Archive for abril \24\UTC 2008

Xabi e Xavi, uma história de dois empates

abril 24, 2008

Champions League, semifinais. Dois empates, duas histórias distintas.

Anfield. 4-3-3 contra 4-3-3. Frente a frente, o mestre em ocaso e o brilhante aprendiz das artes do desarme. Makelele, na sua incapacidade de passar a bola, com suas pernas que não correm mais o que deviam. Mesmo assim, dando conta de Torres e Gerrard ao mesmo tempo. Sim, porque Terry estava ausente. Aliás, esse foi um jogo em que deu prá se perceber bem um dos problemas da Inglaterra: os “brilhantes” ingleses são inferiores aos seus parceiros. Ricardo Carvalho é um jogador superior ao raçudo Terry, e Gerrard… bem, Gerrard foi alvo de post específico, mas fato é que Xabi Alonso é um meio campista muito superior a ele. Tendo ao seu lado Mascherano, esta cruza de Gattuso com Makelele, Xabi Alonso reinou com seu senso de colocação e seus passes perfeitos. A sorte, no entanto, foi azul, e um esforçado Riise, no afâ de mostrar serviço e recuperar a vaga do tecnicamente muito mais bem dotado Fábio Aurélio, acabou empatando a partida. IMHO, Rafa errou ao não substituir Fernando Torres, dominado por baixo por Makelele e Carvalho, por Crouch. Ou de jogar Gerrard para a direita e pôr o batalhador Kuyt pelo meio, trazendo Lucas para trancar de vez o meio campo.

Aliás, falando em Lucas, lá pelas tantas veio a tradicional pergunta de um telepatriota da ESPN se Lucas não teria vaga no meio campo do Liverpool. Parecem cegos. Lucas não tem nem terá a categoria de Xabi Alonso ou a intensidade de Mascherano. Eles já eram assim na idade do Lucas, que é um ótimo jogador, deveria ser titular na seleção brasileira já visando 2010-2014, mas que, ali, é e será banco.

Segundo dia, Barcelona e Man Utd. Esqueçamos o penalty, isso acontece, a história teria sido outra etc. Esqueçamos o Manchester, que, de fato, não jogou e conseguiu o resultado desejado: empate. O Barcelona mostrou semelhança com o time que foi um dia, o time que não voltará a ser. Xavi fez sua melhor partida neste ano, pelo menos nas pouca mais que uma dúzia que devo ter visto do Barcelona. A diferença: Deco. O pequeno Xavi é um belíssimo meio campista, um Falcão, mas dependente de alguém que segure atrás e de alguém que lute ao lado. Mais do que Ronaldinho, o futebol de passes curtos e precisos de Xavi foi a marca do time de Rijkard. A chegada temporária de Davids e a definitiva de Deco, permitiram que seu futebol florescesse de forma notável nesses anos. Mas tendo ao lado o igualmente diminuto e quase tão brilhante Iniesta, fica faltando alguém para “tomar conta do loja”.

E aí há o outro problema, o diferencial que imho assinala o fim deste time do Barça. Embora taticamente relapso, Ronaldinho era a possibilidade do time escapar da armadilha que é para um time ficar fascinado com a beleza de seus passes curtos e perfeitos, com a bola bem tocada e as jogadas bem construídas, mas que, ao fim e ao cabo, não levam a mais que um empate contra uma defesa de primeira linha. Ronaldinho e suas enfiadas rápidas, na diagonal, para Eto’o, Giuli ou Messi eram a possibilidade de surpresa. Ronaldinho e suas jogadas geniais, únicas, faziam a diferença entre um time formidável e um time mitológico. Ontem Iniesta estava lá no lugar de Ronaldinho. Ótimo jogador, mas não o bastante.

E Messi? Messi é extraordinariamente hábil com a bola nos pés, finaliza bem, mas concretamente não tem a capacidade de saber passar a bola certa, no momento certo, em qualquer lugar do campo. Messi é um atacante, não um meio campista, não um ponta. Nunca o substituto do 10 que se vai. Aquele Barcelona será enterrado no verão, com as anunciadas partidas de Deco e Ronaldinho. Sem eles, não sei se Xavi e Messi jogarão de forma tão extraordinária como nas temporadas anteriores. Terão que se reinventar.

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Gerrard em miúdos

abril 24, 2008

A very, very skilled and brave headless chicken

Idiocracia ascendente

abril 7, 2008

Conforme prometido anteriormente, retorno ao post do Krugman das anti-cassandras. Muita gente referiu ao post na blogosfera, mas não vou ficar aqui catalogando. Uma das interpretações mais interessante que li está no comentário do Tabarrok do marginal revolution. A pergunta: por que só as pessoas que erraram em relação à guerra do Iraque e a crise atual eram chamadas para falar sobre o assunto? A resposta: porque o público não quer parecer idiota, já que a maioria dele também acreditou na mesma coisa. É a lógica do banqueiro “sensato” de Keynes, citada pelo Krugman no post.

Um segundo post também no NYT, mas do Kristoff, fala especificamente da aversão americana à intelectualidade. O ponto é fascinante, parte do qual bastante conhecido: a capacidade dos americanos de acreditar em coisas absurdas, até mesmo sobre seu seu próprio cotidiano.

