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Uma curiosa pesquisa eleitoral

setembro 27, 2010

Um amigo me mandou uma pesquisa eleitoral assaz interessante:

http://www.meuvoto2010.org/main

Os resultados de alguns testes:

Eleitor Dilma Serra Marina Plínio Ivan

Samurai

43 20 30 70 53

Hermenauta

33 33 15 20 25

Eleitor 1

58

60

Eleitor 2

45 40 40

Eleitor 3

32

23 -2 30

Eu e Hermê acho que o povo que passa por aqui já conhece. Deixo para quem quiser zoar do indeciso muro de nosso amigo (ele autorizou seu outing). Eu, como pode se constatar, sou um esquerdista legítimo (mas que não vota em candidatos à presidência do DCE – apenas em candidatos com reais chances em eleições majoritárias).

O Eleitor 1 foi quem nos mandou. Militante, ambientalista que põe a pobreza como o principal dos problemas, um praticante acredita em Deus. O Eleitor 2 é um esquerdista daqueles que lê folhas mortas, acreditou em FhC em 94. O terceiro, o mais conservador da lista. Os três, doutores (nenhum da área médica).

Um colega de trabalho, tucano convicto, covista, teve Marina na frente de suas respostas (30 e pouco), seguida de Dilma e Serra (o que faz o maior sentido – ele era Covas e não pefelê). Uma outra colega, do estilo classe média alta zona norte descrente de política teve 20 e poucos para a sua maior preferência. Um terceiro, perto do qual eu sou um moderado do DEM, teve mais de 80 de Plínio e 70 de Ivan.

“Coça aqui no saco” ou “O conto dos 59 Benjamins”

setembro 25, 2010

Retomando o tema do post anterior, mais uma manifestação daqueles que vêem a tampa da lata de lixo da história se fechar sobre suas cabeças. Um abaixo assinado. 59 Benjamins, clamando para serem ouvidos, enquanto um carro alegre, cheio de um povo contente, os atropela, indiferente. Benjamins: não personagens de Chico, mas 59 César Benjamins, tão esplendidamente explicado pelo Azenha em “a patética esquerda sem povo”. Aliás, o que há para se dito sobre o abaixo assinado no fundo está ali, um ano antes, no Azenha. Leiam, releiam se já leram antes.

Vejamos a lista. Hum… dois quase nonagenários de esquerda – mas ortodoxamente católicos, porta-vozes das pautas reacionárias em relação a células-tronco, direitos reprodutivos da mulher etc e tal – a abrem (nessa hora eu me lembro de uma matéria do Idelber analisando a questão dos evangélicos no governo Lula, ponto que se a preguiça me permitir tratarei algum dia destes). Depois um ex-juiz do STF indicado por Collor, um outro nomão do mundo jurídico… bem, no Os Amigos do Presidente Lula há a lista têm a maioria dos nomes explicados. Redundante fazê-lo aqui.

Mas como eu sou um perverso patrulhador, vou direto em um deles. Ali não tem só “sociedade civil”, tem também candidato. O 22º é candidato ao Senado pelo partido 23 no RJ. Deve ter sido para ler “… 22. Marcelo Cerqueira 23…”. Por que este é um personagem interessante e paradigmático para se entender certa esquerda brasileira e o ponto que eu fiz no post anterior? Para começar, quem tiver tempo leia sua entrevista no Memória do Movimento Estudantil. Está todo mundo lá meio século atrás, um verdadeiro orkut de parte das elites de esquerda deste meio século, de Serra a Jabor. Gente que está assinando a lista, gente que está com Lula. Trata-se, portanto, de um personagem com história. Bela história. No site do candidato há seu currículo. Lá há referências a suas lutas, uma trajetória de relevo no esforço pela restauração da democracia. Mas há um detalhe que não está ali, pequeno detalhe. Se formos no currículo que está numa proposta de homenagem (da ALERJ) a esse ilustre combatente pela liberdade (sem ironia nesta afirmação), há um pequeno, estranho detalhe. Um detalhe que não consta – no momento em que escrevo – do currículo no site, e que, sinceramente, não consigo entender:

FUNÇÕES PÚBLICAS NA ÁREA DO DIREITO
Advogado do Sistema BNDES, 1975/1994
Consultor Jurídico da IBRASA/BNDES/BNDES par, 1976/1977
Membro Titular da Comissão de Justiça da Câmara do dos Deputados, 1979/1983
Consultor Jurídico do Ministério da Justiça, 1985/1986
Consultor Jurídico do Ministério da Previdência Social, 1986/1986
Procurador-Geral do INCRA, 1993/1993
Procurador-Geral do CADE, 1993/1995.

Reparem que os dois primeiros itens não constam do currículo no site do candidato. Aliás, é a única coisa que não consta. Me pergunto: como um cara que até as pedrinhas portuguesas das calçadas em frente ao Amarelinho e à Fiorentina sabiam que era do PCB consegue entrar para o BNDES em 1975, especificamente para um lugar IBRASA/BNDESpar cuja entrada se dava sem concurso?

