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Rebuilding the Simonal (dita)brand: Ninguém sabe à ditadura o que dei?

maio 29, 2009

Da série Lies, damn lies, statistics and’ocumentários biográficos.
Tenho uns 5 CDs do Simonal: uma coletânea de meados dos 90, comprada na época; 4 outros os álbuns originais, relançados uns anos depois. Bons discos, longe de serem excepcionais. Mas bons discos. Adoraria ter a caixa, mas não esbarrei com ela a preço camarada. Muito longe da beleza e da relevância de um “Samba Esquema Novo” ou de um “Afro-sambas” , para citar duas obras primas dos 60 que correm em linhas não muito distintas das cantadas por Simonal. Inferiores aos discos de Gil, de Milton e de Roberto da época, só para citar nomes bem pops cuja carreira sobrevive até hoje (e não se chamam Caetano nem tem olhos verdes). Era um bom cantor, muito bom cantor, muito adequado à época. Mas como falou Maquiavel sobre Júlio II , a morte por vezes nos preserva dos erros que cometeríamos.
Está estreando, com toda a babação da Globo que tem direito, um panfleto ficcional sob forma de documentário que visa, entre outras coisas, transformar Simonal numa espécie de mártir político. Uma espécie muito rara (e dialética): um oprimido pelos oprimidos sendo membro do establishment. Um dos autores dessa peça publicitária faz parte de um simpático grupo artístico, o Casseta, cuja origem é a ala mais reformista da Reforma. No Fantástico, apareceu o próprio filho, parte de um talentoso consórcio de nepotes da MPB. E não tomem por ironia esses dois comentários anteriores: ri muito com os primeiros, tenho muitos bons CDs graças aos segundos. Mas para entender o filme é necessário, em parte, se ter esse background em conta. Guardemos essa informação para o fim.

