Idiocracia ascendente

Conforme prometido anteriormente, retorno ao post do Krugman das anti-cassandras. Muita gente referiu ao post na blogosfera, mas não vou ficar aqui catalogando. Uma das interpretações mais interessante que li está no comentário do Tabarrok do marginal revolution. A pergunta: por que só as pessoas que erraram em relação à guerra do Iraque e a crise atual eram chamadas para falar sobre o assunto? A resposta: porque o público não quer parecer idiota, já que a maioria dele também acreditou na mesma coisa. É a lógica do banqueiro “sensato” de Keynes, citada pelo Krugman no post.

Um segundo post também no NYT, mas do Kristoff, fala especificamente da aversão americana à intelectualidade. O ponto é fascinante, parte do qual bastante conhecido: a capacidade dos americanos de acreditar em coisas absurdas, até mesmo sobre seu seu próprio cotidiano.

Outra parte de ponto do Kristoff se assemelha ao ponto do Tabarrok: as pessoas preferem o conforto da estupidez coletiva, em especial na América, onde tudo se resolve na identidade. Isso tem repercussões, como eleger Bush (não confundir com seu pai ou seu irmão Jeb, o outro Bush que poderia ter sido um presidente razoável – não é gratuita a comparação dos irmãos nesse esquete genial do SNL, do qual infelizmente não consegui as imagens), por exemplo. Não, não que Dubya tenha uma formação limitada, ou pouca cultura, por alguma decorrência das dificuldades de sua vida. O homem fez Harvard, raios! A ignorância ali é uma escolha recorrente.

Mas ao contrário do Kristoff, acho que a idiocracia americana vem de longe. Um pequeno exemplo: o desenho animado Corrida Maluca, de 68-70, que vi reprisado durante boa parte de minha infância. Há o carro de um inventor entre os competidores. Dos dez carros que disputam (excluindo o carro do vilão), contando aparições no podium empata em sexto. Se se considerar 3-2-1 (como pontuação para primeiro-segundo-terceiro), empata em penúltimo com outros 2 carros. Qualquer pontuação (considero apenas pontuações que levem em conta apenas o podium) que dê mais vantagem ao primeiro põe o inventor inexoravelmente em penúltimo, à frente apenas dos militares. Esse é o valor que os EUA dão ao Professor.

Falando em Idiocracia, o filme tem passado no telecine e vale a pena ser visto. Ver o filme e ver Fox News logo em seguida é ao mesmo tempo hilário e deprimente.

Há mais um ponto ou dois no argumento do Kristoff aos quais eu talvez retorne. Até lá.

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21 Respostas to “Idiocracia ascendente”

  1. Reflexivo Says:

    Já que você desconsiderou minha sugestão, vou retornar ao mito, cujas explicações são cabais. Cassandra, agora e no passado, não é uma figura qualquer, ela é bem conectada, fala direto com os deuses e não está nem aí para as opiniões alheias. É desse ponto fundamental que decorrer sua falta de credibilidade. O problema com a Cassandra original é sua arrogância irreversível, o seu desejo de estar “fora da manada”. E o mito é tão sensacional que revela até onde vai a arrogância da Cassandra: prometeu dar o negócio dela para Apolo em troca do dom da adivinhação, um dom específico de Apolo. Apolo, o deus que sabe das coisas, que fala por pitonisas submissas, resolveu dar uma chance a Cassandra e lhe concedeu o dom da adivinhação em troca do anelzinho da moça. Pois o que faz a donzela: uma vez feita adivinha nega a concessão de sua virgindade, seja lá de qual orifício fosse. Ou seja, a lista é grande: pretensiosa, filha da elite religiosa, querendo saber mais do que os outros e negando a quem de direito a fonte de seu real conhecimento.

  2. Reflexivo Says:

    O mito, que já era original e brilhante, baseado em uma profunda e sutil observação da vaidade humana e da vaidade dos adivinhos, chega ao plano genial. Apolo, que não deixa barato ofensas nem à sua mãe, não a criva de flechas, nem a transforma em um porco do mato, nem usa sua pele para decorar um santuário. Também não a violenta. Mantém o seu dom – a advinhação -, mas lhe retira o poder de convencer. A cultura grega, sem essa história, já é construção superior: com esse, já não tem mais competidores entre primatas sociais.

  3. Reflexivo Says:

    São dois os problemas com as Cassandras:

    1. seu desejo de ver o futuro, sua capacidade de ver o futuro é fruto de uma vaidade pessoal, o desejo de prever o diferente, sem perceber que o diferente, quase sempre é irrelevante: de que serve prever o fim do mundo se o mundo realmente acabar?

    2 a Cassandra não conseque ver que sua postura elimina sua credibilidade. Como atribui suas previsões ao seu saber pessoal, sem a menor intenção de convencer o interlocutor, sem respeitar os poderes superiores que lhe deram tal capacidade, a Cassandra se torna a figura que é.

  4. Reflexivo Says:

    Em suma: se as Cassandras não conseguem convencer ninguém, a culpa não é de Apolo, é das próprias…

  5. ohermenauta Says:

    En passant:

    “de que serve prever o fim do mundo se o mundo realmente acabar?”

