Seleção Madraçal

Sai de casa de manhã e, como de costume, está lá o porteiro com a Bíblia aberta.

Houve um tempo em que a Bíblia não estava disponível ao acesso das massas. Havia barreiras de linguagem, de educação, de disponibilidade de livros. As folhas de Ossãe foram espalhadas por Lutero e Gutemberg, mas a capacidade de lê-las e pô-las em contexto não o foi.

Essa forma de ignorância que é o acesso literal e direto – por porteiros e por jogadores de futebol, por exemplo (dois grupos de pessoas cujo discurso por vezes invade meu cotidiano à minha revelia) – a um texto complexo, confuso e com dezenove séculos de comentários que lhe dão sentido quando traduzido, imvho, é danosa. Há coisas que no original foram rimas, há coisas que foram matemática, há coisas que são afirmação cultural, tal qual Camões. Mas para quem qualquer palavra impressa é verdade (e no caso, Verdade), e que não tenha o hábito de contrapor o que leu aqui com o que leu ali com o que sabe não leu acolá… problemas, meus caros, problemas.

Como, por exemplo, a invasão de espaços da vida pública por grupamentos evangélicos. Ela não se dá por evangélicos em geral, coisa que não existe, mas se dá por organizações específicas. E algumas dessas organizações específicas vão usar de todos os recursos possíveis,  pois porque se estão fazendo aquilo é porque deus lo volt. Por exemplo, esse caso da “tomada” da CPI da pedofilia pela Renascer. Ou a comemoração da seleção brasileira no final da Copa das Confederações, tipo da coisa que um dia há de trazer problemas para a seleção brasileira.

Respondendo a minha querida amiga (e torcedora do Madrid) Anlene, fosse eu dirigente da CBF Lúcio não seria mais capitão da Seleção Brasileira. E espero que Kaká tenha o bom senso de dedicar apenas seu dízimo à Renascer. A igreja católica de Castela não me parece (a distância) ser particularmente moderna, e dificilmente será condescendente com um Valerón galáctico.

11 Respostas to “Seleção Madraçal”

  1. anlene Says:

    Paulo, deixei lá no blog do Tulio um comentário que gostaria de dividir com você. Mais que isso, peço sua opinião, porque este tema me deixa muito “kafusa”: serei uma radical das regras? serei uma intolerante? kkkkkkk

    No fundo, todo este blá-blá-blá do politicamente correto e da tolerância às vezes passa por cima dos valores coletivos que permitem a convivência. Só escuto argumentos que batem na tecla da defesa dos direitos individuais e da liberdade de expressão.

    O esporte é o resultado das ações de um grupo que obedece regras muito claras e conhecidas por todos. Esta palavra é fundamental no esporte e muito incômoda para os pseudodefensores da expressão individual e da famigerada tolerância.

    As Regras organizam as ações dos grupos que praticam o esporte. Ninguém chama o que rola dentro do jogo (obediência as regras) de “falta de liberdade de expressão individual”. Não posso dar porrada no adversário e nem fazer um gol com as mãos. Faço parte de um time, de uma equipe e sigo as regras comuns que me permitem vencer um jogo. Não se vence o jogo apenas porque deus ou o diabo me ajudaram mais ou menos na hora de jogar. Se vence porque se trabalha muito em grupo, disciplinadamente, em equipe para que aquele momento seja possível e mágico e mistico ou seja lá o que for.

    A comemoração individual, como se os demais não existissem, como se minhas dificuldades e superações pessoais fossem mais importantes que as do conjunto do qual faço parte é egocentrismo.

    Faço parte de uma equipe que trabalhou muito para vencer o jogo. Vestir minha camisetinha de jesus ou do diabo para exaltar minha fé é no mínimo uma falta de respeito aos demais que não acreditam ou não fazem isso.

    Este é o ponto: o cara estava lá em cima como se fosse um sujeito que não fazia parte de um grupo, de um “coletivo” com diferentes filosofias de vida, religiões e crenças. O resto é discutir sobre as marolas que uma pedra provoca na superfície do lago.

    A pedrada que me atingiu foi a falta “un poquito de por favor”, como dizem aqui na Espanha.

    • samurainoutono Says:

      Anlene,

      faz-se mais carnaval cá com Ronaldo fazendo comercial da Brahma do que com o “eu bilau de jesus” do Kaká.

  2. marcosfaria Says:

    Peraí. O problema não está nas pessoas que interpretam a Bíblia desse ou daquele jeito – como Lutero defendia, aliás. O problema está nos que, em vez disso, simplesmente aceitam a versão do pastor como verdade absoluta.

