… and a pony

Esse título poderia ser um shorter para o comentário do Cristovão Buarque lá no Noblat. Cristovam Buarque, o homem que nos deu a mais perfeita peça das correntes de internet de babaquice nacionalista. Mas não vou tratar desse mundo maravilhoso do desenvolvimento e da autonomia reacionária sem povos da floresta (perceberam essa notável ausência no texto?) neste post.

Noblat, no seu esforço centrista de quem dá voz a apparatchicks e muito chiques – o que torna seu blog mais interessante que a página de op-ed do Globo (e isso não necessariamente é uma ironia) – me sai hoje com uma das mais desfocadas peças de daltonismo político recentes, “O Sexto Mandato“. Basicamente, ele confunde a persistência de meia dúzia de elementos de política econômica e condução normal da coisa pública com uma continuidade. A menos que ele esteja falando do esquema Dantas de forma cifrada, comparar as intenções de criar uma máquina política de Collor e Motta – por si só radicalmente distintas, a menos que ele esteja insinuando que o falecido Motta “mottava” para bem do tucanato – é, no mínimo, um erro quanto aos objetivos, digamos assim, privados.

Qualquer pessoa que queira prestar atenção verá que há diferenças claras entre o que Serra e Aécio fazem e propõe, de seus estilos administrativos, e do que se pode esperar de cada um deles na presidência. E isso para ficar dentro do PSDB. O que é uma diferença clara? Não é certamente a diferença entre Bush e Chavez. Isso não é uma diferença, mas uma impossibilidade. Diferenças podem dialogar, estabelecer compromissos, transigir. Mas se quiser-se uma grande diferença, basta ver a questão da privatização em cada um dos quatro governos: caótica e autoritária como tudo mais em Collor; subterrânea na mineira gestão de Itamar; “dantesca” e e com regulação excessiva e mal focada em FHC; ausente em Lula.

Mas vamos ao Cristovam, que usou da peça de pirronismo daltônico do Noblat para tentar se superar no discurso do pequeno moralismo pequeno-burguês. A seguinte passagem:

“Não basta aumentar a indústria automobilística, é preciso reorientá-la para a produção de veículos de transporte de massas e de veículos especiais como ambulâncias, transporte escolar;”

Me explica, meu caro José: por que um ser humano com a formação que o Cristovam tem falaria uma bobagem dessas? Ele está pregando que implantemos alguma república de justos, em que só coisas nobres terão vez? Ele acha que falta produção (e não disponibilidade de recursos para comprá-los) de ônibus e ambulâncias no país? Ele é incapaz de escrever dois parágrafos consecutivos sem tocar no seu monotema, escola? Qual a mudança que ele esperava em Lula? Paredões conduzidos pelos ursinhos carinhosos para mudar o coração das pessoas? Epa, já estou entrando num outro artigo.

Para um cientista político – ou alguém que simplesmente conheça história, o que não é tão comum assim, a passagem abaixo é de gargalhar:

“A Ditadura criou o instituto da sublegenda, jamais imaginando que chegaria o dia em que todos os partidos são sublegendas de um partido único.”

A Ditadura criou a sublegenda para permitir que o pluripartidarismo pudesse existir debaixo das amarras de um bipartidarismo imposto pelo ditador Castelo Branco. Coalizões forçadas, mas passíveis de conviver. Como o mundo real da política. Trocas. Concessões.

Perdoe-me José, mas citando um bardo baiano, “narciso acha feio o que não é espelho”.

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2 Respostas to “… and a pony”

  1. Luciano Says:

    Li o trecho sobre ônibus. Confesso que não acreditei.

  2. ohermenauta Says:

    Como se sabe, ônibus dependem de uma tecnologia muito avançada para serem fabricados. Veja por exemplo que nem mesmo a Embraer fabrica ônibus. 🙂

    Mas o interessante mesmo é que esse mesmo tipo de mixórdia anda na boca de anaeróbicos que querem acreditar que Obama e Bush são, também, a mesma coisa. Yes they dare.

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