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De sorte e da morte

agosto 28, 2008

Quando do sorteio do Galo para enfrentar meu Botafogo na Sulamericana, pensei: “o Bebeto deve estar comendo as bolinhas do sorteio.” Sim, porque a sorte na definição da sequência de jogos de um torneio pode ser a diferença entre a possibilidade de construção de um caminho gradual para a vitória e a ruína.

Há sorteios e sorteios. Há sorteios que são totalmente aleatórios (as copas inglesas são o melhor exemplo), há sorteios que buscam algum tipo de equilíbrio na disputa (os grupos da copa do mundo, por exemplo). O sorteio dos grupos da Champions está no segundo caso, mas o método de ordenação que leva composição dos potes do sorteio é, no fundo, uma fábrica de “grupos da morte”.

Por que? Porque, grosso modo, pós-bosman, há quatro tipos de times disputando a Champions:

  • os que realmente disputam o título (os suspeitos de sempre: os 4 ingleses, os 3 italianos – um dos quais não está esse ano -, os 2 espanhóis);
  • aqueles que são participantes crônicos (holandeses, portugueses, escoceses, franceses, alemães – vez por outra milagres acontecem nesse grupo), que basicamente são os mesmos todo ano e raramente passam das quartas;
  • aqueles a quem a sorte e um bom desempenho em um ou dois pares de partidas do que é, no fundo, pré-temporada, leva à fase de grupos, em geral para sequer pegar Copa da Uefa depois.
  • Os surprise packs dos campeonatos nacionais que realmente contam do ano anterior. O que nesse caso, inclui a Alemanha além dos 3 países com 4 clubes.

O formato atual faz com que o primeiro pote se componha basicamente do grupo dos postulantes, o segundo e terceiro basicamente pelos crônicos, ficando os coitados entre o terceiro e o quarto pote, e as surpresas para o quarto. E aí está o grande problema: o quarto pote continha, ao mesmo tempo, o Famagusta e o BATE junto com o Atlético de Aguero e a Fiorentina de Mutu. Estes dois, sem querer depreciar os lagartos, têm futebol para o segundo pote.

Portanto, vamos aos grupos:

  • Grupo A: mamão para Chelsea e Roma contra o Bordeaux (em ascenção mas longe de ter bala na agulha para algo mais que um terceiro) e uns desconhecidos romenos;
  • Grupo B: a Inter pegou um grupo com o Werder Bremen e o Panathinaikos, sendo que o Famagusta completa a chave. o clássico helênico entre o PAO e os cipriotas renderá, no mínimo, piadas. A Inter, com seu miolo de zaga todo no estaleiro, tirou a sorte grande.
  • Grupo C: Barcelona tem uma vida razoavelmente tranquila com Sporting, Basiléia e Shakthar Donetsk pela frente. Os lagartos terão um certo trabalho com os ucranianos, mas tenho fé que farão a alegria de algum dos grandes nas oitavas.
  • Grupo D: este é um grupo da morte. Tem o Liverpool, terceiro no ranking depois de Chelsea e do não classificado Milan. O Liverpool é a Alemanha da Champions: pode estar uma merda mas chega entre os finalistas assim mesmo. Tem 2 crônicos: um de respeito, que é o PSV, uma piada, que é o Marselha. E tem Aguero. O Atlético chacinou o Schalke, naquele que foi certamente o mais importante duelo da terceira eliminatória. Acho que dá Atlético e Liverpool, mas zebras podem acontecer.
  • Grupo E: o United pegou um grupo mole, com Villarreal (que deve ser o segundo), o crônico Celtic e o Aab.
  • Grupo F: Se há um grupo da morte, é este. Deste grupo sai o “favorito” para a Copa da UEFA. Contém dois crônicos que pensam que são postulantes, Lyon e Bayern, a Fiorentina e o Steaua. Tirando o Steaua, qualquer um pode dançar. O Bayern nesta altura deve estar pensando no grupo com Milan e Deportivo que pegaram em 2002-2003.
  • Grupo G: se não é da morte, certamente é do coma. Arsenal deve vencer com um certo trabalho, mas os tripeiros, o Fenerbahçe e o Dínamo de Kiev devem quebrar o pau para escolher quem vai para o mata-mata.
  • Grupo H: Madrid e Juve tem uma pedra no caminho, que é o Zenit. Pequena, creio eu, mas uma pedra. Acho que o Zneit logo logo terá a perspectiva de ter por meta um bi da Copa da UEFA, como o Sevilha conseguiu. Tem o BATE, nesse grupo, cuja sigla em si é uma proposição rodrigueana.

Por enquanto é isso.

Friedman remodelado

agosto 26, 2008

Hoje, no banho, pensava em mecanismos de construção do judiciário quando me veio o seguinte trocadilho:

There’s no such thing as a free branch.

