Habemus Chávez

Não vou entrar aqui numa discussão mais longa de história ou sociologia. Meu argumento, de forma simples e desossada, é o seguinte:

1) O serviço público concursado é a forma possível de ascenção à classe média (ou a um determinado tipo de posição de elite) num país que é patrimonialista até a alma. O mercado, ha ha ha, o mercado…

2) Conquistando seu acesso por mérito, essas pessoas tendem a ter uma certa hostilidade em relação à aqueles que usam e abusam do mundo patrimonialista.

3) Por vezes, esses setores – cujo acesso é, em teoria, universal; cujo contato com a população é maior que o das elites patrimonialistas (já que parte vem da própria população sem patrimônio) – se insurgem.

4) Outrora, quando esse tipo de instituição tinha alguma relevância para o mundo público, época de ouro do standing army ou do warfare state como esqueleto da nação “protegida”, o exército era o local onde esses insurretos se localizavam. Tenentismo, estudamos no colégio. Hugo Chávez, para trazer um exemplo mais contemporâneo.

5) No mundo complexo de hoje, no entanto, o estado se funda em outras coisas que não a ação do poder público em avenidas largas e e bem desenhadas. A condução dos assuntos do mundo privado passou a exigir cada vez mais qualificações técnicas complexas. Portanto, forças armadas não são mais o foco principal de atração dessas pessoas tecnicamente qualificadas.

Isso prá dizer a seguinte coisa: há em curso hoje um processo de rebelião latente do mundo técnico-concursado contra o patrimonialismo que persiste na sociedade brasileira. Há uma revolta não estruturada das classes médias quanto à corrupção e à desordem. Quando essas duas coisas se encontrarem..

Leio que num ato de inominável estupidez, ao invés de criar uma situação em que Dantas fugiria um tempo, cumpriria um tempo e se aposentaria, ou simplesmente faria um disrespect the Bing tal como Palocci e o caseiro, partiu-se para tentar desmontar de vez a Satiagraha. É um equívoco de grandes proporções. O que poderia ser resolvido com uma dúzia de cabeças, num belo processo catártico como foi a da Comissão de Orçamento, -quando um punhado de parlamentares foi sacrificado mas a máxima de Tancredi se manteve na república fundada por Tancredo – vai se transformar numa afronta.

Assim com Juscelino e seus opositores, que só tinham olhos para 1965, o presidente Lula e seus opositores fariam bem em perceber que 2014 e 2010 não estão com lotação esgotada. A votação de Gabeira no Rio foi um sintoma disso. Num mundo em que as avenidas largas ganharam outros usos, o presidente Protógenes pode vir a ser a surpresa política da próxima década.

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