a) O Rat Pack Tupiniquim dos 60:
Antes de mais nada, há um Tenzing Norgay da história sobre o qual o filme toca muito en passant: Carlos Imperial, Ao contrário de Simonal, cujo desaparecimento súbito da mídia (o que não quer dizer que a carreira dele tenha realmente acabado – essa é uma das ficções) permite uma visão edulcorada da história, Carlos Imperial manteve até o fim de sua existência uma trajetória de decadência, de esbórnia, de esculhambação, de escárnio em relação a moralidade e ao bom gosto. Carlos Imperial virou vereador, virou Jabba, Foi ele que descobriu e lançou Simonal, foi ele o formalizador da pilantragem, Imperial é quem montou o discurso do personagem. São dele os versos de “carango” que dão título ao filme. É dele (também) a história na música.
Os anos sessenta foram uma época de transição. Se por um lado você tinha os movimentos (ideológicos?) jovens e o rock se consolidando, por outro havia persistências dos mundos pops anteriores, com o cenário da música pop ainda contendo músicas basicamente instrumentais com apropriações bastante diluídas do jazz (vide Elevator Music para quem quiser aprofundar um pouco). Uma dessas, a nossa Bossa Nova, fez tabula rasa em relação à música brasileira anterior, reapropriando o samba e matando com o paradigma de cantores de vozeirão anteriores. A bossa nova era nova internacionalização do Brasil, o som de um Brasil novo, revolucionário…
… e já obsoleto. Pois durante os 60, lá fora, dois sons que se gestavam enquanto a bossa nova salvava provisoriamente o jazz como música pop construíram uma trajetória de hegemonia até o final dos 60: o rock, reapropriado pelos brancos (ingleses) e o soul/funk dos negros americanos. Assim na terra como no céu, no início dos 70 essas forças estavam aqui presentes.
Do ponto de vista social, se havia desde os 50 sinais de uma liberação sexual, ela não está plenamente consolidada nos 60. Os hippies são um experimento moral, a liberdade no sentido da experimentação moral Stuart Mill. Entre uma coisa e outra, tem-se o mundo do Rat Pack e do bachelor pad. O Rat Pack é Frank Sinatra e turma posando de playboys, Guinle e Rubirosa para as massas. Simonal é parte do equivalente nacional disso, incorporando, ao final dos 60, elementos do mundo jovem experimental de uma forma tão autêntica quanto o Tin Machine querendo ser o Pixies.
E como bom fanfarrão, lá está ele ao lado de ídolos do esporte, andando em carrão, fazendo a pose de comi deus e o mundo. Nice, mas naquela época o hip-hop ainda não havia sido inventado, e aquela atitude não causava mais a fascinação de algo semi-proibido, ousado.
Na segunda metade dos 60, entre várias outras coisas, acontecem quatro escolas que representam a morte desse blairismo que foi a bossa nova: a jovem guarda, a resistência do samba carioca, a Tropicália e os mineiros. As quatro foram movimentos jovens, sinceros e autênticos. Roberto Carlos, Paulinho da Viola, Caetano e Milton Nascimento: todos portadores de um discurso novo, criadores do seu próprio repertório. Todos associados a outros jovens, a estilos de vestir, a uma identidade. Até a metade dos 70, duas coisas vieram a se somar nesse quadro: os nordestinos e os Secos e Molhados. (deixo o MAU de fora porque as carreiras indiviuais que se seguem não fazem parte do mesmo conjunto, digamos assim)
A pergunta que fica é: qual o cantor que não tinha repertório próprio que sobreviveu? E não falo só daqui. Lá fora, que nome significativo do cenário pop do estilo de Simonal –cantor, sexo masculino, que não compõe seu próprio repertório, que canta “sucessos”, sobreviveu no mainstream no início dos setenta?
Na música-tema do Globo Cor Especial, de um mundo em que Emerson Fittipaldi (e não mais Pelé) era o novo grande herói nacional, a letra dizia “morcego velho, bangue-bangue de mentira, vocês já eram…”. Chico Anísio, quando foi fazer humor com música, pegou os baianos. O estilo de ser e cantar de Simonal não era mais relevante (como bem mostra essa análise do Tarik). Lâmina de Ocam, não preciso de “perseguição” para justificar seu desaparecimento. As forças do mercado e da moda cuidaram disso. Quando você faz um disco com o sintomático título de “olhaí balândro… é bufo no birrolho grinza!”, tentando voltar às raízes das quais você não faz mais parte (no caso, Os Originais do Samba), um samba que tinha pessoas autênticas, militantes, conectadas com a comunidade dos sambistas, como Paulinho e Martinho, pessoas realmente engraçadas como Mussum, you’re dead. Quando você tenta imitar um Jorge Bem passado, quando o próprio Jorge Ben começa a mudar para um nicho cada vez mais sofisticado e Bebeto assume o papel de genérico para as massas da fusão do samba com o soul do Ben, you’re dead. “… o nosso papo é alegria”, assim termina a música.
(Há dois caminhos quando você fica obsoleto: você fica no nicho (como nomes muito dignos e competentes de blues, jazz ou dance) ou migra para um caminho “popular”, onde a sua onda está chegando com atraso. Simonal não fez isso: sabia curtir, sabia cantar. Imperial fez, migrando da música para o cinema.)
Last but not least no argumento histórico, Simonal e turma faziam parte das cliques televisivas da Record e da Tupi. No início dos 70 a Globo (e seu padrão de qualidade) começa a se tornar hegemônica. É outra panela, sem nenhum compromisso afetivo com ele, muito pelo contrário. Mas obre isso eu não vou discorrer aqui. Leiam Na barriga da Baleia a tese de doutorado de Eduardo Henrique de Scoville, deliciosa em sua descrição do ambiente musical da época e da relação do padrão globo de qualidade com a música. Dela pode-se depreender de quanto a carreira de Simonal dependeu da televisão. Talvez por ali dê para se entender porque tanta gente responsável pela criação do Padrão Globo esteja dando depoimentos no filme. Complementando essa tese, uma olhada nesse paper de Eduardo Vicente permite uma boa compreensão de nosso mercado musical, e o entendimento claro do ponto do Tarik de Souza.
“O pop não poupa ninguém”. A evaporação de carreiras bem sucedidas por mudanças súbitas de mercado (Bee Gees na virada dos 70 e o Skid Row com o advento do grunge são belos exemplos disso) é o normal num mercado que está vivo e dinâmico.