    A preconceituosa afirmação de que os porteiros e jogadores de futebol não estão preparados para interpretar o que leem é exatamente o argumento dos seus pastores, como era o dos padres medievais (ainda é, aliás), como é o dos mulás.

    No fim das contas, não faz muita diferença de dizer que o povo não está preparado para votar. E os iluminados devem decidir por eles o destino da nação.

    Quanto aos jogadores, quero que entrem em campo e ganhem. Não tenho o menor direito de interferir na comemoração. Como eles não têm direito de interferir na minha forma de comemorar.

    • samurainoutono Says:

      O problema, Marcos, é que moda dos porteiros e jogadores de futebol segue exatamente o que o pastor prega. E como você não os vê lendo história, manuais de filosofia ou de teologia, romances, Paulo Coelho ou seja lá o que for que não a “Palavra do Senhor”, não há muito com o que se exercer a arte de interpretar. A referência ao madraçal é exatamente isso: a imagem (ocidental e exagerada, na verdade, porque é um pouco mais complexo que isso) das crianças repetindo passagens do Corão, sem sugestão de outrs coisa que não a absorção da Palavra.
      No prédio de minha irmã há um porteiro que lê uma volumosa biblia, até porque ele faz curso para tornar-se pastor. Isso, creio, é totalmente fora do padrão usual. No que morei durante dois anos, o porteiro lia bastante coisa, mas era espírita. A moda não é esta, pelo menos na amostra com que convivi em diferentes portarias do Rio. Ou pelos jogadores evangélicos que vi falar na TV.

      Você não é aquilo que você quer ser, Kung-Fu Panda, mas aquilo que a sua história pessoal fez de você. As pessoas com quem você convive, os estímulos aos quais você é submetido, o tempo que te sobra, as 10 mil horas. Há exceções? Há, sempre há, até porque as histórias são muito distintas. Mas há uma moda, mesmo nos excepcionais que compõe a seleção.

      Quanto aos jogadores, quero que joguem futebol. Eu poderia dizer que não tenho nenhum direito de interferir na comemoração se eu achasse que eles, por exemplo, pudessem se despir e sair correndo pelados em campo. Hoje, no entanto, essa comemoração, tão válida para os gregos, me parece que seria caracterizada como atentado ao pudor pela maioria das pessoas (eu acharia legal, riria muito com as minhas filhas). Mas para mim, ateu e praticante eventual de rituais mágicos afro-brasileiros e neo-xamânicos, com formação moral católica linha Puebla, aquele ato de proselitismo beira uma comemoração da delegação olímpica alemã em 36. Façam aquilo em sua casa, na sua igreja, não com as cores do país, em transmissão mundial, após ter-se tocado o hino nacional.

      O proselitismo religioso deveria ser sujeito às mesmas leis que o discurso político e a propaganda são submetidos.

      Quanto à questão do voto, o voto não tem nada a haver com conhecimentos específicos. Em primeiro lugar porque não há “Certo” ou “Errado” na condução dos negócios públicos, por mais que pessoas como FhC, chiboqueteiros do mercado e vegetarianos/comunistas discursem como se isso existisse. Em segundo lugar porque o voto é uma aplicação do princípio da sabedoria das massas, a idéia que o conjunto dos não especialistas é capaz de saber mais que o especialista único. Em terceiro lugar porque as pessoas devem ter a liberdade de cometer escolhas, mesmo que estúpidas. Voto não envolve interpretação de texto, voto não envolve significados “profundos”, voto envolve intuição, empatia, identidade. E isso não só para as pessoas de baixa escolaridade.
      Só um jogador de futebol famoso pela sua capacidade ver ao longe diria que o brasileiro não sabe votar.

  3. Oswaldo Says:

    Olá samurai,
    Acho que voce vai gostar do que segue abaixo: eu endosso integralmente. Quanto ao assunto deste post, pergunto-me: por que isso incomodou a FIFA? Vão proibir também os jogadores de fazerem o já tradicional sinal da cruz antes de entrarem em campo? E os muçulmanos, como é que vão ficar? Afinal, alguém estava reclamando? Deve haver alguma boa razão para isso… Pessoalmente, creio que os jogadores cristãos procurarão doravante ser mais discretos em suas manifestações de fé, restringindo-as ao vestiário, talvez, para evitar confusão – característica marcante dos verdadeiros discípulos de Jesus (se voce observar bem…), sejam eles cultos ou analfabetos.

