A herança do deputadô

Sabe essas correntes milagrosas que andam por aí pregando o humanismo nacionalista, a liberdade de portar armas para impedir que os nazistas soviéticos tomem o poder, sobre cachorrinhos sofrendo enhanced interrogation methods em nome das artes plásticas centroamericanas etc? Pois bem: tenho o mui desagradável hábito de responder esses e-mails. Desagradável pois as pessoas que dão forward a essas merdas com as melhores das intenções não gostam de se ver ridicularizadas, ver expostas as inconsistências do texto e de suas boas intenções. E como não conseguem defendê-las ante a um hábil e cético argumentador como este que lhes escreve, ficam em geral putinhas. “O Samurai não é para principiantes”, disse uma vez um amigo meu ao seu namorado que acabará de me conhecer, faz mais de um par de décadas.

Mas vamos ao ponto: uma simpática senhora amiga minha, inteligente, bastante talentosa e, ao contrário das meninas do post anterior, já tendo passado por dois retornos de Saturno (quanto ao resto, para bom entendedor…), me mandou uma corrente que talvez algum dos amigos já tenha recebido sobre um projeto de lei do falecido Clô. Não vou postar o email aqui. Pelo google, a fonte me parece ser essa: uma turma da AMAN. (cantando comigo:  “Brazil Brazil Brazil aldeia globale”

Bem, essa foi minha resposta:

<nome omitido para preservar a inocente>

essa proposta não tem nada de patriótica. Ela sofre é de um moralismo tacanho, variante do mesmo tipo de moralismo que perseguia Clodovil. Se você for no link abaixo você verá qual o tamanho dos parlamentos em um significativo conjunto de nações democráticas:

http://en.wikipedia.org/wiki/National_parliaments_of_the_European_Union

Em nenhuma delas o parlamento tem o tamanho das obrigações de fiscalização do parlamento brasileiro. A câmara de deputados no Brasil é maior que a americana. Já o senado, menor. No Brasil, Clodovil pode ser eleito deputado. Nos EUA, jamais seria.

Quanto à economia, não é o número de deputados que determina o gasto, mas as atribuições que a casa tem, o número de funcionário envolvidos e o valor de serviços contratados. Veja, por exemplo, o “custo” por senador quão maior é que o “custo” por deputado. São as atribuições que fazem o “custo”. Reduzir o número de deputados só fará com que a representação de minorias suma, e que o parlamento se componha de quem pode arregimentar muito dinheiro, fiéis ou prestígio. De gente que se disponha a atos pedulários como esse:

http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/03/19/deputados-disputam-apartamento-gabinete-de-clodovil-na-camara-754916498.asp

Clodovil como político sempre foi uma piada reacionária. Uma pessoa pode ser um ator político gay e de direita: Pim Fortuyn, por exemplo. Ou, para pegar o caso americano, o jornalista Andrew Sullivan. Clodovil optou pela comédia, num mau sentido. Você viu Milk?

Isso não torna ele um mau ser humano, não diminui a lembrança que temos do seu talento. Mas se há um lugar em que a presença dele era um sintoma de que algo está errado e não uma solução para o problema era a Câmara de Deputados.
Um abraço fraterno,
<moi>
PS: last but not least, o autor da mensagem mostra claramente o problema educacional brasileiro. Educação no sentido de fazer contas, educação no sentido de entender e trabalhar estatísticas, educação no sentido de ter caráter para divulgar uma infomação de forma correta:

O parágrafo abaixo é o original:

“Para um gasto total de US$ 600 per capita/ano, apenas US$ 300 per capita/ano vêm do setor público.
Destes, apenas US$ 150 são investimento federal, ou seja, US$ 0,40/dia por cidadão brasileiro, (…)”
fonte: http://www.ccr.org.br/a_noticias_detalhes.asp?cod_noticias=3503

O parágrafo citado por quem te mandou a mensagem é:
“para um gasto total de U$ 600 per capita/ano (em saúde), apenas US$ 300 vêm do setor público. Destes, apenas U$ 150 são investimento federal, ou seja, U$ 0,40 por cidadão brasileiro”

São dolares POR DIA o último número!

O artigo original já é calhorda em expressar os itens ao qual se opõe de forma agregada (e em bilhões) e expor os valores de saúde em números pequenos (percentual do PIB, valor per capita). 3,5% do PIB brasileiro pode parecer pequeno mas são dezenas de bilhões de reais. E observe-se que o texto citado é de um deputado do PSDB mineiro, nitidamente preocupado em levar verbas para o seu setor, o establishment de saúde. Nao sei se as reclamações dele eram tão intensas quando o governo era outro.

(fim do email)

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