    Observo que isso só é um problema em duas circunstâncias:

    a) se a profecia for self-fullfiling, caso em que há dolo;

    b) se o evento fim do mundo for realmente inevitável, caso em que há mau-gosto.

  6. ohermenauta Says:

    Já o comportamento da mídia comporta outra tese menos benigna. A de que, tendo dado janela para quem errou, ela esteja obrigada à solidariedade, já que errou também _ e neste caso as explicações para o erro, por mais furadas, têm o condão de perdoarem também a mídia.

  7. samurai no outono Says:

    A sua leitura sobre o mito é extremamente interessante, caro Reflexivo, não há que discordar com a beleza do argumento. Pero, há uns problemas:

    – Queira você ou não, Cassandra está certa. Faça o juízo que você fizer, e ali você cai no problema de avaliar pessoas e não discursos e fatos (o que não condiz com a sua condição de não-relativista), ela está certa.
    – O ponto são as anti-cassandras, qual seja, a crença continuada em especialistas que erram sistematicamente. Isso tem um papel na fé, que busca reiterar crenças e não fatos. O mundo da ciência, creio, pretende-se outro.
    – Quanto aos deuses gregos, nem são punidos por seus erros, nem são mortais (ao contrário de Indra e sua turma, por exemplo). E, neste sentido, grande parte dessa mitologia versa sob a absurda, arbitrária e inconfrontável vontade dos deuses. A culpa de Cassandra não convencer ninguém é de Apolo. Guiado pelo seu desejo, ele formulou mal o acordo e usou de seu poder de forma retaliatória. É a ação posterior (e arbitrária) de Apolo, que não estava formulada quando da negociação dos poderes divinatórios, que levava as pessoas a não acreditar em Cassandra.

    Há também o problema recorrente, querido amigo, de você querer atribuir à qualquer pregação catastrófica um conteúdo apocalíptico. Talvez um excesso de Bach, de uma concepção cristã do tempo em que o passado é cheio de pequenas e médias catástrofes, exílios em Babilônia e similares, e o futuro só tem anunciado o fim dos tempos.

    Mas, voltando ao ponto: a minha preocupação aqui é a crescente relegação da ciência no discurso público americano.

  8. Reflexivo Says:

    “Queira você ou não, Cassandra está certa. Faça o juízo que você fizer, e ali você cai no problema de avaliar pessoas e não discursos e fatos (o que não condiz com a sua condição de não-relativista), ela está certa.”

    Veja, Cassandra não era a única a estar certa. Segundo o mito, Heitor tinha a mesma opinião. O problema é que Heitor achava que a queda de Tróia, mesmo inevitável, poderia ser qualificada. Ao contrário da maluquete, que só queria promover o caos e a desordem.

  9. Reflexivo Says:

    “O ponto são as anti-cassandras, qual seja, a crença continuada em especialistas que erram sistematicamente. Isso tem um papel na fé, que busca reiterar crenças e não fatos. O mundo da ciência, creio, pretende-se outro.”

    Nisso você pode até ter um ponto, mas o Alan Brinkley já escreveu que, para um membro da elite, o importante não é errar ou acertar, mas estar no lado certo do combate.

  10. Reflexivo Says:

    “Quanto aos deuses gregos, nem são punidos por seus erros, nem são mortais (ao contrário de Indra e sua turma, por exemplo). E, neste sentido, grande parte dessa mitologia versa sob a absurda, arbitrária e inconfrontável vontade dos deuses.”

    Você conhece o episódio do herói Sarpédon, na Ilíada?

  11. Reflexivo Says:

    “Há também o problema recorrente, querido amigo, de você querer atribuir à qualquer pregação catastrófica um conteúdo apocalíptico.”

    Caro Samurai, não quero discutir sobre o exato significado de palavras gregas, mas tenho a impressão de que nada mais próximo do apocalipse do que uma catástrofe. Estou errado?

  12. Reflexivo Says:

    “Há também o problema recorrente, querido amigo, de você querer atribuir à qualquer pregação catastrófica um conteúdo apocalíptico.”

    Também me preocupo com isso, mas você não acha que já está na hora da ciência repensar sua “inserção” em uma sociedade democrática de massas? Você não acha que um sujeito com cara de mané, falando em jargões improváveis, não fica péssimo na Fox News??

  13. Reflexivo Says:

    “Guiado pelo seu desejo, ele formulou mal o acordo e usou de seu poder de forma retaliatória. É a ação posterior (e arbitrária) de Apolo, que não estava formulada quando da negociação dos poderes divinatórios, que levava as pessoas a não acreditar em Cassandra.”

    Eu não quero comentar suas invectivas contra uma divindade tão poderosa, afinal de contas, o risco é seu: ele dispara flechas infalíveis e causa doenças mortais. Contudo:

    1. se um Deus não puder retaliar impunemente, quem o fará?

    2. um Deus não negocia, impõe. O mortal maluquete é que acha que pode enganar o Deus;

    3. ah se pudéssemos impor esse tipo de castigo às mulheres que prometem e não dão…

  14. ohermenauta Says:

    “Mas, voltando ao ponto: a minha preocupação aqui é a crescente relegação da ciência no discurso público americano.”