Qual seja: todos os três poderes estão hoje tocados pela corrupção, lessig style para dizer o mínimo. Aí chego no trabalho, dou minha obrigatória passada pelo Nassif, e me deparo com a notícia de que Gilmar Mendes teria despachado sobre o segundo habeas de Dantas com uma versão faltando as 4 últimas páginas da decisão da corte inferior. Bem, se isso não é caso, no mínimo, de negligência, não sei o que mais poderia ser.

Donativo e empréstimos

agosto 25, 2008

IMVHO, a melhor observação de Marx para entender os detalhes da atual crise americana não está em sua obra econômica, mas na obra política.

Donations and loans — the financial science of the lumpen proletariat, whether of high degree or low, is restricted to this.” (cap 4 do Brumário)

A história americana da década de 30 para cá tem sido uma negação da luta de classes. Essa negação passou por uma transformação, que eu chutaria operada pelo/no âmbito do fordismo, da identidade do cidadão. Ao invés da identidade definida pelo seu papel de produtor, os consumos materiais e simbólicos passaram a dizer quem os americanos são.

Nesse sentido, essa discussão que rola no Krugman, que é uma variante do problema que está descrito neste gráfico (evolução de dívida das famílias, que pode ser vista numa série mais extensa e com outras discussões ainda mais interessantes neste post recente no Seeking Alpha). E, no fundo, o que está por trás do gráfico neste post do Naked Capitalism. E que, noutro sentido, desse post do Salmon.

Qual seja: a sociedade americana resolveu seu problema de conflito de classes (e intra-classes no caso das pessoas jurídicas), transformando-se, no fundo, no paraíso do lúmpen. Assim sendo, o assalto ao futuro abriu a possibilidade transformação de ativos e fluxos em renda imediata, uma forma indolor e invisível de se retirar as pressões políticas e inflacionárias por um melhor padrão de vida. Esse veio, não por uma melhor distribuição de renda, mas pela via do endividamento, do valor presente. É sintomático que, voltando ao gráfico no Yves, tenha sido exatamente a era dos junk bonds como “heróis do capitalismo” o início dessa tendência, no fundo, inflacionária, para a economia americana como um todo. Uma inflação não financeira, mas nas expectativas, nos ativos.

E se os empréstimos agora começam a falhar, tenta-se os tax rebates. Donativos e empréstimos, donativos e empréstimos. Let a thousand new new bubbles blow, para manter o espírito olímpico.

Duas frase adiante, Marx, como se estivesse, um século e meio depois, escrevendo para o The Daily Show ou o The Onion: “Never has a pretender speculated more stupidly on the stupidity of the masses“.

Puro Nostradamus!

Em defesa de Dunga

agosto 22, 2008

Pois eis que a segunda era Dunga (a olímpica ou será a era como um todo?) termina com uma medalha de bronze. Eliminado por um time Argentino que é o favorito mais claro para as duas próximas copas (ou não, mas isso é razão para um post futuro), o bronze não foi um mau resultado. Ao contrário da eliminação patética de 2000, ante a um time de Camarões numericamente inferiorizado; da eliminação na fase classificatória pelo Paraguai em 2004; da reação culminado com o golden goal de Kanu da Nigéria em 1996; a atual seleção olímpica perdeu porque pegou pela frente um adversário que era, jogador a jogador, melhor. Talvez por isso a raiva das pessoas: uma coisa é perder por acidente, outra é reconhecer que os outros, peça a peça, são melhores. E que, apesar disso, quase os batemos. Tipo contra a Holanda, em 1974.

Meu pai, por exemplo, vem com aquele tradicional discurso do ressentimento pequeno-burguês toda vez que a seleção vai mal, que é acreditar que se só jogadores que jogam no Brasil fossem convocados o resultado seria outro. De fato, seria: em 2004 Kaká e Adriano não puderam disputar as eliminatórias para as olimpíadas, e, portanto, ficamos de fora com nossos jogadores nacionalíssimos, com atacantes com a vigorosa presença física e senso de área como Robinho, Nilmar e Dagoberto. Ao menos perdemos para ouro e prata daquela olimpíada, se serve de consolação. Digamos que fomos bronze moral em 2004.

Neste sentido, vale a pena examinar os indicadores anteriores da atual seleção:

– mundial sub-17 de 2005: Anderson e turma perderam a final para o México por 3×0. A Argentina, que fora bisonha num sul americano sub-17 em que Kerlon e Anderson fizeram chover, sequer disputou. Na final, Anderson se machucou, e o México de Giovani dos Santos e Carlos Vela bateu o Brasil. Anderson foi o melhor jogador do campeonato e lá estava Marcelo na lateral. A Argentina tem ido meio mal nos mundiais sub 17. Por que? Porque, assim como nós nessa última copa, eles tem posto seus Patos no time sub-20. E que Patos!

