em Budapeste, para começar

janeiro 3, 2012

Anos atrás aprendi com meu amigo José que quando alguém queria fazer uma bandalha – tramar uma revolução, trair a esposa, aparecer de forma canastrona num medíocre Kubrick – no século XIX, Budapeste era o lugar para onde se dirigir para realizar a empreitada. Agora a bandalha é em casa: um “ato institucional” foi aprovado pelo legislativo.

A Europa conhece seu Fujimori, o Fidesz. Resta saber se terão a pusilaminidade que tiveram os Clintons e FhCs de plantão da América dos 90.

As meninas da escola saudita na véspera de Trinta

novembro 29, 2011

A virtude e o vício, amigos. Nada mais nobre a se lutar do que pela virtude e contra o vício. Bem, talvez salvar o mundo seja mais relevante. Mas se há uma nobre missão a ser desempenhada, há uma fellowship – ou, para ser mais contemporâneo, um comitê – a assumi-la. E se houve momentos não muito distantes em que heróis salvaram, com notáveis raras exceções®, o mundo, há aqueles que lutam para trazer ordem e perfeição em meio a esta crise. Veja-se o esforço dos alemães e do Banco que zela pela estabilidade do euro. (Não, não usemos cá o termo Banco Central. Este se aplica a instituições com ambigüidades, que visam adicionalmente coisas como manter o nível de emprego e os juros em taxas razoáveis. Lembremo-nos que a dissolução moral começa no bunga bunga e termina na volatilidade conforme as circunstâncias.)

Pois este conjunto de instituições – UE, BCE, FMI – que conseguiu depor o viciado em sexo talhado em Milão que há anos constrangia as pessoas de bem e a Economist como ocupante do governo da Itália, e obter a renúncia de um oligarca de “esquerda” encastelado na Grécia, pondo em ambos os postos flexians com o menor compromisso possível com as perversões corruptas do mundo político local; que conseguiram reendireitar os parlamentos ibéricos, de forma que num corte inglês venham a adquirir as virtudes d’austeridade. Que nome, pois, atribuir a tal conjunto de pessoas para quem cut não se aplica aos detalhes, mas pleno verbo à prática de cortar a própria carne dos orçamentos públicos e das obrigações assumidas de longa data para com os cidadãos, que nome que não Comitê pela propagação da virtude e prevenção do vício?

Há uma história das meninas na escola saudita, de uma década atrás. Os países da Europa são hoje as meninas na escola saudita. Uma série de ficções de ordem moral os fará arder em nome da virtude, zarzuelas de Bayreuth ao fundo diria José. Não vou entrar aqui na discussão técnica dos problemas e das soluções: seria redundante com o muito que se discute no momento, tanta coisa que nem sei por onde começar e fazer justiça a todos. E é inútil. Tal como vejo, mantida a atual institucionalidade européia, não há salvação.

É chegado o momento da Europa derrubar sua República Velha. É chegado o momento de se romper a estrutura federativa tênue, feita para beneficiar o principal Estado, seja em termos populacionais, seja em termos de poderio econômico e exportações, e investir numa estrutura unificada em que as soluções atendam à maioria e não ao maior. É chegada a hora de se derrubar do pedestal São Paulo… perdão, a Alemanha, e se fazer a União vir antes dos Estados.

A Roman among greek (colonels)

novembro 7, 2011

post do Idelber sobre a decisão de Allende está magnífico

Ouvido no Ônibus

novembro 4, 2011

Preparando para sair, ainda sentado.

Dois banco à frente, do outro lado, um típico idiota de nossas ditas classe médias (os 10%), reclama com o trocador: “Nós temos a gasolina mais cara do mundo”.

Não. Nós temos é a moeda mais cara do mundo. A gasolina está barata, como prova o constante engarrafamento. E mais do que ela, está barato o dólar, que permite essas contas idiotas.

Hasbara Carlos

setembro 13, 2011

Ano que vem, Roberto Carlos, usando da mais avançada da mais avançadas das tecnologias, realizará um show diretamente de Sun City para passar em celebração a seus 48 anos. Assim como este ano, dia antes da barragem de imprensa da celebração de uma década do 11 de setembro, véspera.

Novidade no repertório uma melodia roliudianamente apropriada. A Caravana Rolideus aplaude. Aos cristãos locais que entendem a letra deve servir como lembrete de que Deus reconhecerá os seus.

Já cá, terra onde se consome o PIG, os espectadores tinham mais o que fazer.

Há o mesmo tempo o mesmo tem (portulanos 4)

agosto 30, 2011

Buffy: Just tell me what kind of demon I’m fighting.
Travers: Well, that’s the thing, you see. Glory isn’t a demon.
Buffy: What is she?
Travers: She’s a god.
(checkpoint)

 
Indo direto ao ponto para que a ausência de surpresa torne mais surpreendente a trama: o que se tem hoje são crises do capitalismo enquanto ancien régime, que se descobrirá outra coisa em algum momento. Só que após este não vem o mundo maravilhoso em que o proletariado caminha para a restauração do comunismo perdido lá atrás (no advento da agricultura/estado?), nem a continuidade do capitalismo sob outra forma, mas por uma nova contradição de classes entre criadores e agentes. Se lá atrás guildas eram o futuro conflito de classes ainda sem uma especiação clara, podemos dizer hoje o mesmo de venture capital?

