E aonde eles deveriam estar?

Lá no meu amigo Hermê vai um post sobre um post de um blogueiro do Estadão. Noutra peça do mesmo blogueiro lá citada, há uma frase que é uma pérola:

“… além do mais, é praxe entre os líderes do Hamas esconder-se covardemente entre a população civil, o que denota o desprezo desses dirigentes pela vida dos palestinos que eles dizem defender.”

Para começar, o Hamas não diz defender os palestinos: ele os representa. O Hamas ganhou as eleições, eleições limpas, eleições das quais os resultados eram clara e incontestavelmente conhecidos dias depois (ao contrário das eleições americanas, vide a novela Coleman-Franken). Portanto, ao que me consta, membros de um partido vitorioso nas eleições não vivem “escondidos covardemente” no meio da população civil: são parte dela.

Em segundo lugar, qual o problema deles estarem “escondidos covardemente”? É porque Israel – que é um pais que na prática não tem pena de morte – permite que suas forças armadas pratiquem execuções extrajudiciais sobre as não-pessoas dos “territórios“?  E porque essas execuções não levam em conta se não-pessoas como bebês serão também executados, vítimas involuntárias da precisão não-tão-cirúrgica das munições guiadas de aviões e helicópteros, armas de bravos e boni?

Covarde é sempre o Outro, o Outro é sempre Covarde.

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6 Respostas to “E aonde eles deveriam estar?”

  1. Leonardo Bernardes Says:

    Peraí, Samurai, nós conhecemos as atrocidades de Israel, mas quanto ao “escondido covardemente” você confundiu as bolas. O Hamas se esconde atrás de sua própria população, essa é a queixa que se faz. Ponto.

    Claro, isso não muda nada quanto as questões que você colocou, mas torna absolutamente legítimo o emprego do termo “covardamente”. A vida da sua própria população é mobilizada como num jogo. Há sempre desacordo sobre se, “defendendo” sua própria população, convém aplicar o termo covarde quando a força empregada excede o razoável (nesse caso eu concordo com você, se a força é excessiva também cabe a eles a pecha). Mas duvido muito que alguém possa duvidar — salvo o Hamas — de que é justo chamar de covarde alguém que se vale da vidas dos seus para atingir seus objetivos. São dois usos bem distintos que marcam níveis igualmente distintos de “covardia”.

  2. ohermenauta Says:

    Leonardo,

    Você conhece algum exército regular no mundo que se aloje exclusivamente em lugares totalmente segregados da população civil?

    E qual você pensa que é a relação entre a linha dura israelense e os colonos, senão a de valer-se da vida dos outros para atingir seus objetivos?

    Aliás, por exemplo, quando os EUA resolvem colocar um sistema de mísseis antimísseis na Polônia, tornando esse país um alvo prioritário das forças nucleares russas, eles estão fazendo o quê??

  3. samurai Says:

    Leonardo,

    o Hamas é um partido político. Ele não “defende” os palestinos. Ele disputa eleições, governa. Não se trata, portanto, do Irgun, não se trata das FARC. Eles não são legítimos representantes porque se deram esse título. Eles foram eleitos, democraticamente eleitos pela maioria dos palestinos.

    Se há uma comparação que se aplica é com o Sinn Féin.

  4. Leonardo Bernardes Says:

    Hermenauta,

    Quando uso a expressão “escondido covardemente” não estou falando precisamente de questões geográficas que poderiam, claro, suscitar objeções semelhantes as que você levantou. Trato da mobilização da população civil como estratégia política, de usar a vida e morte de seu próprio povo como mera tática de guerra — não DE OUTRA população civil, mas da sua própria. Não estou falando das relações condenáveis que um povo mantém com outro, mas da instrumentalização política da morte como estratégia quase exclusiva para manter e fomentar o ódio contra Israel. De aceitar a morte de milhares, entre seu próprio povo, se esse for o preço a ser pago. Uma coisa é o efeito colaleral provocado pela proximidade quase inevitavel entre civis e militares — a que você se refere — outra coisa é assumir inconsequentemente esses efeitos como parte da política, tolerar as mortes e manipulá-las. Além do mais, uma coisa é que os exércitos não se instalem absolutamente em separados da população civil, outra é usar a mistura como parte de um programa de guerra. Não se trata de nenhuma defesa das atitudes condenáveis de Israel, mas de reconhecer de diferenças.

    Samurai,

    Usei a palavra “defesa” em relação a Israel, para ilustrar como eles justicam os ataques, como exercício de um “direito de defesa”. Tese rasa e circular. O Hamas, a meu ver, tem plena legitimidade política. O que não envolve, é óbvio, o direito a dispor da vida da sua população, nem de mobilizar suas vidas como parte de uma estratégia política e militar.

  5. Luciano Says:

    Muito barulho por nada. Estamos vendo uma batida na favela. Há muitos cariocas aqui: vcs não reconhecem o padrão?

  6. Luciano Says:

    Agora que eu li, a comparação é perfeita. Estão destinados à derrota. Jamais expulsaram os ingleses de Belfast.. ahahaha

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