Talvez porque o mundo dessas elites fosse pequeno. Um mundo em que o povo entra como um elemento folclórico na história, figurantes de Canal 100. E esse, caro leitor, é o problema que me incomoda em se fazer uma discussão de classes pegando a terminologia do mercado publicitário, a do acesso presente e passado a bens, sejam culturais, sejam materiais. Classes são resultantes de valores, de relações com o mundo do trabalho, com mundos simbólicos, hierarquias por vezes não verbalizadas. Classes são ondas, quebram, superpõe, perecem em espuma. Classes frequentaram a mesma escola, o mesmo bar, integram-se em famílias, sejam de esquerda ou de direita. E atente-se a isso: por vezes a política se faz de direita-esquerda, por vezes se faz por identidade de classes.

Os 4% de que fala o Idelber não estão perdendo a eleição. Estão perdendo a dominação. A nova classe C tem uma identidade própria. Não será a direita atual que irá capturá-la, mas alguma outra que irá se constituir nesta década.

O enterro da república de 46

setembro 10, 2010

A menos que um cisne das trevas incendeie-se em caos, Dilma está eleita no primeiro turno. Há vários ângulos a serem explorados nesse resultado que se aproxima, surpreendente para alguns, mas que para mim é bastante óbvio. Tem um amigo meu que queria até fazer apostas, mas apostas são coisas que não fazem parte do meu axé. Digamos ele é pago para crer, eu para cumprir meu horário. Mas conversava em maio com esse amigo que a eleição já estava decidida, e que as pesquisas que ele citava… as pesquisas, como as agências de risco, só mostram o passado imediato. E um passado amarrado à estrutura de suas perguntas. Um poste com luz, por vezes, portanto. Em inglês, lembro, poll pode tanto ser pesquisa como votação… mas voltando ao amigo, ele via Serra crescendo em Minas, pesquisas muito secretas etc e tal. Violação do quarto mandamento de Notorious BIG, claramente.

Em 1982 eu fazia uma pesquisa (engenharia, não política) numa fábrica que havia cá no Rio, nas cercanias da avenida Brasil. Fábrica de centenas de operários. Antes mesmo das pesquisas (eleitorais) retratarem a movimentação, os operários da fábrica já estavam decididos a votar em Brizola, para surpresa de nós, universitários moradores de bairros litorâneos. O proletariado tem uma percepção distinta das coisas – há que se respeitá-lo nisso (ele lá, eu cá). Os anos seguintes provaram o ridículo onfalocêntrico do PT carioca de então, quando em fins de 1985, um obscuro operário, tendo, se não me falha a memória, a professora Miriam Limoeiro por vice, obteve menos votos que o Partido Humanista na eleição para prefeito. O PT carioca nunca foi lá grande coisa, tendo servido seguidas vezes como esparro das composições políticas do PT nacional. Mas dá pra se votar nele com uma certa tranqüilidade, coisa que se pode dizer de muito poucas legendas cá do Rio.

O ensinamento que ficou foi: circule. Olhe as pesquisas com cuidado. Veja se as perguntas fazem algum senso. Reflita sobre os resultados à luz da teoria, da história. Perceba que o novo não é fruto da vontade de algum ator específico, mas do inesperado ou do longamente maturado. Que a decisão do eleitor vem da exclusão, dança das cadeiras, resta um, e não necessariamente paixão clubística. O que quer dizer que, tal como percebo, identificação partidária quer dizer pouco ou nada no Brasil, mas as vantagens de um incumbent bem sucedido e claramente percebido como tal são nítidas.

Um dos sintomas da modernização da política brasileira é esse. A eleição em 1996 dos obscuros e defeituosos Conde e Pitta mostravam a clara capacidade de um governo razoavelmente bem sucedido de eleger o poste que bem entendesse. E nem César nem Maluf tinham a popularidade, a abrangência de aceitação que o presidente Lula tem.

Derrotar o presidente Lula dependeria deste desejar ser derrotado. Tanto Juscelino quanto FhC desejavam ser derrotados para retornarem triunfantes, seja como presidente em 65, seja numa reedição em bases permanentes da solução parlamentarista de crise institucional de 1961 quatro décadas depois. Lula não. Lula, na sua simplicidade de quem sabe o seu papel simbólico, de quem vem de um mundo de reais pares – o chão de fábrica-, e não de um mundo de pares hierárquicos do reino – a torre de marfim, a oligarquia -, não tem dependência orgânica da bajulação. A lenda diz que ele gosta de coisas simples: mulheres, álcool, futebol. Por vezes até demais, diz-se. So what? Fato é: Lula decidiu que não ia perder. Ao fim e ao cabo, Lula é o PT, um partido com o grave defeito de insistir em agir como partido no sentido estrito num país em que a forma partido tem uma fluidez, uma malemolência típica destes trópicos. Como bom Mick Jagger ele sabe muito bem que fora da banda ele não dura seis meses, e que se a banda sofrerá sem ele, sem a banda que lhe dá suporte ele acaba. E ele nem precisou nos submeter às crueldades como She’s the boss para perceber isso.