b) A cena continua:
A narrativa: Simonal, num deslize, usa de seus contatos com pessoas da polícia que levarão um pobre contador a ser temporariamente “hospedado” pelos serviços de segurança da época. Isso serve de pretexto para uma perseguição racista conduzida por umas elites liberais de um blog, quer dizer, jornal alternativo, o Pasquim. E aí um complô silencioso das esquerdas destrói com aquele que era o maior ídolo popular que já existiu.
Bem, antes de mais nada tenho a dizer que tenho curiosidade o bastante para me lembrar de Chico Alves, e olha que nasci muito depois do acidente (uma década depois, um dos meus maiores amigos do segundo grau tinha o nome de Francisco em homenagem a Chico Alves. Seu pai chorara por três dias a morte do ídolo). Portanto, não vejo nada de tão extraordinário assim na cena do Maracanãzinho, onde eu vi rolideionaice, e muitos anos depois, vários shows.
Mas respondendo à pergunta do Chico Anísio, para ser informante você precisa estar dentro das paradas. E sinceramente, não me consta de Simonal ser Bruce Wayne ou Don Diego de la Veja. Ou Elia Kazan. Ali a personalidade era uma só. Portanto, como ele poderia entregar o que não sabia? Isso é óbvio. Não é a questão de ser “dedo-duro” no sentido estrito a conexão de Simonal com a ditadura. É o fato de que ele se beneficiava dela, que se beneficiou dela, em seu momento mais negro, mais do que qualquer outro nome de nossa música. “Simonal que estava certo, na razão do patropi”, diz a primeira estrofe de “take me back to Piauí”, a genial crítica de Juca Chavez a exaltação nacionalista daqueles anos. Juca Chavez que também gostava de carrões, mas não apenas de posar dentro deles. Nesse sentido, o filme não mente. Aliás, o filme não mente: ele interpreta, recorta. O que ele faz você inferir dali é que é equivocado.
Mas por que não, por exemplo, se entrar na questão da ida dele para a RCA? Peguemos essa entrevista com o André Midani feita pelo Pedro Alexandre Sanches:

PAS – No livro você passa muito de raspão pela história com Wilson Simonal, não? O que você fala no livro e acho que eu não sabia é que foi Marcos Lázaro (empresário, nos anos 60 e 70, de artistas como Roberto Carlos, Elis Regina e Simonal) a pessoa que intermediou a contratação dele pela Philips, a “pedido” da ditadura.
AM – Foi.
PAS – E aí foi do jeito que você relata, você levou o assunto Simonal para discussão no grupo de trabalho?
AM – Foi uma barra. Foi a primeira reunião. Hoje acho que faria de outra maneira. Na primeira reunião disse “olha, tenho um puta pepino aqui, achei que tinha que contratar o Simonal”. Zuenir Ventura me olhou de um jeito que me lembro até hoje.
PAS – Ninguém queria ele na gravadora mesmo? Você tinha me falado isso uma vez, eu tinha entendido que era o elenco da Philips que resistia. Eram então os membros do grupo de trabalho?
AM – Não, eu temia que pessoas como Chico, que são, ou eram, no sentido convencionalmente político, não no sentido pejorativo, mas no sentido da posição, me dissessem “olha, se um filho da puta vai entrar eu não fico”. Eu temia isso. Então cheguei ao grupo de trabalho e dizia: “Estou temendo isso, como é que eu faço?, o que faço?”. Foi assim.
PAS – Mas não aconteceu? Ninguém disse “ou ele ou eu”?
AM – Que eu me lembre não. Eu lembro que o Chico não ficou lá muito contente (ri).
PAS – Mas você explicou para a companhia, que era uma imposição da ditadura?
AM – É, eu tinha que ser um pouco discreto também, fazia entender que era adequado tomar essa decisão.

