O problema do ônibus

Faz quase exatos quatro anos que José Mourinho, então técnico do Chelsea, empatou em 0x0 com o Tottenham. Essa é uma partida marcante por um comentário do Mourinho:

“As we say in Portugal, they brought the bus and they left the bus in front of the goal. I would have been frustrated if I had been a supporter who paid £50 to watch this game because Spurs came to defend. I’m really frustrated because there was only one team looking to win, they only came not to concede – it’s not fair for the football we played.”

A partida do Engenhão foi o tradicionalmente tedioso espetáculo da seleção brasileira enfrentando uma retranca determinada e bem conduzida. Aliás uma retranca rara, pois o único atacante sequer tentava ir até a área brasileira: “chutava” (com aspas) em gol já da intermediária. O que fazer numa situação destas? Boa pergunta.

Conversando com os especialistas aqui do andar chegamos a 3 soluções:

  1. Cavar lances de bola parada.
  2. Usar atacantes que consigam fazer milagres.
  3. Usar de “força”, seja em cruzamentos, seja penetrando.

O Brasil entrou novamente no 4-2-3-1, com Juan como única mudança. Juan foi certamente uma plot publicitária de Dunga/CBF. Um jogador do Flamengo, o único jogador do Flamengo com idade, futebol (há controvérsias) e identificação com a torcida que poderia ser convocado. O problema é que a maioria da torcida ali não era do Flamengo, e Juan foi perseguido desde o início.

Aliás, torcida foi o que mais faltou. Fato é que não dá prá seleção se apresentar cá no Rio, nem em nenhum dos grandes centros. Me lembro de um artigo no Guardian (que não consigo localizar agora) sobre os torcedores dos pequenos times sendo os únicos que realmente torcem pela seleção. Mas fato é que fora do eixo RIo-São Paulo-Belo Horizonte a seleção tem torcida. Cá tirou-se Raí da Copa de 98, quando ele poderia ter sido muito mais útil que aquele one hit wonder chamado Geovani.

Um veterano aqui lembrou de uma partida assim da seleção no Maracanã: Brasil e Paraguai, o maior público da história do Maracanã. O Brasil ganho por um a zero, gol no último minuto, Pelé, numa jogada individual de um trator chamado Edu. Fato é que ganhar uma partida assim não é fácil. Sem a colaboração da sorte, fica complicado.

Que lição a se aprender dessa partida? Meu ponto é que esse tipo de partida se ganha pela força. Running backs como Júlio Baptista, rompedores com Adriano. Jogadores que possam cabecear, jogadores que possam cruzar. Ontem era partida para se ter posto também o Jô plantado lá na frente, já que é muito fácil se colocar um único atacante em impedimento (especialmente quanto este atacante não costuma jogar como target man, como é o caso do parceiro de Kanoute no Sevilha).

Pior, no entanto, era ver os geniais comentários de Muller, que propunha colocar-se o Nilmar para dar velocidade ao time. Velocidade contra o que? Contra 10 caras plantados na defesa e um no centro do campo? Será que Muller alguma vez assistiu à sua pior partida, aquela em que a Argentina eliminou o Brasil em 90? Disse-me um colega que Falcão, outro gênio da interpretação, reclamou que o Brasil não tentava jogadas individuais (no que estava certo) lá pelos 70 e poucos minutos, para chamar o Robinho de egoista numa tentativa dele no final da partida. Aliás, Robinho ontem jogou uma bela partida do ponto de vista tático, trocando de pontas. Mas faltava alguém lá dentro para ele cruzar a bola.

Dunga não passou pelo teste do ônibus. E esse, pelo visto, é o Kobayashi Maru do futebol brasileiro. Solução? Esquecer o “futebol brasileiro” e, assim como antes de 70, jogar da forma como todo mundo jogava: ponta -> linha de fundo -> cruzamento. Dribles a gosto.

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