Archive for julho \29\UTC 2008

Inocência

julho 29, 2008

Once upon a time Lúcia Hippólito foi uma cientista. Agora, ela é uma colunista que fica chocada. Talvez influência do chá das quartas, a frieza analítica que a separava do restante de nossos comentaristas de política sumiu.

Veja-se o caso dessa crítica ao processo de criação da Petrobrás Biocombustíveis. Que absurdo: os partidos políticos fizeram as indicações da diretoria! Um burocrata partidário que foi ministro foi posto na diretoria! Partidos indicaram funcionários de carreira!

So what?

Melhor é o quê? Militantes-companheiros que vão para o board de bancos ou para empresas que são concessões públicas? Pau que bate em Pedro… epa! Pedros do tucanato são imunes! Onde ficam os burocratas de um partido que está no poder? No poder, ora! Por vezes, isso acontece de forma regulada, como o caso da proporz austríaca. Por vezes de forma ampla e selvagem, como o k-street project.

A mulher fala de mérito como se isso fosse uma coisa concreta, e não uma realidade política. Talvez um pouco de de Waal fizesse ela ter uma visão de que a política está nos lugares mais inusitados.

Mas vamos aos detalhes dos chiboquetes mais graves:

O que é triste não é constatar que militantes-companheiros como Miguel Rossetto não fiquem desempregados, porque sempre há um cargo para eles.” Melhor é o quê? Serem empregados pelo “mercado” enquanto seus amigos estão no governo? Mas falar mal de “militantes-companheiros” é legal. Afinal “(…) e sindicalistas (olha eles aí de novo!)” é o tipo da coisa que sempre agrada empresários, que é quem compra palestras.

“(…) fundada na mais sólida meritocracia e, por isso, é uma das maiores empresas do mundo, tenha se tornado palco de disputas partidárias e sindicais.” Que escândalo! Nesse clipping da Radiobrás (várias notícias tratam do assunto) pode se ver o que é uma nomeação que não é “palco de disputas partidárias e sindicais”. O leitor que quiser dar uma passeada nesse link poderá sentir a sólida meritocracia na escolha dos presidentes da Petrobras. Ou será militocracia e o copidesque errou?

Não é a meritocracia que tornou a Petrobras uma das maiores empresas do mundo, mas o monopólio na área de petróleo e a decisão do governo brasileiro de realizar investimentos custosos de prospecção que nenhuma empresa com acionistas e dividendos a pagar correria o risco de realizar. Há vizinho de blog dela, gente especializada no assunto (e com o qual não concordo, fique cá bem claro, pá), que não acredita nessa tão propagada eficiência.

Não que a Petrobras não tenha uma cultura de mérito: em nenhum outro lugar na república “janeleiro” é uma acusação tão grave. Mas onde ela vê “mérito”, (uma vez o concursado lá dentro) eu vejo “sponsored mobility“.

E no comércio não vai nada?

julho 28, 2008

Uma coisa que eu me perguntava outro dia, em função de uma série de discussões que rolava lá no Hermê entre ele e o FYI, é qual o impacto da produção destinada a exportação nas emissões chinesas, agora que a China é a grande culpada em números absolutos das emissões. Bem, a resposta é 33%.

A pergunta é: isso é emissão de quem vende ou de quem compra? Não tenho opinião formada ainda, mas acho que essa pode ser uma questão bastante complicada nos próximos anos.

Gerador automático de artigos

julho 27, 2008

Se há uma coisa impressionante é a sobrevivência de Mailson da Nóbrega como comentarista. Nada do que diz ultrapassa o óbvio, nada senão clichê para quem fica salivando as orações de um mercado há muito falecido.

Vejamos este último exemplar, em que ele investe contra o IPEA. O homem defende flat-tax, apontando que os países do leste europeu a adotaram. Pode haver ambição mais modesta em um ser humano? Por que esses portentos econômicos adotaram tão sábio mecanismo? Talvez pela inexistência de uma máquina tributária nos governos comunistas (qual o sentido de uma máquina tributária para cobrar de você mesmo?) e pelo desejo de adotar o que de mais “moderno” havia no discurso conservador no momento em que sairam da cortina (lembremos que o Forbes era o campeão da flat-tax). Uma visita a outra página da wikipedia permitirá constatar que a nossa taxa de 27,5% é bastante baixa para padrões do mundo civilizado.

Mas vamos a mais um pontos absurdo: por que a arrecadação de IR cresceu? É pelo crescimento da renda ou por que o Governo FHC, ao qual Mailson apoiou, não reajustou as faixas, fazendo com que a classe média pagasse proporcionalmente mais?