Vamos à discografia de Simonal: em 73, “Balândro” (Phillips); em 75, “Ninguém proíbe o amor” , RCA, sendo que a última faixa é de Chico Buarque (regravação de uma faixa do “Construção”! Em 77, “A vida é só prá cantar”,  um disco de tentativa de retornar ao passado, receita sempre infalível de fracasso comercial (o que não quer dizer que o disco seja ruim – na maioria das vezes as vaias tem maior qualidade que dezenas de milhares de pessoas num coro, sendo o QOTSA no rock in rio talvez o melhor exemplo recente disso). Fato é que entre 73 e 85, ele lançou um disco em cada ano impar. Boicotado, ao que me consta, sequer grava. Cabe lembrar que em 74 Chico gravou um álbum como cantor, “Sinal Fechado”. A censura não permitia mais a ele cantar suas próprias músicas…
Isso escapa ao filme. Ao invés de Chico Buarque, Chico Anísio é entrevistado. Procura-se a chave onde a luz é boa, não aonde caiu.
Em meados dos anos 70, quando Simonal tentava manter sua carreira de artista pop, Milton Nascimento, negro como ele, foi forçado a fazer um disco virtualmente instrumental. Gil passou uns anos sem lançar um LP, e quem tiver ouvido o CD “Cidade do Salvador” saberá a imensa qualidade do Gil fez naquela época. Taiguara gravou um disco sublime, disco que ouvi tem mais de uma década, tomando umas super bocks numa madrugada de verão em Portugal, disco devidamente recolhido no Brasil. E o Pasquim foi alvo de uma guerra. Enquanto isso, algumas pessoas, Wilson Simonal NÃO ERA UMA DELAS, se davam bem.
c) Brands:
Um personagem público muito querido tem sua vida de fanfarrão exposta. Ele usa de seus poderes para tentar descobrir coisas contra aquele que o revelou, um pobre coitado. O personagem público tem sua perspectiva de carreira destruída. Pallocci, o homem que seria presidente da república, e o caseiro que teve seu sigilo bancário violado.
Um personagem público muito querido nota estranhezas financeiros em meio à sua vida de fanfarrão. Cisma que seu contador o enganou e pede ajuda a uns amigos da polícia, que aplicam enhanced interrogation techniques no coitado. O personagem público tem sua carreira (em declínio) destruída.
O ano é 71. Imperial passara uma temporada preso uns anos antes. Erlon Chaves foi posto em seu lugar no ano anterior, por escandalizar a mulher de um general e o grande público. Tony Tornado teve usa carreira musical abortada, pois cá não havia espaço para Isaac Hayes em Watts. E Simonal pede ajuda a uns amigos para usar de seus poderes discricionários. Isso é o que, roteiro de filme passado na Europa nos anos 30? Se ele ficava neutro em relação ao que acontecia no país, será que ele não conseguia ver o que se passava justo ao seu lado?
Qual a confiança que você tem num político que move a máquina do mais poderoso dos ministérios para tentar desmoralizar um simples caseiro? Qual a confiança num artista que usa de seus contatos para “resolver” seus problemas com subordinados num momento em que pessoas próximas da classe artística estão sofrendo toda uma série de coerções e violências? Isso não é um lapso, um deslize. Isso é um risco. As pessoas são avessas a riscos.
Para que serve o filme, então? A agenda é simples. A Reforma quer vender o mito de uma esquerda má que perseguia pessoas. Uma esquerda que lutava contra a ditadura, coisa que ela fazia ao seu modo, levando o barco bem devagar no nevoeiro. E granjeando uma coisinha aqui e outra ali, um dia alguém ainda vai explorar essa relação deles com elementos do primeiro e do segundo escalão do governo Geisel. Os nepotes da bossa nova têm contas psicológicas a acertarem com o fato de terem seus talentosíssimos pais sumirem (ou caírem para funções menores) com as mudanças do fim dos sessenta. “O pop não poupa ninguém”, como disse um contemporâneo meu, menos sofisticado musicalmente que eles, mas com um belíssimo manejo da palavra cantada. E o povo da TV hegemônica tenta construir uma visão do mundo em que a sua responsabilidade no que se passou na época fosse bem menor do que realmente foi, e nisso não falo só dos benefícios que auferiram, mas nas carreiras que eles destruíram. Nesse sentido, cria-se ali uma útil ditabranda Simonal.
Antes de concluir, porém, a pilantragem. Pega-se um monte de pessoas sérias, sóbrias, bem maquiadas, fazendo o estilo culpa moral. As pessoas adoram gente culpada, confessante. Ponha-se Jaguar, com seu riso cínico e bêbado, meio afastado da câmera. Jaguar, um chargista genial, um herói do jornalismo desse país. O cara que apoiou Brizola enquanto Ziraldo apoiava mais um compromisso histórico da Reforma, Pasquim, 1982, a guerra da esquerda carioca nas páginas de um jornal alternativo. Ponha-se Jaguar, com seu riso cínico e bêbado, tentando criar um contexto em que o espectador saliva “olha que filho da puta, que não sente culpa~pelo coitado”. Manipulação. Alimento para reacionários como o RA, que, ao contrário do Hermê, eu me recuso a linkar. Isso é imperdoável no documentário.
Pode-se fazer bons documentários com personagens polêmicos, ambíguos em sua relação com o Mal. “The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefenstahl”, por exemplo. “Simonal: ninguém sabe o duro que eu dei” não é um deles.

