Archive for março \28\UTC 2008

Mourinho e a dança das cadeiras

março 28, 2008

Cá pra mim, de fato existem pouco mais de 10 clubes que contam no mundo, topos da cadeia alimentar. 10,5 para ser preciso: 9 clubes de fato e três meios-clubes. Os quatro ingleses, a dupla espanhola, os de Milão, a Velha Senhora, esses são os clubes, de fato. Bayern, Lyon e Roma por vezes até parecem um deles. Mas não são. Nem conto o vai e vem dos espanhóis: Valência, Deportivo, Sevilha… sempre um deles aparece. Mas só parece.

Momento raro, tudo indica que só Wenger e Ferguson estão absolutos no cargo. E o ponto de partida de qualquer discussão é: para onde vai Mourinho?

Até uma semana atrás, havia um certo consenso de que ele ia para o Barcelona. Depois da “catastre” de sábado, a Inter assumiu o “favoritismo”. Mourinho é um pacote que envolve uma formidável e bem azeitada equipe técnica (Rui Farias, Baltemar Brito, etc) e, ao que parece, Lampard e Drogba, que o seguiriam até o Inferno ou Beja (onde for mais quente). Tanto o Madrid quanto o Milan aparecem vez por outra como destinação. Pouco provável: Mourinho quer controle total, e Madrid é o lugar menos provável de conseguir isso. E o Milan? Bem, o Milan é complicado, com sua estrutura absolutamente sólida e profissional.

Mourinho na Inter, quem irá para o Barcelona? Afinal, se o Rijkaard cair ou sair, o que é bastante provável, alguém irá para lá. Se o Liverpool sofrer algum sério acidente (eliminação na próxima fase, ficar de fora da próxima Champions), Rafa Benitez é um nome possível. Felipão andou sendo falado faz muito tempo. É um nome que não deveria ser descartado, embora eu acredite numa redução do contingente brasileiro do Barça. Van Basten? Esse acho que está mais para o Milan no caso de Rijkaard acabar no Chelsea.

Mas até aí estamos no óbvio. Vamos às improbabilidades. Se o Madrid sofrer a infâmia de uma derrota no Barnabeu para o Barcelona, e/ou vier a perder La Liga, medidas radicais terão que ser tomadas pelo Madri. Por exemplo: pagar um preço absurdo por Kaká. Não há base nenhuma no momento para isso, mas se tiver que cravar uma aposta, vejo Ancelotti como o próximo técnico do Madrid. Eles necessitam de alguém com currículo, e em termos de Champions – que é o real objetivo do Real – ninguém se compara ao Ancelotti.

Se Felipão faturar a Euro, o que é improvável mas não impossível (Portugal não tem centro-avante, Ronaldo estará esgotado até lá, mas Nani pode ser o Garrincha do evento), não estranharia se Felipão fosse parar no Chelsea ou no Liverpool. Por que o Liverpool? Porque Felipão tem um status divino para os ingleses: o homem que eliminou três vezes a Inglaterra. O homem que deveria ter levado os ingleses ao triunfo na Euro… se é que isso fosse possível, no lo creo. Tirando o próprio Mourinho, Felipão seria a única forma do Kop não iniciar uma revolta de grandes e calamitosas proporções para os donos do Liverpool (o cara da Hicks Muse).

(Fosse eu o Felipão armaria para ser técnico da seleção espanhola. Qualquer cara com dois tostões de tática sem pertencer a nenhuma nacionalidade é capaz de levar o elenco que a Espanha dispõe hoje a semi-final de 2010. Mas isso é outra história.)

 Mas e se Mourinho não for para a Inter, quem vai? Palpite demente? Sven.

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The Gisele Way

março 28, 2008

Da série porque eu acho que ao final desta crise o dólar terá sido sucedido como moeda de referência e reserva de valor (e que portanto, esta é a crise terminal do Longo Século XX), é interessante ver empresários chineses tomando a mesma decisão que a magnífica Gisele tomou ano passado.