    Aqui vai o texto:

    A malandragem da dialética

    Como singela homenagem aos professores Antonio Candido de Mello e Sousa e Marilena Chaui, dois dos maiores farsantes intelectuais da história do pensamento neste país, que ontem protagonizaram colossal patifaria em forma de aula, na Universidade de São Paulo, em apoio a uma greve que só atende aos interesses de grupelhos radicais e de seus integrantes criminosos, transcrevo a seguir um breve trecho do livro “A sociedade aberta e seus inimigos”, de sir Karl Popper, acerca de um conceito que fundamenta o pensamento dessa canalha intelectual que seqüestrou o Brasil, a insopitável dialética:

    “A fama de Hegel foi elaborada por aqueles que preferem rápida iniciação nos mais profundos segredos deste mundo às laboriosas exigências técnicas de uma ciência que, afinal de contas, só os pode decepcionar por sua falta de poder para desvendar todos os mistérios. Com efeito, não tardaram em descobrir que nada se podia aplicar com tanta facilidade a qualquer problema de qualquer natureza e, ao mesmo tempo, com tão impressionante, ainda que só aparente, dificuldade, e com tal rapidez, segurança e êxito, nada poderia ser usado de modo mais barato e com menor adestramento e conhecimento científicos e nada daria tão espetacular aspecto científico do que a dialética de Hegel, o misterioso método que substituiu a ‘estéril lógica formal’. O êxito de Hegel marcou o começo da ‘era da desonestidade’ (como denomina Schopenhauer o período do Idealismo germânico), da ‘era da irresponsabilidade’ (como K. Heiden carcateriza a era do totalitarismo moderno); primeiramente, da irresponsabilidade intelectual, e mais tarde, como uma de suas consequências, da irresponsabilidade moral; o começo de uma nova era controlada pela magia das palavras altissonantes e pela força do jargão.”

    http://observatoriodepiratininga.blogspot.com/2009/06/malandragem-da-dialetica.html

    Abraço,
    Oswaldo

    • samurainoutono Says:

      A questão, Oswaldo, é que fazer o sinal da cruz ou ajoelhar no tapetinho é uma coisa, apresentar uma camisa com logo é outra. Se pode Jesus, pode Marlboro, por que não? Afinal Jesus matou muito mais gente que Marlboro.

      Quanto a Popper, “A sociedade aberta e seus inimigos”, que li tem duas décadas, é uma peça de propaganda política que envelheceu mal. Em primeiro lugar, Popper entendia de epistemologia, não de filosofia política. Há erros primários lá, mas vá lá, aceitar-se-ia se o argumento fosse consistente. Não é. Por exemplo, Hegel e Marx são de uma matriz completamente distinta de Platão, mais Heráclito que Eléia. A ponte entre as duas partes da obra é tênue.
      O mais grave, no entanto, é que ele deixa de fora aquela que para mim é a principal raiz do autoritarismo contemporâneo, o horroroso e surtado vilão JJ Rousseau. O problema é que assestar armas contra Rousseau vai direto nos românticos alemães, e daí para se cair em cima das ficções austríacas é um passo. Hegel é uma bobagem, mas por razões que Luciano poderá explicar melhor que eu. Mas não só e propriamente por aquelas que lá estão.

      O fato é que a tal “sociedade aberta” o é apenas do ponto de vista da captura plutocrática. Você não verá muitos defensores da “sociedade aberta” defendendo a pauta da liberdade do “on liberty” do Stuart-Mill, por exemplo, pauta com a qual eu me alinho.

      Quanto à professora Chauí, alguém que “sampleia” de Claude Lefort merece todo meu respeito. O que você deveria perceber que quem tem origem nos inimigos da sociedade aberta tal como descritos por Popper não é Chauí, mas Serra. A conversão dele não difere da de Dr. Strangelove. Atos de violência como os perpetrados pela polícia na USP refletem o autoritarismo comunista dentro dele.

      Abraços,
      Samurai

  4. Luciano Says:

    “O mais grave, no entanto, é que ele deixa de fora aquela que para mim é a principal raiz do autoritarismo contemporâneo, o horroroso e surtado vilão JJ Rousseau. O problema é que assestar armas contra Rousseau vai direto nos românticos alemães, e daí para se cair em cima das ficções austríacas é um passo.”

    Samurai, assino embaixo. Platão é problema, mas o vilão perigoso é o safado do Jean Jacques. Quando estive em Paris, mijei na tumba desse mané.

  5. Luciano Says:

    Quem causou mais prejuízos ao país, a USP ou a faculdade de economia da PUC-RJ??

  6. Ateus à toa « O Gato Précambriano Says:

    […] se não existissse uma vastíssima literatura de apologia religiosa, não houvesse uma crescente ocupação religiosa de espaços da vida pública, e não fossemos bombardeados cotidianamente por proselitismo religioso, no rádio, na TV, e até […]

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