Derrotar o presidente Lula dependeria de fechar-se uma coalizão forte em torno de uma candidatura da oposição, uma coalizão que incluísse todo mundo e mais o PMDB, que em si é um mundo à parte com regras de coalizão muito específicas e confusas. O PMDB é um partido-costela: paga-se pela peça inteira mas metade dela é osso. Mas do PMDB falo outra hora. Fato é que a oferta que o PT fez ao PMDB – a vice-presidência de uma chapa favorita nas eleições de um governo popular que está no poder – é uma oferta difícil de ser batida. Para o PMDB, um partido que como a falecida DC italiana tem facções locais tão fortes e bem instaladas que sequer consegue estabelecer uma delas para concorrer à presidência, só a convergência total das oposições atrás de um candidato do próprio partido serviria. Sem isso, as tentações fragmentam o partido. E aí, haja ossos na peça, que continua sendo paga ao quilo, por ambos os lados.

Mas o ponto que dá título a este post é outro. A eleição de Dilma é o enterro do mundo do pré-64. Serra e sua entourage do Partidão (Aloísio, Goldman, Freire) são os remanescentes físicos e institucionais do que foi um mundo do pré-64. Não são continuidades familiares-oligárquicas, como o clã dos Gomes, os Neves, os Sarney, os Caiado e outros tantos. São continuidades de um modelo de fazer política, de relações com a massa da população que não cabe mais num mundo em que os processos de comunicação se pluralizaram e o papel estruturador das classes médias desapareceu.

A partir de 80 o PT (e de um ponto de vista secundário e regionalizado, o PCdoB) passou a ser o foco atrator tanto do movimento operário quanto da juventude de esquerda. O Partidão, que abandonara qualquer perspectiva de ação material para “levar o barco devagar” e conseguir bom convívio, boa posição no jogo político, perdeu qualquer capacidade de cooptação de voluntários. Virou uma clique, um empreendimento familiar. Laços do passado unem pessoas que pertenceram à organização. E se muitas dessas pessoas saíram oficialmente do campo da esquerda têm tempo (César Maia, por exemplo), outros (os Casseta, por exemplo) só são contraditórios para quem não quer perceber. “Because of the kids. They called me Mr Glass” – não se chamava na universidade no início dos 80 a “Reforma” de “A Direita” à toa.

Essa estratégia fazia sentido num mundo político em que uma pequena elite, convivendo nos mesmos espaços urbanos, com as mesmas referências e a não mais que três graus de separação controlava a vida intelectual e política do país. Qualquer biografia de alguém nascido antes dos sessenta vai mostrar isso, o tamanho reduzido e a imbricação dessas elites com sua classe média. Mas o mundo tornou-se complexo demais, diversificado demais, cheio de gente das mais diversas origens demais.

A era das classes médias clássicas acabou. É sintomático que os órgãos de sua doutrinação, a imprensa que chomsquianamente inventa agora as violências do sigilo violado – essa profanação tão sem sentido para quem ganha um único salário, somente salário, não mais que salário-, estejam tão desesperados. Uma imprensa que nunca conseguiu ser de massa, que não consegue incorporar o discurso cultural popular que não seja de forma atrasada, caricata e paternalista. O Padrão Globo de Qualidade não tem lugar num mundo cada vez mais plural. Sintomático que os (ex-)devotos do dirigismo socialista tenham vindo se juntar a ele, servi-lo tão entusiasmadamente.

A irrelevância simbólica vem se juntar à irrelevância numérica dessas classes médias. O povo está solto (ele lá, eu cá, obviamente). Mas o povo hoje tem que ser manipulado diretamente. Fazê-lo através das classes médias não funciona mais. Os medos que movem essas classes médias são quase incompreensíveis para a grande massa. E antes de perceber isso, Folha e Globo, Estadão e Partidão, estarão mortos. Outros tipos de manipulação virão, não tenham dúvida. Mas conduzidas por outras pessoas físicas e, provavelmente outras pessoas jurídicas. Este é o desespero das pessoas e instituições que, herdeiras de um mundo em que o jornalista Carlos Lacerda comandou os carnavais que comandou, vêem um mundo de Lulas e Chávez a bypassá-los, ignorá-los.

Dos 4 candidatos que apareceram no debate da Band, 3 eram oriundos do PT. Isso é o sintoma de uma hegemonia, como as diferentes facções do que foi o MDB de São Paulo que governam o estado há quase três décadas, como Marcelo, Garotinho e César, cisões da árvore do brizolismo. Há que se prestar atenção nisso para se pensar de onde pode vir uma oposição eleitoralmente viável no futuro.