Vem aí o artigo 17

março 28, 2008

É possível que algum de vocês já tenha ouvido no artigo 17 das regulamentações da FIFA referentes ao processo de transferência de jogadores. Possível, mas pouco provável que conheça os detalhes. Mas pelo andar da carruagem, as manchetes imediatas à pós temporada não versarão sobre a Eurocopa, mas sobre este loophole dos agentes esportivos, uma força maior que os clubes na organização FIFA. Explicando numa frase, em certas situações, jogadores com mais de 28 anos podem sair do clube pagando apenas o restante do salário como passe. Isso quer dizer que Ronaldinho, Lampard e Mancini, para tratar citar apenas 3 dos nomes mais comentados do momento, estarão saindo a preço de banana (para jogadores desse quilate).

Lá no Regulations on the Status and Transfer of Players, página 5 está que:

Protected period: a period of three entire seasons or three years whichever comes first, following the entry into force of a contract, where such contract is concluded prior to the 28th birthday professional, or two entire seasons or two years, whichever first, following the entry into force of a contract, where such contract is concluded after the 28th birthday of the professional. 

E mais adiante, na página14, artigo 17, a janela:

Unilateral breach without just cause or sporting just cause after the protected period shall not result in sporting sanctions. Disciplinary measures may, however, be imposed outside the protected period for failure to give notice of termination within 15 days of the last official match of the season (including national cups) of the club with which the player is registered. The protected period starts again when, while renewing the contract, the duration of the previous contract is extended.

Isso já foi usado? Sim Matuzalém foi para o Zaragoza e o de Sanctis para o Sevilha através desse mecanismo. Mas dessa vez, parece que supercraques entrarão na história.

Ao contrário de uma Bosman, no entanto, essa janela tem um período bastante limitado: 15 dias após o final da temporada, o que provavelmente quer dizer que jogadores envolvidos na final da Champions League poderão estar nesse processo de hostile takeover.  Mas são só esses 15 dias: Heinze tentou usar o mecanismo fora do prazo para ir para o Liverpool e não conseguiu.

Se a Bosman permitiu que os clubes europeus enriquecessem seus elencos com jogadores de outros países, dando uma qualidade inédita aos campeonatos europeus, essa decisão transfere poder do clube para os jogadores, fazendo com que, concretamente, os jogadores experientes possam escolher aonde vão jogar. E que possam, para felicidade de seus agentes, receber o máximo que puderem.

Esperemos, pois, o movimento de Maio de 2008.

Hegemonia

março 27, 2008

Direitista de origem, meu amigo Hermê dedica-se a porrar quem está à sua direita. Já eu, por razão inversa, bato à esquerda (se é que a “Direita” é esquerda, mas isso é veneno para outra ocasião).

Peguemos essa recente manifestação do professor Fiori, “Crises e Hecatombes”. Um leitor desatento poderá achar que o autor (cujo nome está escrito de forma errada no artigo) do seminal Manias, pânico e crashes: um histórico das crises financeiras é de alguma forma o responsável pela noção de hegemonia nos termos descritos por Wallerstein e Arrighi (injustamente “acusado” de norte-americano no texto). Grave, gravíssimo engano. A fonte desses autores é Fernand Braudel, tanto no Mundo Mediterrâneo quanto no Civilização Material, Economia e Capitalismo.

Em que diferem os dois conceitos? Kindleberger se insere num conceito de hegemonia em que a potência hegemônica é quem é, por assim dizer, o fiador de última instância da ordem no sistema anárquico (sem governo e instituições jurídicas) que é o sistema internacional. Dentro de uma concepção hobbesiana do indivíduo-estado, a potência hegemônica age como “enquadrador”, assumindo este white man’s burden de impedir que o conflito (e não a cooperação) seja a base da ordem. Cabe à potência hegemônica entrar com o camelo para que as contas se façam certas. Cultua-se Tucídides como divindade-fundadora deste campo, e a Guerra Fria como reencenação da história sagrada Essa é uma noção em que política internacional e economia interagem.

