O flagelo de deus

Meu pobre amigo Luciano, no seu afã de posar de agnóstico devoto de Bach, no seu ceticismo por aspectos da ciênca que são da estima de tree-huggers e outros seres análogos que não ajudam a pagar suas contas nem nunca se dispuseram a lhe oferecer favores de outra natureza, e com sua doçura enquanto personagem público (pessoalmente, Luciano é como nos comentários que ele cá faz, o mais arguto, implacável e irônico opositor que alguém pode ter, razão pela qual é um dos meus mais favoritos amigos tem mais de duas décadas, para revolta e ciume de ex-amigo nosso), acaba por atrair comentários que sugerem pouca compreensão da ciência.

Luciano, basta referenciar cientistas. Assim como você é doutor em ciência política, o que faz com que seus comentários estejam além da mérdia, há bons blogueiros biólogos. Portanto, remeta seu leitor ao Panda’s Thumb, por exemplo. Ou a revistas de ciência, como a New Scientist. Ou ao radical e popular lugar onde toda a esperança cessa ao entrar: o Pharyngula, provavelmente o principal blog de ciência hoje.

Claro que por vezes seus ídolos de “ciência” praticam as maiores traições, veja este recente caso do Lomborg, que você amigo Luciano provavelmente leu no FT – Sceptic switches tack. Um belo caso de um homem abrindo mão do ceticismo mas sem largar o osso que o sustenta. Os anéis, vão se os anéis…

Mas voltando a deus, outro dia passava uma chamada do Millenium com o Dawkins e a namorada me perguntava: “e se você encontrasse com Deus ao morrer, o que você diria?”. E eu respondi: “Com qual deus?” Curiosamente Dawkins deu praticamente a mesma resposta (“qual deus é você?”), segundo ela, que viu o programa (eu não assisto mais – fiquei traumatizado com o desperdício Naomi Klein ante a um desinteressado, ignorante e senilento Lucas Mendes). Provavelmente Dawkins também conhece o argumento do um deus a menos.

BTW, o poster está no escritório do Lar do Hermê em Brasília. Ficou lindo.

16 Respostas to “O flagelo de deus”

  1. Luciano Says:

    Caro Samurai, são tantas coisas que vou respondendo na medida em que a mente atinar com floreios equipotentes. Bom, logo aviso que vou continuar seu amigo apesar do disclosure perigoso feito aí em cima. Quanto aos ciúmes de homem, mencionados também, os lamento: é só o que digo.

  2. Luciano Says:

    De forma geral, no mundo dos blogues e entre amigos, não vejo eficiência em referenciar a cientistas. Amigos sabem respeitar as convenções de uma discussão. Referenciar, parece-me, é iniciar uma cadeia infinita de referências…

  3. Luciano Says:

    Vi o caso do Lomborg. De todo modo, ele continua certo em uma coisa: políticas para lidar com akecimento global não são factíveis, nem darão resultados nos prazos exigidos pela “ciência”. Veja os números do CO2 em 2008…

    • samurainoutono Says:

      Luciano,
      só se prestará atenção nisso quando tiverem se passado alguns anos depois de tarde demais.
      A questão é que será feito com os culpados, já que é um pouco mais grave que second-hand smoke, só para citar um exemplo que tem justificado grandes invasões do estado por pessoas como os Lordes de Sith, por exemplo.
      Sendo bastante cínico e pragmático, está na hora de haver vozes conservadoras que façam uma aposta na ciência, mesmo sabendo que nada será feito porque ninguém na centro-esquerda quer mexer na fantasia do way of life, você bem sabe disso.

  4. Luciano Says:

    O “problema” que vejo em tal negação de Deus – a negação por falta de identidade – é que descarta uma possibilidade sugerida, curiosamente, por aquele filme de Star Trek. A existência da inteligência humana permite supor outros tipos de inteligência.

    • samurainoutono Says:

      Um deus não é uma outra inteligência, a menos que estejamos no Joshverse.
      O problema da “crença em deus” de forma genérica é que, na hora que você aperta, as pessoas não abandonam o poema épico no qual foram criadas. A prática de rituais, ou mesmo a idéia de haja alguma construção moral divinamente ordenada que foi “iluminada” a algum conjunto especial pessoas, não resiste a um fragmento de reflexão. O que não quer dizer que rituais não tenham valor e que não haja formas de conhecimento seja filosófico, seja de outras naturezas, nessas textos e práticas. A questão é que eles não são possíveis de apreensão pela razão científica, nem de diálogo com ela. Eles estão fora da razão, o que não os invalida, assim como Virgílio não é invalidado por não poder percorrer o último terço.

      • Luciano Says:

        Samurai, Deus, nessa versão light, seria exatamente isso: uma outra forma de inteligência. Há várias na Natureza, não apenas a humana. Cremos muito facilmente que a racionalidade é única e estritamente humana. Ibn Rushd, por exemplo, não achava isso. Nem Aristóteles.

  5. Luciano Says:

    Em suma, como filósofo, estou mais interessado no problema do fanatismo e da obsessão do que no problema de Deus. Deus, afinal, matou menos gente que o Partido Comunista, coisa de gente atéia.

    • ogatoprecambriano Says:

      “Coisa de gente atéia” sem dúvida. Mas é curioso como nesses casos os PCs retomam, apesar do professado ateísmo, características típicas de culto religiosos. Sem dúvida é possível ser dogmático sem ser religioso, mas não é possível ser religioso sem ser dogmático, já que toda a religião é fundada em dogma.
      Também acho curioso os religiosos investirem nesse tipo de “placar do campeonato de atrocidades” – ‘Ah, mas os ateus mataram mais, etc, etc.’. Eu acho que isso fala de uma falência moral de dar gosto.

  6. Tiago Says:

    “Deus, afinal, matou menos gente que o Partido Comunista, coisa de gente atéia.”
    Contando o Dilúvio?

  7. Luciano Says:

    Só para quem acredita na versão literal da Bíblia e mesmo assim a população dos tempos não era lá essas coisas. Quanto a Stalin, Mao e Pol Pot, a crença na versão literal do Manifesto não é necessária.

    • Tiago Says:

      Não sei, mas eliminar quase totalmente todas as espécies do planeta parece crime ambiental sério. Deus teria que ouvir um sermão de Marina Silva sobre manejamento sustentável. Também o domínio de Deus sobre os israelitas não levou a um período particularmente forte em boa governança ou respeito mínimo à dignidade humana. Mesmo Stalin, que fez vista grossa às violências do Exército Soviético nos países ocupados, e perseguiu povos soviéticos inteiros, teria hesitado em
      praticar a política de guerra total dos israelitas, sob ordens diretas de Deus, contra os canaanitas e outros povos.

  8. Tiago Says:

    Sorte do Pinochet que o Chile não é tão populoso assim. E os cananeus e outros povos liquidados pelos judeus, de acordo com ordens diretas de Jeová? Para não falar que quase liquidar todas as espécies-inclusive a humana- é crime ambiental sério, faz Marina Silva chorar.

  9. Fique por dentro Deus » Blog Archive » O flagelo de deus « samurai no outono Says:

    […] Deus ao morrer, o que você diria?”. E eu respondi: “Com qual deus? … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

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