    E isso porque você ainda não viu o Data Quality Act…

    http://en.wikipedia.org/wiki/Data_Quality_Act

  15. samurai no outono Says:

    Vamos lá, nobre Reflexivo:

    – Heitor é o herói trágico por excelência. Qual Karna, a ele, honrado, cabe lutar e perecer pelos pecados dos outros, pelo rei cego de amor pelo filho, pelo filho que não controla suas paixões. Heitor sabe que os gregos não podem ser batidos. Mas sabe que, enquanto estiver vivo, os gregos não podem vencer.

    – Zeus nada pode fazer no caso de seu bastardo porque isso abriria uma guerra no Olimpo. Hera perseguiu os filhos de Zeus que pode, veja Héracles, Dionísio etc,e pouco o Tonante pode fazer. Volto a Karna, filho de Surya, morto pelo filho de Indra por meio uma combinação de artimanhas de Indra e de Krishna.

    – Aurélio,
    catástrofe: Do gr. katastrophé, ‘desordem’, ‘ruína’, ‘desenlace dramático’… “Na tragédia clássica, conclusão ou consumação da ação trágica; acontecimento principal, decisivo e culminante da tragédia, no qual a ação se esclarece inteiramente, e se estabelece o equilíbrio moral.”
    apocalipse: Do gr. apokálypsis, ‘revelação’… “Literatura apocalíptica e escatológica”… Acho que há uma diferença entre os destinos de Tebas e os do Universo. E mesmo após o Götterdämmerung o mundo prossegue: os mitos indo-europeus tem uma noção do tempo um pouco diversa dos mitos dos povos do Livro.

    – A ciência não tem que repensar a sua inserção. No barraco entre Myers e Nisbett estou com o Myers. E olha que eu até sou meio relativista cultural, você sabe (e fã de Singer, razão pela qual não vou entrar na polêmico do infanticídio do Hermê pois aí o caos lá se instaura). Mas ciência não é uma atividade democrática nem passível de resolução pelo método do voto da maioria. Se a meta da direita é uma sociedade de louras burras, pobre direita.

    – Os deuses são consequências do mundo que os cria. Numa sociedade em que há escravos arbitrários e cidadãos, os deuses são como são. Numa sociedade de castas, em que as desigualdades são aceitas pela intertemporalidade entre as diferentes vidas, mesmo os deuses perecem. Milhares de Indras num formigueiro. Numa sociedade de rednecks de baixa cultura conversando diretamente com deus não há espaço para os santos em toda sua complexa humanidade.

  16. Reflexivo Says:

    1. Enrolou, enrolou e terminou concordando: os deuses do Olimpo são tão vulneráveis quanto os deuses do Indo. Aliás, são variações sobre o mesmo tema.

    2. O mundo que continua é pouco relevante para a análise do mundo que acabou. Continuo achando que catástrofes são a coisa mais próxima do apocalipse que você pode ver e continuar vendo.

    3. Não acho à toa. Vivemos em uma sociedade democrática de massas. Os juízes prestam deferência ao povo, a ciência também.

  17. Blutocracia « samurai no outono Says:

    […] meses atrás eu escrevi sobre essa aversão enraizada dos EUA ao mundo intelectual, pegando como exemplo o desenho corrida […]

  18. Alba Says:

    “Qualquer pontuação (considero apenas pontuações que levem em conta apenas o podium) que dê mais vantagem ao primeiro põe o inventor inexoravelmente em penúltimo, à frente apenas dos militares. Esse é o valor que os EUA dão ao Professor.”

    Por essa lógica, eles dão ainda menos valor aos militares. E que eu me lembre aquele inventor não era the brightest bulb. Não vejo como um péssimo Professor possa ser mais rápido que um péssimo vilão ou péssimos quaisquer outras coisas.

    • samurainoutono Says:

      Bem, a série coincide com a rejeição ao Vietnam.
      Que eu saiba, tecnologia é a chave para corridas. Aliás, a chave para muitas coisas. Mas celebrar a ignorância é legal. Unifica. Facilita o controle e, melhor ainda, a focalização do descontrole. Infelizmente há um problema para esse tipo de raciocínio: a força pode produzir legitimidade, mas não produz razão.

  19. Alba Says:

    A tecnologia, quando usada de forma competente, é a chave para corridas. Não é o caso, infelizmente. Os personagens são caricatos, as qualidades de suas posições são levadas ao extremo do absurdo: as proverbiais firmeza e disciplina militares se tornam um jeito de continuar cavando quando já se está em um buraco fundo, a astúcia do vilão se volta contra ele, etc. Não estou falando em celebrar a ignorância, estou falando que o personagem era completamente destrambelhado; como também era o vilão, eram os militares e todos os outros. Por que um inventor destrambelhado seria melhor do que homens da caverna destrambelhados ou que militares destrambelhados?

    • samurainoutono Says:

      Ao invés de usar da literalidade para cultuar a ignorância, preste atenção na simbologia. A ciência certamente está errada, pois ela é um processo em movimento. Mas ela é melhor do que outras formas de conhecimento.

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