Braudel, Wallerstein e Arrighi têm outra raiz, Marx. O que está em jogo é a percepção de que a história tem ciclos e que estes estão além do voluntarismo das pessoas. É uma noção de história muito desagradável para partidos comunistas pois, no fundo, nega a sua ação. Nessa concepção de hegemonia, há uma “cidade” em que uma economia-mundo se centra, um local onde a banca opera. Essa é uma noção em que cultura e economia-política interagem.

Há pontes entre as duas noções? Sim, especialmente pela abertura a incorporação de  material não dogmático pelos marxistas que não apostaram o couro em Moscou, se é que entendem a piada, mais dirigida a Hobsbaum que ao próprio Fiori. Mas para quem acredita que o imperialismo ainda existe e é um mal a ser enfrentado, a idéia de uma hegemonia que presta um serviço e que esta sendo desmantelada pelas simples forças da história, e não pela mão do “Partido”, é muito desagradável.

Mas vamos brevemente às perguntas do Fiori:

“i) como foi que a crise dos anos 70 acabou restaurando a hegemonia e fortalecendo o poder americano;” – Elementar, 70 foi uma crise sinalizadora dentro do modelo do Arrighi, em que o processo sai do formato mercantil para o financeiro.

“ii)  porque esta nova crise de 2007~2008, não poderá ter um desdobramento semelhante, no longo prazo” – Elementar, porque o ponto central da crise dos 70 foi a autonomização de fato dos processos financeiros pela criação do mercado do eurodólar, para além do arranjo de Bretton Woods. A crise atual decorre da falência do modelo teórico no qual o mercado se baseou; e na insolvência dos EUA, não só como governo, mas como nação.

“iii) e por fim, mesmo que a crise adquirisse natureza catastrófica, quem substituiria os Estados Unidos, e como funcionaria o novo sistema monetário e financeiro internacional, depois da morte do dólar?” – Elementar. Se esta pergunta já tivesse resposta, a luta de Fiori seria outra. Ou seria o luto?

Um Resumo dos Milagres de Páscoa

março 24, 2008

Este foi talvez o mais intenso fim de semana da temporada. Os top 4 ingleses se confrontaram. Madrid e Valencia, Inter e Juve, clássicos nacionais, abriram a possibilidade do imponderável para suas respectivas ligas. E o Botafogo goleou o Macaé, cenas de football manager. Muita coisa, serei sintético.

Faltando 8 rodadas, a diferença entre Inter e Roma está reduzida agora a 4 pontos (5, se contar que a Inter ganha o confronto direto). É o bastante, mas trata-se da Inter. Pela frente, nas próximas 3 rodadas, pegam Lazio e Atalanta fora e Fiorentina em casa. Udinese fora é a principal dificuldade da Roma nesse horizonte. Condições propícias para uma aproximação, portanto. A Inter pega o Milan na antepenúltima rodada, no San Siro; a Roma, a Sampdoria, fora. Tirando acidentes, esses são os jogos críticos.

Mas ao derby da Itália. Júlio César e Buffon claramente estão entre os cinco melhores goleiros do mundo. Del Piero esteve muito bem, muito embora a fissura de fazer um gol na partida em que ele atingia o recorde de partidas jogadas pela Juventus tenha impedido um escore mais avantajado. Maxwell deveria ser convocado por Dunga.

Na Espanha, o Madrid se esforça para devolver o presente do Barça da temporada passada. Faltam 9 rodadas, a diferença reduziu-se a 4 pontos. O Madrid jogou um pouco melhor que o Valencia mas sem organização e foco. A ausência de pontas naturais faz do Real Madrid um time embolado, previsível. O contrário do ascendente Atlético, que bateu o Sevilha fora, no sábado: Sabrosa e Maxi Rodrigues estão em grande forma, e Aguero… bem, Aguero é possivelmente o mais brilhante jogador argentino no momento. Acho que o melhor jogador de La Liga nesta temporada.

Na Inglaterra reinaram os juízes. O United cumpriu o seu papel. O juiz expulsou um celerado Mascherano, a meu ver excessivamente. Fosse eu o juiz do clássico, teria chamado o Gerrard num canto e pedido a ele para enquadrar Javier. Talvez o Mascherano tenha arrumado uma expulsão absurda só pra livrar a cara do Benitez numa derrota inevitável.