E as reformas estruturais? Quais são? Por que será que nos 8 anos de FHC nenhuma delas foi prá frente, exceto a terceirização do estado? Será que ele não sabe que a palavra reforma atualmente tem um bad karma? Que, assim como a palavra privatização, ela provoca mais terror do que esperança?

Por que Mailson escreve baboseiras dessas? Porque aqueles que compram sua consultoria não querem ver seus impostos aumentados. Esses chiboquetes servem de propaganda: para os incautos – o vizinho arquiteto que não entende porra nenhuma de economia que afirma para o homem que calcula a inflação oficial o sucesso do plano cruzado – a disseminação de uma tese equivocada; para os clientes, uma afirmação de que nós somos “legais” e, por favor, não comprem serviços desses malvados (e dos amigos deles) que querem esfolar seus bolsos.

Em suma: qualquer “opinião” deveria vir com uma nota explicando quanto aquela proposta beneficiária seus clientes. Isso daria uma perspectiva ao leitor.

Being Soros

julho 24, 2008

Tem uns 2 anos que venho acertando o dólar. Não que eu tenha ganho dinheiro com isso: meu investimento imobiliário acabou com qualquer possibilidade de fazê-lo. Mas ganho reputação entre meus amigos e colegas de trabalho. Não que isso sirva de alguma coisa, mas … tergiverso. “Alê ao poã”, diria um ex-amigo.

Segunda-feira peguei carona com um amigo cá do trabalho e expliquei para ele minha visão sobre o dólar. De um modo muito simples:

– de um lado o BACEN, sado-monetaristas, determinado a impedir que a inflação ressuscite, nem que tenha que jogar o bebê pela janela para não esquentar a água de banho.

– de outro o Fed, “agorasomos todos keynesianos” (por favor, follow both links e caiam na gargalhada), determinado a impedir que uma recessão se instale antes da eleição de novembro.

O resultado dessas duas forças, o bushido babaca do bacen com o “segura os ralves” do Fed, vai resultar em mais notícias desse tipo. Pelo menos até novembro, quando os banana republicans uncle Ben e uncle Hank descubrirão subitamente que a inflação existe e que, passadas as eleições americanas e as olimpíadas, os chineses não estarão interessados em ver suas reservas virarem pó…lonetas.

Hope and faith – Krugman in Rio

julho 24, 2008

Krugman, muito claro, muito articulado, explicando até alguns conceitos meio elementares de história econômica para um auditório cheio. Crê que a chance de dar merda é de uns 10%, que a ação concertada de Uncle Ben e Uncle Hank conseguirá fazer com que exista só um período de 2-3 anos de estagnação e não uma recessão/depressão (claro, se os monetaristas do Fed não forçarem uma política antiinflacionária). Falou em peak oil, um conceito que alguns de nossos mais renomados banda-cover de Al Gore parecem desconhecer. Falou pouco de Brasil, assunto que diz não entender. Elogiou (com o que concordo) a flutuação da moeda brasileira e a política de nosso Banco Central (embora ele diga não entender porque os juros aqui são tão altos). segundo ele, com isso escapamos da inflação que vai assolar os países de Breton Woods II e do risco de uma solavanco de entrada e saída rápida de capital especulativo esperando uma valorização da moeda no curto prazo.

A platéia faz as perguntas de sempre: alguns declarações de fés antigas (direitos especiais de saque, o esperanto da globalização sessentista; stop-and-go); alguns coisas que o Krugman já discutiu várias vezes em seu blog (o preço do petróleo: demanda ou especulação?); alguns que ainda estão na fase pop “from Milan to Minsky” de pensar a crise. O homem da CPFL põe lá algo entre uma pergunta, uma lamentação, um sabe-se-lá-o-quê… com a temível palavra “regulação”. Não me lembro se foi aí que Krugman citou a notável expressão do Frankel: there are no atheists in foxholes; there are no libertarians in financial crises, mas ele usou a expressão em algum momento da palestra. O homem tem um blog, ao contrário do resto da mesa e do grosso da platéia.

Claro que houve algumas perguntas muito bem construídas, que permitiram/exigiram ao Krugman detalhar melhor os pontos apresentados na palestra. As usual, fiz duas pequenas perguntas, dois pequenos carrinhos bem aplicados, que suscitaram um pequeno gaguejo no início da resposta (sintoma de pergunta inesperada) e umas paradas (sintoma de pergunta que exige reflexão) ao longo do discurso para responder:

– Uno: Krugman foi um grande crítico da política de healthcare de Obama. Será que Obama (Krugman dá Obama por eleito, o que é uma hipótese para lá de razoável pela posição no intrade desse momento em que escrevo, a questão incerta sendo se haverá ou não landslide democrata para o congresso) fará as políticas sociais compensatórias necessárias a amortecer o custo da estaganção pelos próximos 2-3 anos?

