Archive for dezembro \18\UTC 2008

Noblat distorcendo os fatos

dezembro 18, 2008

E lá no blog do Noblat está uma pequena notícia, feita para incentivar o rancor ralo da volumosa ala direita dos frequentadores do blog (que é bem democrático, frise-se: há agora lá uma pequena minora contestando o erro): “Correa anuncia calote, mas compra avião de luxo“. O que uma coisa tem a haver com a outra? Calote quer dizer deixar de pagar. Deixar de pagar não quer dizer não ter dinheiro.

Bem, aí mora o erro. Noblat afirma que Correa “anunciou que não tem dinheiro para pagar a dívida externa do seu país“.  Isto é um erro crasso. O Equador não anunciou moratória porque não tinha dinheiro para pagar, como bem mostra esta matéria no Bloomberg. O Equador está contestando judicialmente a dívida. É um direito que assiste a qualquer devedor, direito por demais utilizado neste país. Por exemplo, para pessoas tão preocupadas com o BNDES e com a estabilidade de contratos, peguemos o caso da dívida do setor agrícola, novamente sujeita a “renegociação“. Ou então as confusões decorrentes da desvalorização em 99 sobre os financiamentos de leasing em dólar, pois ao consumidor é dado o direito de ser burro (um ano antes comprou-se um Palio lá em casa, e recusamos a oferta de uma taxa mais baixa em dolar –  eu expliquei para a vendedora que eu tinha estudado macro no livro do Dornbusch).

Mas voltando ao caso do Equador, por tudo que se vê em Wall Street no momento, alguém põe a mão no fogo pela lisura da condução do processo de renegociação que resultou nos papéis que tiveram o pagamento suspenso? Será que não há pequenos deslizes que permitam a contestação dessas dívidas? Alguém se perguntou qual o problema de você ter um país sem moeda própria, isto é, com uma moeda totalmente atrelada aos interesses particulares de parte da economia americana? E por que a promessa de campanha de rever esses contratos é uma violação, mas a senadora e presidente de uma organização sindical patronal mantida por dinheiro público pode conduzir “renegociações”?

Seria interessante o Noblat – que é pago para ser jornalista, o que não é meu caso – fazer um levantamento de quantas pessoas foram de jatinho à posse de Katia Abreu na CNA. Seria interessante saber quais os carros dessas pessoas beneficiadas pela renegociação. Mas isso pode secar as fontes. Melhor promover a salivação daqueles que votarão em Serra, Aécio etc, e fazer o papel de neutro pela via da política da canoagem de Jerry Brown “Paddle a little on the left, paddle a little on the right, and keep on going right down the middle.”

Last but not least, jatinho de luxo é o G4.

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MadOff – o gozo e o sintoma

dezembro 18, 2008

Andei catando uma frase exata de Lacan, mas como não falo francês e estou com uma certa pressa, vai essa formulação tão bem construída: “(…) sintoma, que é o preço que o sujeito paga quando não abre mão de seu gozo, mesmo que seja um gozo culpado.” (Sérgio Scotti).

Isto para dizer que, no que tange aos brasileiros, caro Hermê, o caso Madoff é um sintoma que os sonegadores estão pagando pelo não pagamento de impostos. Noutra formulação mais mística, karma is a bitch.

Ze Rest In Peace

dezembro 17, 2008

ZIRP, ou o falecimento da política monetária nos EUA.

O dólar caminha para seu fim como moeda de reserva. Despenca em relação ao Euro e ao Yen, num movimento que terá consequências cataclísmicas (numa palavra: carry-trade).

Anos muito curiosos pela frente.

Art Vandelay ou Madoff

dezembro 15, 2008

Ainda estivesse no ar Seinfeld, certamente esse caso Madoff viraria um episódio envolvendo Art Vandeley. Sigam até essa passagem no FT descrevendo a auditoria e riam.

Paris bem vale uma missa

dezembro 12, 2008

Veja o caso dessa notícia de Aldo Rebelo criticando a decisão do STF pela demarcação da reserva Raposa Terra do Sol. Aparentemente ele fala das ameaças à propriedade de quem está lá e à integridade de nosso território.

No entanto, a razão é bem outra. O exército brasileiro tem uma fixação com a questão da Amazônia (uma conveniente distorção em relação à questão indígena, com toda uma mitologia justificatória), fixação essa que não passa, por exemplo, pelo reconhecimento de um crime chamado Serra Pelada praticado sob o olhar do exército. Crime: arrastão a uma propriedade da CVRD. Beneficiário principal: o interventor, membro então do Exército.

Mas, e Aldo? No início do governo Lula ele andou cotado para ser ministro da defesa. No meio do governo Lula, o nome dele apareceu de novo para substituir Waldir Pires. Agora, de novo, lá está Aldo envolvido numa operação de swap. Aldo, no entanto, tem um problema: o PCdoB foi quem conduziu a Guerrilha do Araguaia, a qual serviu de justificativa para o arrastão de Serra Pelada. Portanto, Aldo tem que dar vigorosas provas de que está engajado nos mitos e lendas de nosso exército para não ser vetado.

Portanto, se você vir ou receber qualquer post ou e-mail questionando do ponto de vista ideológico essa posição do PCdoB, tome nota: bullshit. O interesse principal deles na questão é a eventual nomeação para o ministério da defesa. Opção preferencial pela boquinha, como mostra o engajamento na gestão Paes.

A história se repete

dezembro 10, 2008

Há poucos momentos da história tão maltratados por Hollywood quanto o último dos Antoninos, sua ascenção e sua queda. Tanto “A Queda do Império Romano” quanto “Gladiador” fazem um pastiche da pior espécie, em que pese serem bem filmados.

Mas nada mais interessante do que ver a atual transição americana como reedição desse processo, com George “Mission Acomplished” Bush no papel de Comodo e agora o Blagojevitch na busca de um Juliano 1.

Citi

dezembro 5, 2008

No início de setembro fiz um post meio hermético sobre o caso Lehman. Há lá um versinho alterado, fazendo uma alusão ao Citi. Havia uma aposta particular minha de que, das instituições que não apareciam na imprensa como vulneráveis (tipo Wamu e Wachovia), o Citi seria o primeiro a vir às cordas.

Por que? Porque o Citi está envolvido em tudo quanto for bandalha que você puder imaginar: foram sócios de Dantas, se deram bem na “esquecida” história da banda cambial transversa, foram autores do SIV –  uma refinada arte de tirar ativos do balanço para “enganar” as regulações de risco que está na raiz da atual crise.

Pois recebo de um amigo uma carta enviada pelo Citi, explicando que tudo vai bem.  Entre o prezado cliente e um abraço, cinco parágrafos. A palavra “sólido” aparece no primeiro, no terceiro e no quarto. A palavra “solidez” no segundo. Marshall Berman, man, Marshall Berman…