Taticamente, foi uma partida diferente do usual do United, 4-3-3 e não 4-2-4. Rooney como o atacante que não estava lá, permanentemente deslocado, imarcável, foi seu o “motorrádio”. Cristiano Ronaldo pegou pela frente um aplicado Fábio Aurélio (outro que merece convocação), além do Gerrard. Mais um gol, mas não muito mais. Nani entrou de forma devastadora. Anderson esteve bem, embora com uma ou outra jogada imatura. Se Dunga adotasse a forma de jogar do Milan na Olimpíada, com Anderson no papel de Pirlo, ladeado por Lucas (Gattuso) e Arouca (Ambrosini), Kaká no papel de Kaká, Pato no papel de Pato, e Júlio Baptista no papel que possivelmente irá desempenhar de sidekick de Kaká no 4-3-2-1 do Milan (supondo a permanência do Ancelotti), uma medalha de ouro estaria dentro das probabilidades.

Em Chelsea e Arsenal, só o bandeirinha não viu que Drogba estava impedido no início da jogada do gol de empate. Jogo muito bem disputado, o 1 x 1 teria sido o mais justo. Difícil alguém pegar o Manchester no inglês.

Tomates Transgênicos

março 21, 2008

Sábado. 34 anos de uma amiga. Festa num troço (boate? bar? centro – cadê minha luger – cultural?) em Santa Teresa. Subo de carona com meu compadre CGA. Os amigos da aniversariante: majoritariamente moças no entorno dos 30, desacompanhadas. Abro a pista de dança, acho que era Foo Fighters. Depois, “shinny happy people” e mais pessoas vão se juntando. Mas fica aí o som, concentrando em 1993 e adjacências: Snap! com o hino dos “leopardos”, a mesma de sempre do primeiro disco do US3 , “space cowboy”, até “pandora’s box” do OMD. E “thriller”, OMG, que me recusei a dançar para não coonestar com o crime. Nada não óbvio, nada que não tivesse ouvido em algum Cozumel ou casamento. Bem, tocaram “a little respect” (que para minha surpresa, outras pessoas na pista conheciam a letra) e “crazy”, ao menos isso.

Lá pelas tantas, na pista, quatro clássicos babacas. Quatro clichês sarados, no meio da pista parados, copos de cerveja à mão, manjando as moças. Nitidamente incapazes de dançar, pedras na browniana pista, atrapalhando. Esta é uma das razões porque sempre preferi lugares esquisitos: não há babacas na pista. Como sempre, ouve-se algum comentário: “é isso aí Pauleta” (minha camisa, a 9 da selecção).

Lá pelas tantas, uma das meninas começa a dar mole para um dos clichês, já então fora da pista (eles não resistem muito tempo). Alerto a irmã caçula da aniversariante: “Avisa a sua amiga que isso são tomates transgênicos. Vistosos, robustos, mas sem gosto.” Belinha caiu na gargalhada.

Não sei o desfecho. Partimos, eu e CGA, cada um para sua casa, acompanhar a vitória de Hamilton.

Homem que dançava com a parede do Cubatão, que escuta house tem 22 anos, sempre fugi de lugares de playboys. Não me lembro de ter saído alguma vez para azarar em lugares de dança. A pista, para mim, é sagrada, celebração. Só algum aniversário ou obrigação social para me levar a um lugar desses.

OBS: além dos babacas de praxe, dos CDs teenagers (isto é, com entre 13 e 19 anos de idade) e das faixas óbvias, o tal Casarão Herme (não, não é uma sacanagem com o Hermenauta tem a mais absurda batata frita que já vi: R$ 14 e quebrados, metade da consumação mínima de R$ 29. Dois dos copos plásticos que recebi estavam com pequenos furos que faziam eles pingar embaixo. A pizza, para consumo individual, estava razoável. A paisagem muito interessante: aquele misto de Rio e São Paulo que é Santa Tereza, em que você vê por baixo prédios e ao longe mar.