IMVHO, a melhor observação de Marx para entender os detalhes da atual crise americana não está em sua obra econômica, mas na obra política.
“Donations and loans — the financial science of the lumpen proletariat, whether of high degree or low, is restricted to this.” (cap 4 do Brumário)
A história americana da década de 30 para cá tem sido uma negação da luta de classes. Essa negação passou por uma transformação, que eu chutaria operada pelo/no âmbito do fordismo, da identidade do cidadão. Ao invés da identidade definida pelo seu papel de produtor, os consumos materiais e simbólicos passaram a dizer quem os americanos são.
Nesse sentido, essa discussão que rola no Krugman, que é uma variante do problema que está descrito neste gráfico (evolução de dívida das famílias, que pode ser vista numa série mais extensa e com outras discussões ainda mais interessantes neste post recente no Seeking Alpha). E, no fundo, o que está por trás do gráfico neste post do Naked Capitalism. E que, noutro sentido, desse post do Salmon.
Qual seja: a sociedade americana resolveu seu problema de conflito de classes (e intra-classes no caso das pessoas jurídicas), transformando-se, no fundo, no paraíso do lúmpen. Assim sendo, o assalto ao futuro abriu a possibilidade transformação de ativos e fluxos em renda imediata, uma forma indolor e invisível de se retirar as pressões políticas e inflacionárias por um melhor padrão de vida. Esse veio, não por uma melhor distribuição de renda, mas pela via do endividamento, do valor presente. É sintomático que, voltando ao gráfico no Yves, tenha sido exatamente a era dos junk bonds como “heróis do capitalismo” o início dessa tendência, no fundo, inflacionária, para a economia americana como um todo. Uma inflação não financeira, mas nas expectativas, nos ativos.
E se os empréstimos agora começam a falhar, tenta-se os tax rebates. Donativos e empréstimos, donativos e empréstimos. Let a thousand new new bubbles blow, para manter o espírito olímpico.
Duas frase adiante, Marx, como se estivesse, um século e meio depois, escrevendo para o The Daily Show ou o The Onion: “Never has a pretender speculated more stupidly on the stupidity of the masses“.
Puro Nostradamus!
Agosto 26, 2008 às 1:06 pm |
Samurai, um dia você acerta a data do fim do capitalismo…
Agosto 26, 2008 às 3:32 pm |
Meu caro, mas quem disse que o capitalismo acaba. Mas quem disse que é sempre o mesmo. Fênix, ali zona, diria um oriental trocadilhesco.
Agosto 26, 2008 às 10:50 pm |
E o socialismo??
Dezembro 19, 2008 às 2:43 am |
[...] bem, os EUA descobrem que não podem mais enganar os seus proletários e ser superpotencia ao mesmo tempo, e perigam afundar o resto do mundo junto. Mas o que me deixa [...]