Comecemos, pois, nossa história.

Naquele tempo, “Japan, with its purely feudal organization of landed property and its developed petite culture, gives a much truer picture of the European middle ages than all our history books, dictated as these are, for the most part, by bourgeois prejudices. It is very convenient to be “liberal” at the expense of the middle ages.” (K 1, 27)

Sigamos, pois, o ensinamento. No Livro dos Cinco Elementos (ou dos Cinco Anéis, conforme a tradução que preferir), Musashi descreve quatro caminhos: o agricultor, o comerciante, o guerreiro e o carpinteiro. Do comerciante ele fala:

Second is the Way of the merchant. The Sake brewer obtains his ingredients and puts them to use, making his living from the profit he gains according to the quality of the product. Whatever the business, the merchant exists only by taking profit.

Deliciosa descrição de D-M-D’, não acha?

Falta alguém nessa sociedade de Musashi? Quem? Quem não é camponês, burguês, profissional liberal ou operário? Estão nessa Galápagos medieval todos os personagens contemporâneos?

Faltam na pintura os monges. O trabalho dos que escrevem, dos que oram. Sintomático Musashi não ver isso como um caminho. Talvez porque esse seja um caminho no qual coisas concretas – objetos definíveis, trocáveis – não são produzidas. Pois a língua, a continuidade intergeneracional da cultura escrita, o equilíbrio cósmico produzido pela existência do mosteiro, tudo isso é bem non-rival, quase non-excludable. Tudo isso é tão trivial.

O momento de triunfo do capitalismo, em que ele virou o discurso hegemônico, o claro princípio do mercado como organizador do mundo (da mercadoria ao invés da hierarquia como definição das relações humanas como mostra Dumont), foi exatamente o momento em que sua superação começou a se fazer presente, nítida. A revolução industrial pôs a questão do conhecimento/inovação na proa, carranca a simbolizar o barco. No entanto, esse novo é coisa a ser produzida, coisa que requer trabalho, que requer crescentemente mais trabalho, que requer um trabalho diferente, diferenciado, tempo não mais contido no trabalhador da fábrica, mas na máquina, no produto enquanto conceito, um trabalho que não vira produto em si, mas potencial de produto. Um trabalho que ao final resulta em puro capital: o trabalho contido num fonograma, numa prova matemática, num conceito. Infinitos podem usá-lo sem que seja necessário fazer virtualmente nada para recompor o produto/capital novo que passou a existir. E puro, indesgastável capital que se reproduz sem custo-trabalho não gera valor. Esse trabalho está além do princípio do valor-trabalho na sua possibilidade de realização no mercado.
Atente a isso, amigo. No próximo episódio desse continente voltaremos a Buffy.

O amor é azulzinho ou aqui se faz, aqui se paga (éditions UEFA)

agosto 25, 2011

Quem costuma freqüentar esta irregular birosca ciberespacial sabe que se há uma instituição cuja lisura eu não confio é na UEFA de Platini. E é aquela coisa: ela nunca falha.

Para começar, o que há de novo no cenário futebolístico deste ano? Contratações? Não muito. O Madrid não contratou nenhum galático. O Barça repatriou Cesc e pegou um chileno da Udinese, bom futebol, mas nada tanto assim. Os italianos seguem na miséria, o Chelsea canibaliza seus rivais imediatos ingleses (Torres e o prolongado assédio a Modric), Ferguson aderiu à “pedagogia” de Wenger, que por sua vez não sabe para onde vai…

Há, no entanto, um trio de novidades em relação aos anos recentes. Três times reaparecem. Um, o campeão alemão, um Dortmund que perdeu seu principal criador para o Madrid (Sahin) mas que se mantém razoavelmente intacto. Outro, o Napoli. Terceiro no italiano, nenhuma das três cobiçáveis peças ofensivas do Napoli saiu: Cavani, Hamsik e Lavezzi. E a terceira, o Manchester City, um time com recursos e jogadores para disputar tanto a premier league quanto a champions.

Como o City andou disputando Liga Euro, terceiro pote. Como Napoli e Dortmund andaram sumidos, quarto pote.

Não sei se vocês sabem, mas há uma guerra em curso pelo controle do futebol mundial. De um lado os grandes clubes, do outro a FIFA e as federações. Rummenigge, diretor do Bayern, é o porta-voz dos clubes. Rummenigge já sinalizou que em 14, pós-copa do mundo, os grandes clubes podem dar adeus à UEFA e sua Champions League e fazer o campeonato que realmente interessa aos espectadores globais e seus patrocinadores. Um campeonato em que o APOEL e o BATE Borisov não tem vez no horário nobre de terças e quartas, mas na qual o risco da Juventus estar excluída seja muito, muito baixo.

