O que a polícia estava fazendo lá?

Madrugada. A van desce a Ponte e constata que há uma blitz. Desvia (não tinha me dado conta que aquela van era pirata), corta por uma rua, por outra, mas um carro da polícia a espera. Um par de policiais. Um deles avisa aos passageiros que há uma ameaça, que o pessoal do Rio de Janeiro iria invadir as favelas de São Gonçalo. Discursa calma, sensata e longamente sobre a situação de segurança. O outro caminha para lá e para cá com o cara da van. Menos de 10 minutos depois a van está liberada e seguimos. O bom senso típico dos políciais cá do estado (e aqui não vai ironia), ante a uma van lotada de trabalhadores, estudantes e boêmios querendo chegar logo em casa, permite que aquela pequena contravenção continue. Passados o episódio e alguns minutos, eu comento, para o motorista e meia dúzia de gatos pingados remanescentes: “os caras precisam mostrar serviço”. O motorista resplica: “Eles querem o do cafezinho. O chato é que eles só gostam de café espresso, daquele caro”.

Enquanto isso, clama-se por mais recursos para segurança, anuncia-se que estão orçados mais recursos, promete-se mais recursos, fala-se que os recursos existentes para segurança não são usados. Parodiando Naomi Klein, vivemos sob “A Doutrina de Achaque”.

Em menos de uma semana, na voracidade de nosso news cycle, no entanto, a PM foi de Nascimento a Zero-um. Se no final de semana passado Lula e Gilmar expressavam seu choque, agora o comandante pede desculpas porque a “A PM errou”, o que prá mim soa por demais ato-falho.

IMVHO, há um equívoco generalizado na cobertura da imprensa do episódio. Ao invés de ficarmos escandalizados com a violência no Rio, e questionarmos a incompetência da ação da polícia, que tal fazermos a seguinte pergunta: o que a polícia estava fazendo lá? Pode parecer absurda a pergunta, eu sei, mas:

– A polícia não foi lá para expulsar traficantes do Morro dos Macacos. Foi para impedir que traficantes de uma facção rival fossem para lá. Louvável, tirando o fato que lá já há uma sólida presença de traficantes. Portanto, ao cercar o morro, a polícia poderia apenas garantir que determinado grupo de traficantes não viria a ocupar a área.

– Mas ao impedir a invasão, a polícia estaria a defender a população da favela dos efeitos colaterias de uma guerra de quadrilhas. Louvável, fosse esse tipo de ação o padrão da polícia. Não é . Em geral, a polícia não intervem nesses casos.

– Dias depois, parece que o pessoal do Morro dos Macacos invadiu o morro adjacente. E daí? E daí nada.

Há um sério trabalho de jornalismo investigativo (ou de pesquisa acadêmica) a ser feito sobre a questão do crime organizado no Rio de Janeiro. Envolve riscos, riscos muito mais graves do que filmar cenas escandalosa em favelas.  Entre outras possibilidades que certamente existem, as seguintes linhas podem ser conduzidas num trabalho que pode levar tempo mas envolve basicamente dados públicos:

– mapear quem são os atores envolvidos na ação/inação da polícia: qual facção levou vantagem/qual facção perdeu com a operação. Quais forças conduziram a operação, sob que ordens.

– mapear quem são os advogados das pessoas (do crime organizado – que não envolve só tráfico – há as situações de contruções ilegais em favelas e de provimento de serviços públicos paralelos, como proteção, gatonet e transporte, por exemplo) de alguma forma envolvidas (seja diretamente, seja pela geografia) nesse processo, quem está pagando a conta, quais as eventuais conexões políticas desses advogados, quais causas ganharam e em que tribunais. Fazer six degrees e ver até onde o passeio leva.

Claro que daí só poderiam ser obtidas inferências sem valor processual. Mas dicas de onde procurar, onde fazer uma investigação mais profunda, podem aparecer. E isso seria a good beginning.

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2 Respostas to “O que a polícia estava fazendo lá?”

  1. Gato Precambriano Says:

    Você já leu “Tropa de Elite”? Em particular a 2ª parte? Se não, vê lá e depois me conta.

    []’s

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