Outra parte de ponto do Kristoff se assemelha ao ponto do Tabarrok: as pessoas preferem o conforto da estupidez coletiva, em especial na América, onde tudo se resolve na identidade. Isso tem repercussões, como eleger Bush (não confundir com seu pai ou seu irmão Jeb, o outro Bush que poderia ter sido um presidente razoável – não é gratuita a comparação dos irmãos nesse esquete genial do SNL, do qual infelizmente não consegui as imagens), por exemplo. Não, não que Dubya tenha uma formação limitada, ou pouca cultura, por alguma decorrência das dificuldades de sua vida. O homem fez Harvard, raios! A ignorância ali é uma escolha recorrente.

Mas ao contrário do Kristoff, acho que a idiocracia americana vem de longe. Um pequeno exemplo: o desenho animado Corrida Maluca, de 68-70, que vi reprisado durante boa parte de minha infância. Há o carro de um inventor entre os competidores. Dos dez carros que disputam (excluindo o carro do vilão), contando aparições no podium empata em sexto. Se se considerar 3-2-1 (como pontuação para primeiro-segundo-terceiro), empata em penúltimo com outros 2 carros. Qualquer pontuação (considero apenas pontuações que levem em conta apenas o podium) que dê mais vantagem ao primeiro põe o inventor inexoravelmente em penúltimo, à frente apenas dos militares. Esse é o valor que os EUA dão ao Professor.

Falando em Idiocracia, o filme tem passado no telecine e vale a pena ser visto. Ver o filme e ver Fox News logo em seguida é ao mesmo tempo hilário e deprimente.

Há mais um ponto ou dois no argumento do Kristoff aos quais eu talvez retorne. Até lá.

O finalizador – Pippo Inzaghi

abril 7, 2008

Vi poucos atacantes com a fome (e a capacidade) de marcar gols de Pippo Inzaghi. Atacantes que, uma vez com a bola, são incapazes de fazer outra coisa que não partir para gol. Por vezes egoistas, por vezes incapazes de dar a devida continuidade às jogadas. Mas fatais.

Este segundo gol contra o Cagliari é um exemplo disso. Reparem como ele só tem olhos para a bola, e só um foco, o gol:


 

No free lunch

abril 4, 2008

Num momento em que o mercado se redescobre todo keynesiano, clamando pela intervenção restauradora do governo, relembro que Friedman dizia que “não há almoço grátis“. Neste outro link, há um gráfico que mostra a evolução da poupança das famílias americanas. Acho que é bastante óbvio que não há como se sustentar os níveis de consumo verificados nos últimos anos, muito menos qualquer perspectiva de crescimento. O que tem impacto sobre o valor das empresas… yada yada yada… danou-se!

Chiboquetes

abril 3, 2008

My mate hermê cita hoje lá no seu blog um artigo do Krugman falando das Cassandras. Transmimento de pensação, diria, pois ontem rabiscava em alguns intervalos de meu dia umas discussões a respeito desse post das anti-cassandras. Até o final da semana farei uns dois ou três ângulos sobre esse artigo, mas da interação desses dois Krugmans vai um primeiro post.

A pergunta é: por que há Cassandras, pessoas que acertam mas não são levadas em consideração pela MSM (grande imprensa em língua de gringo)? O primeiro argumento que farei é que os jornais e as TVs não estão interessados em avançar o conhecimento sobre as coisas ou certificar se o que é dito faz sentido ou não. O que eles buscam é trazer e reforçar a Palavra. Qual seja, não se trata do que é dito, mas que o que é dito é, em geral, um chiboquete.

Pegue uma situação qualquer: privatização, previdência, pobreza, Chávez. Você não precisa ler para saber o que estará escrito no texto. (não linkarei aqui porque não quero fazer certas sacanagens. Ainda)

– o homem de Valor, aquele que vocaliza a Palavra tal como pr(o/e)ferida na FEBRABAN e na Economist pronunciará: chi boquete! (“que boquete!”, as in “chi-square”). Escreve para quem quando lê “sugar”, pensa: “Não. Adoçante”.
 
– já a Cassandra, o fracassomaníaco, na sua necessidade desagradável de questionar a Verdade e o Mercado, debochará: chi boquete! (“xii, boquete!”, como em “chibata”). Escreve para quem quando lê “sugar” pensa em metáforas galeânicas.

Quem melhor desmascara isso lá fora é o Dean Baker. Um belo blog, imvho nada por aqui se compara. Vez por outra cairei de pau sobre chiboquetes sendo pagos por aí.

O Terceira Segredo de Fátima

abril 2, 2008

Há quem pense que se tratava de alguma bobagem referente a papas e perseguições. Ledo engano. Ontem se viu o bispo de branco voando pela mão dos anjos. Hoje a igreja pode revelar que Roma mais uma vez caiu sob a graça daquele que carrega em seu nome uma homenagem ao senhor (e uma homenagem a Reagan – ninguém é perfeito). Pois se no sábado ele deslumbrou a premiership com o gol de calcanhar de letra, um feito muito, muito raro, ontem ele fez uma enterrada de basquete de cabeça. Sim, porque aquele salto foi de uma enterrada, uma cabeçada rara em sua perfeição.
Apenas nas sinistras lendas sobre Cruyff fala-se sobre a existência de um jogador como esse. Penitenciai, penitenciai, penitenciai…