Resposta: Obama incorporou algum pessoal de Clinton, mas concretamente, a única coisa que ele pode falar de Obama é “hope“. Para bom entendedor, expectativas baixas de Obama conduzindo qualquer política democrática usual, qualquer grande avanço na questão social etc e tal.

– Dos: como poderiam acontecer os 10%?

Resposta: em duas hipóteses impensáveis segundo ele: uma nova insolvência que o congresso/FED não banque (keynesianos tem uma fé futurista de que the central bank will always get through), ou a hipótese alucinada de que as pessoas comecem a achar que os EUA entrarão em default (totalmente improvável, mas que TED spread los hay, los hay).

falta uma informação na notícia

julho 18, 2008

E eis que nossa polícia estadual faz mais uma operação com baixas. Do outro lado, obviamente.

Fica faltando uma informação na notícia: qual a facção que domina o local? Qual a geografia do poder em torno?

PS: juntando a essa notícia anterior de O Dia, parece que o tráfico tentou invadir uma área controlada por milícias. Sintomático.

loopholes !

julho 18, 2008

E lá está Miriam Leitão levantando a importantíssima e chocante informação: Daniel Dantas não é dono do Oportunity! Mesmo ela está chocada!

Enquanto isso, lá no meu amigo Hermê, rola uma discussão sobre a matéria da Piauí. Uma revista  para pessoas com um parafuso a mais mas que não sabem onde a porca torce o rabo.

Afinal Dantas não é banqueiro, nunca foi. No fundo, todo mundo sabe quem são os verdadeiros donos dos fundos em Cayman e da marca Oportunity do qual Dantas é só um intermediário na franquia: Neil Tennant e Chris Lowe.

Por essas e outras é que existe aquela tradicional piada de advogados terminando com “good beginning”. Queria ver quem está pagando as contas do time de advogados do Dantas. Queria saber quem foram as pessoas que operacionalizaram essa interessante institucionalidade entre o 28 e o 29 andar. Essa era pergunta que deveriam estar fazendo os jornalistas. Porque este caso, no fundo, é um caso sobre a prática e as consequências do direito, e não só sobre economia ou política.

Não há rendas sem lei, é tudo que tenho a dizer.

“Que cidade é esta…?”

julho 18, 2008

Pergunta, enfático, o governador, manhã de sexta, carros novos para a polícia: “Que cidade é esta?

Respondendo:

– Uma cidade em que a polícia muncipal sequer pode controlar o trânsito, já que até isso é monopólio da polícia estadual;

– uma cidade submetida a uma ALERJ controlada por grupos conectados ao atual governador desde 1987;

– uma cidade cujo governo de estado é controlado por grupos ligados (ou que foram ligados) ao atual gvernador desde 1995;

– uma cidade em que a turma associada ao atual governador nunca ganhou a eleição para prefeito (Conde foi eleito por Cesar, Marcelo por Brizola).

Inocentes e policiais morrem pelo ESTADO das coisas, não pela cidade.

Cinismo e conivência (2)

julho 9, 2008

A versão oficial, usada por Miriam Leitão no Bom Dia Brasil, é que este é um escândalo de corrupção como os outros recentes. Miriam também toca no ponto do excesso da Polícia Federal, baboseira criticada neste post do Noblat.

O escândalo é tucano e vai direto ao sistema financeiro paralelo de doleiros e butiques financeiras, serviços esses que muita gente boa utiliza. Penetrado este núcleo, as baixas colaterais poderiam ser pesadas. Mas, como no caso Silveirinha, como no caso Banestado, não crei que se chegará a Tangentópolis, Higienopolis ou Leblon.

O Scalia que preside o STF ficou calado quando do assalto à Lunus. Era governo. Seria interessante que alguém perguntasse ao ministro, por exemplo, se alguém do antigo governo ligou para ele nas horas que se sucederam à prisão de Dantas, e para discutir o quê. Mas perguntas que podem levar à gagueira não são o forte de nossa imprensa. Antes de mais nada, caberia à imprensa tentar averiguar o que “resolveria tudo com facilidade” quer dizer.

Cinismo e conivência (1)

julho 9, 2008

A versão oficial, usada no Bom Dia Brasil, e que está retratada neste post do Noblat, é o despreparo. Despreparo é da imprensa, isso sim. Aquilo não foi falha ou inexperiência no uso de equipamento. Aquilo não falta de treinamento. Aquilo foi uma chacina, uma execução extra-judicial.

Para quem não sabe ou não quer perceber, o aparato de segurança do Estado do Rio hoje é um braço armado de uma facção criminosa em guerra contra os outros comandos. Isso é claro nesta chacina, é claro no caso dos garotos entregues pelo exército. Mas a imprensa não quer ver.