servi ao ponto, regados no óleo de cobra dos expertos, tão caramente vendido a candidatos e jornalistas, egos limitados em busca de consenso e incensamento.

      Sintomático que Clown Rove, herói para alguns, tenha tido que voltar atrás em sua crítica à obscura candidata dos republicanos em Delaware. Debord bate à porta, obsolescência das engenharias político-financeiras tradicionais, num mundo em que as triangulações se perdem, em que práticos não são mais necessários. Essa análise no post abaixo pega exatamente o ponto:

      http://www.businessinsider.com/heres-the-real-reason-karl-rove-flipped-out-on-christine-odonnell-2010-9

      Atente a isso, caro amigo. O Pequod não navega mais em mares de baleias, mas de krakens.

  5. Luciano Dias Says:

    Samurai, perdoe-me, mas só consigo ver, em política, o “ponto”. Qual a pertinência de sua hipótese sobre a realidade? Como pode ser refutada?

  6. érico cordeiro Says:

    Brilhante, Samurai!
    Só acho que você não tem o direito de nos deixar tanto tempo sem postagens novas 🙂
    Legal ver o Hermê por aqui – estamos com saudades!!!!!
    E um pouco do Celso, que tá abusando do direito de ser lúcido e de ir direto ao ponto. Exemplo?

    “Eu não acho que a campanha atual seja, fundamentalmente, um esforço golpista, mas tampouco acho que se trate só de ganhar a eleição, o que ninguém lá mais acha que vai dar pra fazer. Acho que a idéia é barrar essa normalização, manter o PT excluído do que é halal para a classe média. Alguém viu o inacreditável artigo do Lamounier na Exame? A idéia é essa: tudo bem que pobre vota com o bolso (porque a elite, todos sabemos, primeiro consulta o Kant dentro de si, e só depois vota), mas porque tem gente da classe média pra cima votando no PT? Malditos. A idéia de que o sujeito que vota no PT possa ter razão, ao menos a partir de outros pressupostos que não os do autor (em si mesmo muito frágeis), que possa votar depois de ter refletido, por exemplo, sobre os méritos comparativos da oposição, é descartada de princípio, com o que a Exame continua formando público para o que ela publica.

    Lamento informar, mas acho que o esforço de oposição à normalização do PT está tendo razoável grau de sucesso. O debate na imprensa está inteiramente 2005. Voltaram as correntes de e-mail “Dilma terrorista me bateu na escola”. Em grau menor do que já foi (porque já foi insuportável), voltou aquele antipetista chato do seu trabalho, que nunca se responsabiliza pelo que fazem os candidatos em quem ele vota, mas acha que você é pessoalmente culpado por qualquer coisa que algum petista safado tenha feito no Amapá.”

    Abração!

  7. Tiago Says:

    “Partidão, que abandonara qualquer perspectiva de ação material para ‘levar o barco devagar’ e conseguir bom convívio, boa posição no jogo político, perdeu qualquer capacidade de cooptação de voluntários. Virou uma clique, um empreendimento familiar.”
    Enquanto isso, o PC do B não vai com a cara de Khruschev-essa é a razão de ser deles-, mas acha o Bolsa-Esmola incrivelmente revolucionária. Ao contrário do PC do B, que não consegue viver longe das carteirinhas dos universitários e das boquinhas do PT, o PCB tem um projeto político sério, verdadeiramente marxista-leninista (ao contrário do peleguismo do PT e do PC do B) e honesto (o Partidão rompeu com o governo Lula ainda antes da crise do Mensalão). Ivan Pinheiro, se eleito, fará a Reforma Agrária, repudiará as dívidas interna e externa e fará a Reforma Agrária, defenderá a educação pública, gratuita e de qualidade para todos os brasileiros. Enfim, fará o que os pelegos do PT/PC do B não têm coragem ou interesse de fazer. O número de Ivan Pinheiro é 21.

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