Hegemonia

Direitista de origem, meu amigo Hermê dedica-se a porrar quem está à sua direita. Já eu, por razão inversa, bato à esquerda (se é que a “Direita” é esquerda, mas isso é veneno para outra ocasião).

Peguemos essa recente manifestação do professor Fiori, “Crises e Hecatombes”. Um leitor desatento poderá achar que o autor (cujo nome está escrito de forma errada no artigo) do seminal Manias, pânico e crashes: um histórico das crises financeiras é de alguma forma o responsável pela noção de hegemonia nos termos descritos por Wallerstein e Arrighi (injustamente “acusado” de norte-americano no texto). Grave, gravíssimo engano. A fonte desses autores é Fernand Braudel, tanto no Mundo Mediterrâneo quanto no Civilização Material, Economia e Capitalismo.

Em que diferem os dois conceitos? Kindleberger se insere num conceito de hegemonia em que a potência hegemônica é quem é, por assim dizer, o fiador de última instância da ordem no sistema anárquico (sem governo e instituições jurídicas) que é o sistema internacional. Dentro de uma concepção hobbesiana do indivíduo-estado, a potência hegemônica age como “enquadrador”, assumindo este white man’s burden de impedir que o conflito (e não a cooperação) seja a base da ordem. Cabe à potência hegemônica entrar com o camelo para que as contas se façam certas. Cultua-se Tucídides como divindade-fundadora deste campo, e a Guerra Fria como reencenação da história sagrada Essa é uma noção em que política internacional e economia interagem.

Braudel, Wallerstein e Arrighi têm outra raiz, Marx. O que está em jogo é a percepção de que a história tem ciclos e que estes estão além do voluntarismo das pessoas. É uma noção de história muito desagradável para partidos comunistas pois, no fundo, nega a sua ação. Nessa concepção de hegemonia, há uma “cidade” em que uma economia-mundo se centra, um local onde a banca opera. Essa é uma noção em que cultura e economia-política interagem.

Há pontes entre as duas noções? Sim, especialmente pela abertura a incorporação de  material não dogmático pelos marxistas que não apostaram o couro em Moscou, se é que entendem a piada, mais dirigida a Hobsbaum que ao próprio Fiori. Mas para quem acredita que o imperialismo ainda existe e é um mal a ser enfrentado, a idéia de uma hegemonia que presta um serviço e que esta sendo desmantelada pelas simples forças da história, e não pela mão do “Partido”, é muito desagradável.

Mas vamos brevemente às perguntas do Fiori:

“i) como foi que a crise dos anos 70 acabou restaurando a hegemonia e fortalecendo o poder americano;” – Elementar, 70 foi uma crise sinalizadora dentro do modelo do Arrighi, em que o processo sai do formato mercantil para o financeiro.

“ii)  porque esta nova crise de 2007~2008, não poderá ter um desdobramento semelhante, no longo prazo” – Elementar, porque o ponto central da crise dos 70 foi a autonomização de fato dos processos financeiros pela criação do mercado do eurodólar, para além do arranjo de Bretton Woods. A crise atual decorre da falência do modelo teórico no qual o mercado se baseou; e na insolvência dos EUA, não só como governo, mas como nação.

“iii) e por fim, mesmo que a crise adquirisse natureza catastrófica, quem substituiria os Estados Unidos, e como funcionaria o novo sistema monetário e financeiro internacional, depois da morte do dólar?” – Elementar. Se esta pergunta já tivesse resposta, a luta de Fiori seria outra. Ou seria o luto?

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5 Respostas to “Hegemonia”

  1. ohermenauta Says:

    Este texto poderia chamar-se igualmente “Do amor ao inimigo”, pois não?

    No entanto, no fim das contas, e talvez não pelos mesmos motivos, eu tenho a impressão que a razão assiste a Fiori, e que esta crise passará. Só que seu paradigma não é 1970, mas 1930, e assistiremos forçosamente a um ciclo de re-regulação. Se não em 2009, certamente em 2013, a um custo necessariamente muito maior.

  2. samurai no outono Says:

    Hermê, uma crise como 30 é uma crise em que troca a moeda, troca o hegemon, trocam as estruturas simbólicas do capitalismo. O capitalismo não acaba, mas muda, por vezes de forma bastante significativa. Se 30, portanto, Wall Street deixará de ser a capital do mundo. Essa é a questão: para Fiori, os EUA são tão “eternos” em seu poder como se julgava a URSS no raiar dos 80.

  3. The Gisele Way « samurai no outono Says:

    […] Gisele Way Da série porque eu acho que ao final desta crise o dólar terá sido sucedido como moeda de referência e reserva de valor […]

  4. Reflexivo Says:

    Wallerstein… Nesse ritmo, veremos Kautsky citado. Talvez Plekhanov.

  5. ohermenauta Says:

    Nhá.

    Cê tá usando cronologia criativa aí, meu. Lembre do Bloco da Libra.

    Se você me disser que precisamos de uma nova Segunda Guerra, porém, eu truco junto contigo.

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