Vamos ao sorteio. Do pote 3 o Bayern recebeu o City. Do pote 4, sem poder receber o Dortmund, o Bayern recebeu o Napoli. Juntando à lista o resistente Villareal, este é um grupo dificílimo. As quatro principais nações estão representadas, coisa nunca aconteceu na fase de grupos neste século. Com seu time de craques frágeis (Robben e Ribery), o Bayern provavelmente terá que abrir mão de disputar o título da Bundesliga para poder se manter na Champions League. O amor é azulzinho, com o submarino amarelo enfiado pelo meio.

No mais, Barcelona recebeu um grupo com desiguais e belos jogos a serem feitos, muitas jogadas bonitas contra times absolutamente medíocres, e um par de partidas épicas contra um Milan onde está seu enjeitado Ibra. O Madrid enfrenta o Lyon pela enésima vez, com um restante de grupo com história e pouco mais (Ajax e Zagreb). United e Benfica reeditam seu clássico, acompanhados por um time romeno que foi campeão nacional pela primeira vez na última temporada e pelo Basiléia, qual seja, um par de clássicos e quatro partidas ridículas para o Manchester mostrar um lindo futebol.

Arsenal, Marseille, Dortmund e Olympiakos fazem um grupo duro, assim como Inter, Lille e CSKA. Chelsea, Valencia e Neverkusen, e Porto, Shakthar e Zenit fazem grupos enjoados, em que Chelsea e Porto terão que se esforçar para chegar em primeiro e tomar cuidado para não serem rebaixados à Liga Euro.

Caçando ursos, ou hedge enquanto sexo (portulanos 5)

agosto 10, 2011

“- Fala sério: você não vem aqui para caçar urso?”

Essa é uma piada clássica. Cá nos servirá para refletir sobre a justificativa clássica dos mercados. Hedge existe para reduzir riscos dos produtores. Os mercados servem para financiar as empresas. Sexo existe para a reprodução.

Façam a conta: quantas trepadas são executadas para cada filho que é produzido? Se originalmente, nalgum macaco distante, sexo visava a reprodução, cá entre nós é artifício remoto. Aliás, o sexo como identidade, como discurso de afirmação na polis, é justamente aquele que prescinde totalmente de sua vinculação à reprodução: parada gay.

Sexo, portanto preenche outro papel. E hedge também. Esqueçamos a história da carochinha do agricultor querendo garantir seu preço e do especulador querendo correr o risco. Quase todo mundo que está no mercado está para ganhar dinheiro e não se defender de um risco para seu negócio físico. Para ter prazer imediato e não se perpetuar enquanto carne no tempo bíblico-darwiniano, portanto.

A imagem que eu usava há uns três anos para explicar derivativos e seu papel na crise era esta: o episódio the muffin tops de Seinfeld. No caso, todo mundo quer o top of the muffin, ninguém quer o corpo denso e sem graça do bolinho. Qual seja: todo mundo quer a parte de “rentabilidade” dos papéis e não o custo de carregar o papel. Isto vale tanto para mendigos quanto para fundos de pensão. Portanto, o mercado fornece isso, um mundo sem papéis físicos, um mundo em que ninguém precisa arcar com o custo de carregar as ações ou os grãos para que se tenha a “rentabilidade”.

Voltando às imagens sexuais, o mercado hoje é uma casa de swing na qual não há restrições na entrada de homens desacompanhados. Raros se dão bem e por vezes degenera em gang bang (tipo o caso da AIG). Sabendo as pessoas de que na verdade se trata de um quarto escuro, beleza. Mas a versão oficial ainda é de que se trata de uma caçada.

A bolsa

agosto 8, 2011

Pelo visto estão antecipando o dia de ações de graça.

Piada antes que saia

agosto 4, 2011

Isso é uma gracinha que escrevi tem prá mais de ano, pedacinho de um texto numa série de posts sobre defesa que um dia ainda público. Antes que perca a validade, cá vai.

Tradução:

NJ: Então, o que você acha, Gil? Um Dassault é sempre maneiro.
GM: O que o garoto vai fazer lá na nossa casa?
NJ: O Cara precisa de alguém lá depois de 2010. O F/A-18 é fuderoso, mas os caras que tem em geral não são.
GM: Mas o cara não te pegou para vice
NJ: o Grippen é sexy – se você quer alcance curto. O que você acha?

Original:

Brian: So what do you think, Mikey? The jeep is always hot.
Michael: What does he doin’ in your place?
Brian: He need to stay somewhere. The audi is a fuck machine, but the guys that drive them usually aren’t.
Michael: His dad almost beat the shit out of you.
Brian: The Boxster’s sexy — if you have a little dick. What do you think?