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Está faltando um Bill Gates

maio 13, 2009

Para muitos, Bil Gates é o mal. Para mim, Bill Gates é um grande sujeito que trouxe a comoditificação do computador. Não me interessa se a solução B ou C teria sido melhor: o fato de que um padrão existe e que as pessoas não estão sendo barradas a produzir naquele padrão torna o mundo muito mais eficiente em termos de escala de produção. Entre um bonsai na mão de Brian Arthur e uma floresta, fico com a floresta.

Mas vamos ao caso: o carro elétrico. A questão que se coloca para a generalização do carro elétrico é o seu curto alcance. No entanto, essa noção de alcance parte da premissa que o carro elétrico deverá ser reabastecido como um automóvel. Mas suponhamos que o carro elétrico, ao invés de ser simplesmente reabastecido numa tomada, possa trocar de bateria? As pessoas trocam o bujão de gás ao invés de enchê-lo, por exemplo.

Isso permitiria grandes ganhos de eficiência na reciclagem de baterias, na adoção de modelos novos e mais eficientes, na entrada de novos produtores com preços mais competitivos.

O que impede? Basicamente, o fato de que trocar as baterias seria uma operação complexa. Mas e se os carros seguirem um padrão em que as baterias estejam na mesma posição de fácil troca? E se você puder chegar num posto e em 2 minutos trocar suas baterias por outras carregadas e continuar sua trip na route 66?

Quem irá pará-lo?

maio 5, 2009

“The question is not when he’s gonna stop, but who is gonna stop him…”

Hoje Cristiano Ronaldo botou as fichas na mesa e disse “dobro!”. O Trajano pode ter posto culpas no coitado do juvenil que estava ocupando a lateral esquerda do Arsenal (nessas horas Flamini faz falta), mas não foi aquele lance sozinho que matou a partida. O manchester entrou com sua formação de combate: Carrick e os dois meiocampistas mais jovens (Anderson e Fletcher), Rooney na esquerda, Park na direita, Cristiano Ronaldo pelo meio, pela direita, pela esquerda, por toda parte. Hoje o Manchester do ano passado – o Manchester de Carlos Queiroz – esteve em campo.

Cristiano foi o Man (Utd) of the match, não há a menor dúvida. Park certamente foi o segundo nome. Park é uma versão futebolística de Danny the Dog, que Ferguson deixa guardada só para as partidas críticas. A interação dos dois com Rooney para o terceiro gol foi notável. Ao contrário dos toques precisos e curtos do Barcelona, do envolvimento produzido por Xavi e Iniesta, ali se vê o futebol de pura explosão e velocidade. Não mais que oito toques entre o toque de calcanhar de Cristiano Ronaldo nas imediações da própria área para a finalização dele mesmo na área do Arsenal.

Anderson jogou uma bela partida – em que pese ter sido desarmado de forma banal pelo menos um par de vezes – e crescentemente se mostra o futuro elemento de criação do meio-campo do Manchester. Giggs entrou em seu lugar, e foi uma pena ele ter perdido o quarto gol numa interação maravilhosa com Cristiano Ronaldo.

No andar da carruagem, Roma verá uma partida histórica.

O Clássico (terceiro mundo)

maio 5, 2009

No penalti marcado, Juan repetiu uma foto muito interessante, Truman Capote na capa do single de “um rapaz com uma tora atrás“, do Smiths. No não marcado… bem, dois cortes tão bem executados com a mão qualificam-no para a vaga do Serginho de líbero da seleção de volei. O penalti, surpreendentemente, não foi acompanhado por um cartão amarelo. Mas para Juan levar um cartão amarelo, como foi mostrado na partida anterior, é necessário cometer um ato muito grave. Nem os Bambis em sua glória gozaram e gozam dessa imunidade.