– mundial sub-20 de 2005: o Brasil com um time que continha Rafinha e Rafael Sóbis foi eliminado por uma Argentina campeã que continha entre seus membros Ustari, Garay, Gago, Aguero, Zabaleta, Sosa e – melhor jogador do mundial – Messi. O mundial sub-20 de 3 anos atrás teve Argentina e Nigéria na final com o Brasil em terceiro: não é curioso que Argentina e Nigéria farão a final olímpica com o bronze indo para o Brasil no que é, no fundo, um mundial sub-23 em 2008?

– mundial sub-20 de 2007: o pobre Pato e um bando de mascarados foram eliminados na primeira fase do mundial. Lá estava Aguero, brilhando. O torneio classificatório para esse mundial foi o que levou o Brasil a olimpíada.

Tudo isto para dizer que: o time olímpico da Argentina estando inteiro – e sem o jogo passar por Riquelme para ser presa fácil do meio-campo brasileiro – é foda. Porque no momento em que eles abandonaram o jogo cadenciado e partiram como ligeiras formiguinhas tocando a bola para a porta dos fundos de nossos laterais, Aguero, que ao meu ver está para Pato assim como Romário para Careca, chacinou com o Brasil. E esta, meus caros, é a realidade de 2010 e 2014. No papel, claro. Porque, como mostraram as duas últimas copas do mundo e a eurocopa, o papel tem problemas. Mas isso é outra história.

Voltemos a Dunga. Dunga mostrou sucessivas vezes como o Brasil bate o futebol argentino estilo Riquelme. Basta controlar o meio-campo, não dar espaços, e pronto! Claro que para isso,a seleção não pode ter mais que um “craque”. Vá lá, um “craque” e um atacante. Nesse esquema, o Brasil bateu a Argentina, Júlio Baptista e Daniel Alves brilhantes, Wagner Love taticamente perfeito, Robinho, o “craque” desaparecido a maior parte do jogo. Não foi um futebol vistoso e circense, mas foi um futebol exuberante e campeão. Futebol vistoso só é possível, no fundo, contra times medíocres. Como mostrou o Chelsea, se você pode dispor de Joe Cole e Ballack para escoltar Cristiano Ronaldo no segundo tempo, pouco o avatar de Cruyff pode fazer. Mesmo Kaká só conseguiu aniquilar o Liverpool depois que um cartão amarelo motivou a substituição de Mascherano na final da Champions do ano anterior.

Qual seja: ser craque contra timinhos é fácil. Ser nas partidas realmente duras, isso é outra coisa, muito dificil de ser realizada. E, nesse sentido, Pato ainda tem muito a crescer. Pois ele (e, num certo sentido, Sóbis) não conseguiram ser o atacante que Ronaldinho e Diego precisavam. Se Ronaldinho espera por alguém com o senso de colocação, velocidade e finalização de Eto’o e Messi, Diego requer um atacante forte, impositivo, 1,90m de estivador que prenda os beques enquanto ele prepara o bote. Sóbis e Pato não sabem ficar parados, não sabem exigir o devido respeito dos beques, não sabem ser invisíveis. Na verdade, nenhum deles sabe ficar sozinho no ataque – requerem um outro atacante para dialogar – o que vai ser um problema para o Milan, a menos que o Pato aprenda a arte de Pipo Inzaghi.

Taticamente, no entanto, essa seleção foi, imho, quase perfeita. Eu teria posto o Ilsinho no meio-campo junto a Lucas e Anderson, criando uma dobradinha pela direita tal como Daniel Alves e Maicon contra a Argentina e Sagna-Eboe no Arsenal (no fundo o que Cláudio Coutinho tentou fazer com Toninho na ponta direita da seleção de 78, a grande revolução tática do futebol brasileiro que não aconteceu). Mas a disposição da seleção em campo funcionou muito bem, tirando o fato que os atacantes nem sabiam ser invisíveis, nem manter os beques quietos lá atrás. É sintomático, por exemplo, que tenha sido o zagueiro Guaray quem armou Aguero no segundo gol.

A lição que provavelmente não será aprendida é que o Brasil para ter dois meio-campistas ociosos (isto é, que não se preocupam com marcação) tem que ter um atacante fisicamente impositivo. Mais que isso: se prestar-se atenção na era Dunga e nas duas copas do mundo anteriores, é hora de se enterrar qualquer conceito de “quadrado”. Esse é o risco da remoção de Dunga para que se emplaque um técnico que agrade as massas. Futebol não é playstation nem album de figurinhas, mas um arranjo dinâmico em que nem sempre os mais caros ingredientes combinam num bom prato. A noção comida a quilo de craques não faz alta cozinha.