O jardim dos concursos que se bifurcam

Lá no meu amigo Hermê vem um par de discussões envolvendo funcionalismo público, salário etc. Bem, alerto que sou um membro lato senso do funcionalismo concursado da União. E acho que o vasto público não consegue, digamos assim, ter uma visão formal do processo de escolha que leva ao caminho público ou ao privado. Façamos de conta que somos todos fgvistas defendendo um ponto do estrito interesse do mercado, qual seja, modelemos (mas sem chegarmos em equações, pois eu sou um lazy barnabé que não sabe fazer essas coisas no wordpress).

Uma vez concluídos os estudos, o futuro profissional tem duas opções:

Opção 1 –  setor público: o concursado recebe uma perpetuidade, sem grandes variações ao longo do tempo. Qualquer variação mais significativa vai depender do schmérito (categoria que será explicada posteriormente em outro post) do funcionário. A proposta é atraente porque permite construir uma vida estável e de qualidade logo de cara. Mas, salvo corrupção, não há scalability alguma, para usar o termo do Taleb. É aquilo e ponto final, até a morte. Em alguns momentos o poder aquisitivo cai um pouco, mas após alguns anos se recompõe, portanto, suponhamos a estabilidade até a morte.

Opção 2 –  setor privado: o trainee, profissional liberal ou o que quer que seja o formato com que pessoa se encaixe no mercado, recebe uma remuneração, por vezes chamada de salário. Essa remuneração tem uma variância maior que a do setor público. Essa remuneração tem uma incerteza maior que a do setor público – as chances de desemprego são maiores. Essa remuneração exige algum tipo de poupança para cobrir a aposentadoria.

A princípio, o valor presente da série no segundo caso deve ser maior do que no primeiro. Há um prêmio de risco a ser pago aos que estão no mercado. Há certamente outros fatores intervenientes (como por exemplo, os benefícios simbólicos e de satisfação que fazem com que pessoas virem professores universitários ou perversos semelhantes), mas deixemos eles de lado para não complicar o modelo. Portanto, bastaria (aparentemente) fazer-se um pequeno estudo para verificar se o modelo acima é pertinente, e qual seria o prêmio de risco pago pelo mercado (ou verificar que o setor público paga absurdamente, pois a série do funcionário público seria maior).

Admitindo que a série privada seja mais valiosa, os dois fatores que suponho explicariam a opção entre um caminho e outro poderiam ambos ser definidos como o maior conservadorismo do optante pelo setor público, que consideraria a incerteza maior que a do grupo que optou pelo mercado; e/ou que descontaria o futuro com uma taxa maior.

Bem, para começar, e aí é que está parte significativa do problema dessa discussão pelo grande público, em qualquer estudo de verificação de uma hipótese como a descrita acima a comparação não deve ser feita entre membros de uma profissão (digamos formados em direito) mas entre alunos da mesma turma (pessoas formadas em direito na UFRJ em 90, por exemplo). Por que? Porque a comparação tem que ser feita entre material humano equivalente e, creio, há uma diferença entre Oxford e a Bolívia. A questão está em comparar a escolha de life plan de um indivíduo (lembrem-se, somos fgvistas, quem sabe até Mises-em-cínicos), e não cair em generalidades de botequim.

Nunca vi um estudo construído assim, comparando escolhas de carreiras entre iguais (quem tiver visto, feito cá no Brasil, me informe). Não adianta dizer quanto ganha um promotor versus um advogado médio, mediano ou modal. IMO, o serviço público não recruta, nem deve recrutar entre os “m”s (e aqui sei que provavelmente vai aparecer o espirito santroll reclamando do meu elitismo na minha caixa de comentários). Se o objetivo for esse, façamos a abolição do concurso e institua-se a loteria para escolha dos funcionários públicos (particularmente, a loteria é meu método predileto para contrapor alguns casos de schmérito político e corporativo, mas isso é outro post).

Você quer que seu juiz seja alguém que entrou no serviço público por qual processo, concurso ou sorteio?

PS: para aqueles que acreditam que o salário de entrada poderia ser menor, eu dou dois argumentos: não costuma haver diferença significativa entre o trabalho dos razoavelmente novos e dos experientes, o que, portanto, acabaria sendo uma discriminação contra os mais novos; e, cinicamente, uma vez que o cara já está costumado a um padrão, as chances dele pular fora do setor público para ganhar mais (a menos que seja MUITO mais) torna-se cada vez menor, e, portanto, foda-se o funcionário público tem agora filhos e desejos, o salário é esse e é isso aí – você optou pela segurança e não por férias em Bali e carro bacana, como aquele seu colega de turma que trabalha num banco privado.

IMVHO, a melhor forma de prover o setor público dos melhores profissionais possíveis e fazer concurso em momentos de retração econômica. Pagando o melhor flypaper possível.

Anúncios

5 Respostas to “O jardim dos concursos que se bifurcam”

  1. ohermenauta Says:

    “não costuma haver diferença significativa entre o trabalho dos razoavelmente novos e dos experientes”

    Ah, isso varia MUITO. Dependendo da carreira. A menos que você esteja falando só de potencialidade, mas aí, azeite.

    • samurainoutono Says:

      Hermê, você acha que há diferenças significativas de qualidade entre quem está a quatro anos e quem está a vinte num mesmo ltrabalho? Ou entre alguém que está a vinte anos no serviço público mas só a seis meses num determinado lugar é melhor do que alguém que está a quatro no serviço público e no mesmo local?

      O ponto que eu faço é que plano de carreira é o tipo do troço que serve para mobilizar a massa, serve para bypassar os arrochos, mas não faz sentido algum. A menos, claro, no caso de aderência absoluta a uma rigidez hierárquica (como no mundo militar), coisa que você bem sabe acho problemática (até no mundo militar).

  2. André Says:

    Falou tudo Samurai. O salário de entrada realmente é bem maior no serviço público mas ele é estável independente dos anos de trabalho. As comissões pagas por cargos mais elevados – coordenadorias, gerências, chefias – não agregam muito ao salário final, de modo que um analista da Receita Federal deve ganhar muito mais que um analista do Bradesco mas um chefe adjunto do mesmo órgão com certeza ganha MUITO menos que um diretor do banco acima citado.
    No mais, a opção de uma carreira ou outra leva em conta alguns aspectos relacionados à estabilidade – e quando me refiro à ela, não penso somente em estabilidade de emprego, mas também àquela existente com relação ao serviço diário (as coisas demoram muito pra mudar no serviço público, as coisas só podem ser feitas dentro de certos normativos, etc, etc.)
    Enfim, como disse o Lula certa vez, o que mata não é o salário do funcionalismo, é a ineficiência. O que é verdade: tem gente que se esconde atrás da estabilidade e não trabalha absolutamente nada. Além disso, tem os famosos cargos comissionados, cabidões de emprego pra pessoas muitas vezes incapazes de exercer funções básicas.
    Deste modo, a saída, a meu ver, é realmente ter um salário bom com maior grau de funcionários concursados. Mas pra imprensa é mais fácil levar o debate pro achincalhe generalizado dos servidores públicos…

  3. Lucia Reis Says:

    Sua mensagem sobre o funcionalismo público contém uma análise lúcida do problema. Parabéns!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: