Farsa em Farsi

Os dias tem sido muito atarefados por aqui, amigo Hermê, e esse comentário que venho escrevendo desde sexta só sai hoje. Você fez dois posts, NPTO também já tratou do assunto, mas deixa eu fazer meu registro.

A analogia é uma das formas mais arriscadas que há para se entender as coisas. Solução conservadora, burkeana, ela nos faz perder o que há de específico, a lição de Tolstoi de que cada família infeliz é infeliz ao seu modo.

Glen Greenwald (para quem não conhece, um dos mais interessantes blogueiros da esquerda americana) fez o seguinte comentário, que nos é bem familiar, no fim de semana:

(4) Speaking of Iran, I don’t have any idea what really happened with its presidential election — if, as Juan Cole argues, there was widespread fraud, that would be entirely unsurprising — but Newsweek‘s long-time Middle East reporter Christopher Dickey persuasively warns against the emerging assumption that the anti-Ahmedinejad views expressed by middle class and cosmopolitan Iranians and promoted by the Western press are representative of a majority of Iranians.  In Brazil, if you ask middle class, professional and/or educated Brazilians what they think of President Lula da Silva, you would conclude that he is an intensely despised figure, when — in reality — he is profoundly popular among a majority of Brazilians largely due to the deep support from that country’s poor and under-educated population (much the same way that you’d get vastly disparate responses if, in 2004, you went to Manhattan and then to rural Kansas and solicited opinions of George Bush).  Dickey suggests that the same dynamic exists in Iran.

E esse, creio, é um erro recorrente na análise de algumas pessoas da eleição no Irã. Um amigo cá do trabalho, por exemplo, me mandou esse texto “round up the usual suspects” de esquerda ontem. Muito embora haja um claro interesse americano em mais uma revolução colorida (será Steve Jobs o gênio secreto que controla a política externa americana?), tudo indica que há uma farsa em curso.

No Moon of Alabama, um interessante blog de esquerda alemão, há a análise óbvia de classe, há perfeitas análises conspiratórias, há a suposição de que quiet americans estariam envolvidos (e aqui uma interessante observação do Irã como um dos afetados pelas “exportações” afegãs, coisa óbvia quando se pensa no assunto mas sobre a qual eu nunca li nada a respeito). É bem capaz que parte disso tenha acontecido, e está explicito o interesse do Departamento de Estado no uso político do twitter (será que eles suspenderão o serviço quando a revolução não for do interesse americano?)

No entanto, minha experiência em analisar dados eleitorais, ainda que um pouco enferrujada, sugere que o argumento do Juan Cole é difícil de ser rebatido. Resultados eleitorais não são regulares. Resultados eleitorais, a menos de alguma catástrofe bastante visível, não mudam abruptamente de uma hora para outra. Não há ali uma ilusão causada por diferenças de classe, como nos casos da Venezuela e da Tailândia.

Minha sugestão: esqueçam o noticiário e vão direto no Juan Cole. Durante o período de pique do conflito no Iraque era minha primeira leitura diária.

No mais, o Sullivan está em frenesi com esse “levante”. Nada como uma causa confortável. Em que pese que as discussões que rolaram lá sobre o aborto foram interessantíssimas, mas isso é um assunto no qual eu estou ainda mais atrasado para postar (e do qual voc~e não tratou, caro Hermê). Quem sabe daqui a pouco.

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20 Respostas to “Farsa em Farsi”

  1. ohermenauta Says:

    Pô, eu já postei tanto sobre aborto, principalmente em outras encarnações, que se continuar com isso acabo excomungado. O que, aliás, seria ótimo.

    Mas, voltando à vaca fria, você viu isto?

    http://www.fivethirtyeight.com/2009/06/if-he-did-it.html

    É uma análise posterior à de Cole, mas mais quant, e chega a conclusões similares.

    Veja, não sei o que você entendeu do que falei _ mas não estou defendendo fraudes eleitorais. Apenas quis dizer que INDEPENDENTEMENTE DO RESULTADO [a menos da ressureição do Xá], acredito que a dinâmica no Irã levará a que o país não arrede pé da opção nuclear. Aliás, mais ou menos o que Obama acaba de falar, se você ler nas entrelinhas, embora ele também possa estar apenas confrontando a linha dura republicana que gostaria de ver marines fazendo a recontagem.

    • samurainoutono Says:

      Não é sobre o aborto o ponto, mas sobre o assassinato do doutor.
      Boa a análise lá no 538. Bom saber que eles não tratam só dos EUA.

      Sobre a questão nuclear do Irã, ela é um red hering. Ela serve para ocupar as páginas de noticiário e as agendas diplomáticas ao invés de outros problemas da região.

      • ohermenauta Says:

        Ah, tá. Bom, terrorismo de direita. Novidade, desde quando?

        Samura, um red herring capaz de mudar a postura nuclear norte-americana, que pela primeira vez cogitou seriamente de um first-strike, pra mim já deixou de ser red herring há muito tempo.

      • samurainoutono Says:

        Hermê,

        você fala da postura nuclear americana como se os EUA fossem uma entidade imutável e dotada de vontade. Que tal formular assim: o governo de Bush-43 e Cheney mudou a postura nuclear em função da ameaça representada pelo programa nuclear iraniano.

        Agora lembremos de uma conversa, perto de minha antiga residência, antes da invasão do Iraque, eu, você, “herman kublai khan” et alii: “você acredita que não vão conseguir achar alguma coisa de armas de destruição de massa no Iraque?” Bem, não havia WMDs no Iraque.

        Portanto, o fato de que um argumento foi usado pelo governo Bush para fazer alguma coisa não quer dizer que aquilo seja realmente um problema. Pode ser simplesmente uma desculpa.

      • ohermenauta Says:

        Mas e daí?

        O Iraque não tinha WMD´s, que foram usadas como uma desculpa para a invasão do país. Por acaso você acha que as famílias iraquianas mortas, emigradas, violadas, esfoladas e genericamente muito aborrecidas estão avaliando a coisa de forma diferente por saber, agora, que tudo foi “só uma desculpa”?

    • He will be Bach Says:

      É mesmo… Jogando “hermenauta” e “aborto” no Goole, aparece coisa para caramba!

      Sobre a eleição: uma semana antes, a Economist tinha soltado um artigo chamado “No certain outcome”. Apesar do título, o tom da reportagem é que, nesta eleição, a emergência da oposição não significa o fim de Ahmadinejad, e sim que há uma inédita, embora leve, abertura política, a qual os iranianos esperam que dure.

      De fato, com o dito-cujo distribuindo “cash gifts to the poor, and even free vegetables” para uma base eleitoral gigantesca, fica difícil mesmo ganhar do cara. Como disse o NPTO, a grande vantagem da democracia é que é difícil pra cacete subornar mais de 50% dos eleitores, mas parece que o Ahmadinejad conseguiu uma parcela significativa disso.

  2. NPTO Says:

    Antes de mais nada: título bacana!

    Eu acho que ainda é cedo para julgar o processo iraniano; essas coias começam de um jeito mas em geral terminam de outro. O que eu acho claro é que os estudantes provavelmente estão mesmo brigando por democracia, como já fizeram em vários anos anteriores. Estou curioso para ver o que fazem os sindicatos mais ativos, que foram duramente reprimidos pelo Ahmadinejad no último primeiro de Maio.

    Agora, de fato, para quem estiver preocupado sobretudo com o programa nuclear iraniano, não acho que vá fazer a menor diferença, como notou o Hermenauta.

  3. gatoprecambriano Says:

    Olha, não morro de amores pelos aiatolás, e costumo simpatizar com povo na rua, contudo, e infelizmente (ou não), já tenho idade suficiente para não me levar pelo entusiasmo e sair pela rua de bandeirinha cantando A Internacional.
    Lembro que lá pelos 80 do séc. passado eu me alinhava com aqueles que viam com enrome simpatia o Solidariedade polonês (não eu não era leninista, pode perguntar ao S. Leo). As semelhanças com o, então, sindicalismo combativo brasileiro,eram óbvias demais para não impressionar, e a perspectiva de uma rebelião operária autêntica contra a burocracia estalinista era tudo de bom. Claro que a turma do PC dizia que aquilo tudo era uma conspiração contra-revolucionária financiada pela CIA, do que desdenhávamos. Ao fim e ao cabo, baixada a poeira, verificou-se que o Solidariedade não só era uma autêntica rebelião operária contra a burocracia, E TAMBÉM parte de uma conspiração anti-socialista financiada pela CIA, como sobretudo um APARELHO do Vaticano. Go figure.
    Então, como eu ainda não falo farsi, guardarei e aguardarei o veredito do tempo.

    • samurainoutono Says:

      Bem, na época dizia-se que não havia diferença entre a bota do General Figueiredo e a bota do general Jaruzelski. E estavam certos, creio. O fato de que o Solidarnorsc se estruturava, em parte, em torno do mais reacionário sentimento católico era uma consequência da própria repressão. Quem, em sã consciência, acreditava que os soviéticos sumiriam em uma década? Lembro de uma palestra de Rubem Cesar Fernandes em meados dos 80 sobre a procissão da virgem de Czestochowa nas prisões polonesas e da depressão que passavam os setores laicos versus o horizonte milenar dos católicos, preparados para esperar quantos anos fossem pela queda do regime. Em parte esse é um dos pontos para se entender o sucesso do Hamas frente à OLP.

      Em suma: as duas explicações provavelmente coexistem: a fraude e as black-ops da CIA. E o fato de que as segundas existem não tornam a fraude legítima, assim como o engajamento de João Paulo II e Ronald reagan não tornava menos ditadura o governo polonês.

      • gatoprecambriano Says:

        Sim, com certeza.
        O que eu quis apontar é que as coisas são mais complexas do que a gente imagina. Não dá para ser ingênuo e embarcar numa lógica maniqueísta de bons x maus. Daí que eu prefiro aguardar até ter mais dados.
        De todo o modo, acredito que a própria sociedade iraniana tem capacidade para, com ou sem fraudes, agora ou no futuro, re-definir seus rumos à sua maneira. Desde que deixada em paz.

  4. RC Says:

    Por que nos importa tanto a situação no Irã? Entendo as implicações políticas, de relações político-estratégicas e até nucleares, mas me parece que, para variar, somos pautados (no sentido jornalístico) pelo que interessa aos jornais, TVs, blogs, agências dos EUA e Europa. Que relevância o Irã daria a uma polêmica política no Brasil?

  5. Flávio Says:

    Até concordo que o presidente Lula tem mais apoio nas classes menos prósperas e entre as pessoas com menos educação formal, mas não acho que ele seja exatamente desprezado entre a classe média educada. Pode até não ser a primeira opção de presidente, não ter sido a primeira opção de candidato, mas acho que mesmo essas classes gostam da condução do país por ele. Ele apenas fez muito menos por essa gente do que fez pelos mais pobres e não fez necessariamente mais pelos mais afortunados- mesmo os que não têm do que reclamar, como os bancos- do que faria um presidente tucano, por exemplo. Esses setores certamnete adorariam mais atenção e benefícios, mas não acho que cheguem a desprezá-lo, só não o idolatram como os beneficiários do Bolsa Família.

    • ohermenauta Says:

      Eu até acho que essa seria a resposta racional. Mas parece que Lula desperta respostas irracionais. Blogs anaeróbicos não páram de dizer que o governo Lula é muito pior do que o FHC, embora, no geral, eu não consiga ver evidências concretas disso _ e eu não acho que Lula seja o ó do borogodó.

      Isso porque tem gente que não admite que um presidente com jeitão de porteiro possa ser um bom presidente. É gente que não consegue ultrapassar seu próprio preconceito.

      • Flávio Says:

        “Isso porque tem gente que não admite que um presidente com jeitão de porteiro possa ser um bom presidente.”
        Ter gente, até tem, mas isso é representativo da “classe média” brasileira? Mesmo supondo que essa classe média olhe meio de cima o presidente porque se considere em vantagem sobre ele em quesitos como “educação formal”, “etiqueta”, etc. Mas daí a desprezo genralizado, como diz Greenwald, é um pouco de formação de barra, sim.

      • ohermenauta Says:

        Vejam o último podcast do Diogo Mainardi:

        “Lula era minha anta. Agora ele é meu filé. Pessoalmente, a opinião dele sobre um determinado assunto sempre me interessou tanto quanto a opinião do porteiro de meu prédio. ”

        Tá, não dá para falar “classe média” no genérico. Mas acho que eles representam sim uma parcela expressiva da classe média brasileira, principalmente da paulistana.

      • He will be Bach Says:

        Que zica.

        Um de meus amigos sempre diz: “São Paulo é malufista”.
        Essa frase explica tudo: desde Adhemar de Barros até Kassab.

    • He will be Bach Says:

      Pois é. Afinal, dizer que o RA é representativo da classe média nacional é meio complicado. Ou… não?

  6. Luciano Says:

    Pode até ser, mas governar contra as classes médias é quase impossível, precisamente em um país onde os pobres só podem votar no dispensador de hand outs de plantão. IMHO, o Irã já foi para o saco. Jamais será o mesmo.

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