Assisti o jogo na Bandeirantes, comentários do increditável Sérgio Noronha. Terminado o primeiro tempo, um gol espírita, uma falta que desviou na barreira, o Botafogo com menos erros de passe, mais chutes a gol, menos faltas, mas para o comentarista obviamente o Flamengo jogou melhor porque o resultado era 2 x 0 e Flamengo teve mais posse de bola. Bem, antes a burrice que a torcida, que tinha sido o caso da Globo com Junior e Wright na partida anterior. A Globo não me espere como espectador no Brasileiro (sobre isso, virá um post depois).

Certas coisas só acontecem com o Botafogo, o Tottenham e o Atlético de Madri.

Mas voltando ao caso Juan, por que a fraude nas duas partidas? Fazendo uma antropologia barata, ganhar roubado faz com que a massa rubro negra possa se sentir como Daniel Dantas. Você sente o poder de seus números e dos interesses por trás deles corrompendo a justiça. E, neste sentido, o locupletemo-nos todos se realiza, ao menos no plano simbólico. Claro que alguns ficam com dinheiro, carrões e putas, enquanto a massa do die trying fica com a euforia, a ressaca e a fanfarronada.

O Clássico (primeiro mundo)

maio 5, 2009

Eu, como feliz assinate da Sky, pude assistí-lo. Terá sido o jogo do ano ou o jgo da década? Talvez nem um nem outro. O jogo da década possivelmente foi a final de Milan e Liverpool, o 3 x 3 em Instambul. O jogo do ano? Ainda não terminou, calma.

Casillas, Robben, Higuain e Lassana Diarra jogaram bem. Sérgio Ramos manteve sua ambiguidade. O resto? Bem, o resto foi o resto. Particularmente, as atuações de Gago (severamente marcado pelo comentarista da Sky), Heinze e Cannavaro beiraram… não dá prá descrever, simplesmente. Maradona há que repensar Cambiasso estar no banco e Gago em campo.

Muito se celebra Messi, mas o o atacante devastador no sábado foi Henri. Mais do que Eto’o e Messi, Henri foi o mais beneficiado pela forma como o Barcelona passou a jogar com Guardiola. Muito se celebra Messi, mas se há um jogador que é o centro do time do Barcelona hoje é Xavi. Xavi é um super- Falcão, um meio-campista de passes precisos, infalíveis. A forma como ele e Iniesta se deslocam entre as defesas adversárias, como se elas fossm pinos de plástico de uma prova de direção, é impressionante. Xavi é hoje o melhor armador do mundo, talvez melhor do que Pirlo e Rui Costa foram um dia.

Messi esteve notável. E no Barnabeu, Messi não esteve na sua tradicional posição pela ponta-direita, convergindo para a área. Por lá estava Eto’o, que durante a era Rijkaard vez por outra invertia posição com Ronaldinho (nas partidas em que era necessário se exercer mais pressão sobre o lateral direito adversário). Nessa partida, Messi jogou pelo meio. Perdeu algumas chances óbvias, mas, na minha opinião, ali é o lugar dele. Em pouco tempo ele se habitua, aprende a chutar melhor de direita, e vira Romário.

O restante do Barça? Piqué estava soberbo. Daniel Alves é o melhor lateral do pós-Roberto Carlos, um jogador de uma exuberânca física, de uma qualidade técnica e de uma garra berserkeriana. Toure e Iniesta compuseram muito bem o meio campo.

Este time do Barcelona e o time do Manchester United que remonta o ano passado são os dois mais formidáveis times que já vi jogar. Equilibrados do gol à ponta esquerda. Com bancos talentosos. Capazes de dominar uma partida, de não serem derrotados, de penetrar as mais complexas defesas (a exceção, é claro, de um Chelsea bem treinado). Capazes de espetáculo. Manchester e Barcelona são os primeiros times do futebol globalizado. Muito têm em comum, mas isso será alvo de outro post, outra hora.

Ana a gramas (I)

maio 5, 2009

A beleza estará nua,

a verdade estala fora

(diz “A”, leitão a bairrada)