Seleção Madraçal

Julho 10, 2009 by samurainoutono

Sai de casa de manhã e, como de costume, está lá o porteiro com a Bíblia aberta.

Houve um tempo em que a Bíblia não estava disponível ao acesso das massas. Havia barreiras de linguagem, de educação, de disponibilidade de livros. As folhas de Ossãe foram espalhadas por Lutero e Gutemberg, mas a capacidade de lê-las e pô-las em contexto não o foi.

Essa forma de ignorância que é o acesso literal e direto - por porteiros e por jogadores de futebol, por exemplo (dois grupos de pessoas cujo discurso por vezes invade meu cotidiano à minha revelia) - a um texto complexo, confuso e com dezenove séculos de comentários que lhe dão sentido quando traduzido, imvho, é danosa. Há coisas que no original foram rimas, há coisas que foram matemática, há coisas que são afirmação cultural, tal qual Camões. Mas para quem qualquer palavra impressa é verdade (e no caso, Verdade), e que não tenha o hábito de contrapor o que leu aqui com o que leu ali com o que sabe não leu acolá… problemas, meus caros, problemas.

Como, por exemplo, a invasão de espaços da vida pública por grupamentos evangélicos. Ela não se dá por evangélicos em geral, coisa que não existe, mas se dá por organizações específicas. E algumas dessas organizações específicas vão usar de todos os recursos possíveis,  pois porque se estão fazendo aquilo é porque deus lo volt. Por exemplo, esse caso da “tomada” da CPI da pedofilia pela Renascer. Ou a comemoração da seleção brasileira no final da Copa das Confederações, tipo da coisa que um dia há de trazer problemas para a seleção brasileira.

Respondendo a minha querida amiga (e torcedora do Madrid) Anlene, fosse eu dirigente da CBF Lúcio não seria mais capitão da Seleção Brasileira. E espero que Kaká tenha o bom senso de dedicar apenas seu dízimo à Renascer. A igreja católica de Castela não me parece (a distância) ser particularmente moderna, e dificilmente será condescendente com um Valerón galáctico.

Imprensa trocada

Julho 8, 2009 by samurainoutono

Vendo esse post no Balloon Juice caiu uma ficha: aquela imprensa que não tem obrigações de um relacionamento amistoso e continuado com o objeto relatado é capaz de realizar boas reportagens investigativas. Por isso que a Vanity Fair e a Rolling Stones, citadas cripticamente no artigo, tem hoje alguns dos melhores textos da imprensa americana.

Pena que isso não aconteça por aqui.

Deep Thought – Donde es Te – Gulp! – cigalpa?

Julho 8, 2009 by samurainoutono

Será que o negrito tem um big stick?

O jardim dos concursos que se bifurcam

Julho 8, 2009 by samurainoutono

Lá no meu amigo Hermê vem um par de discussões envolvendo funcionalismo público, salário etc. Bem, alerto que sou um membro lato senso do funcionalismo concursado da União. E acho que o vasto público não consegue, digamos assim, ter uma visão formal do processo de escolha que leva ao caminho público ou ao privado. Façamos de conta que somos todos fgvistas defendendo um ponto do estrito interesse do mercado, qual seja, modelemos (mas sem chegarmos em equações, pois eu sou um lazy barnabé que não sabe fazer essas coisas no wordpress).

Uma vez concluídos os estudos, o futuro profissional tem duas opções:

Opção 1 –  setor público: o concursado recebe uma perpetuidade, sem grandes variações ao longo do tempo. Qualquer variação mais significativa vai depender do schmérito (categoria que será explicada posteriormente em outro post) do funcionário. A proposta é atraente porque permite construir uma vida estável e de qualidade logo de cara. Mas, salvo corrupção, não há scalability alguma, para usar o termo do Taleb. É aquilo e ponto final, até a morte. Em alguns momentos o poder aquisitivo cai um pouco, mas após alguns anos se recompõe, portanto, suponhamos a estabilidade até a morte.

Opção 2 –  setor privado: o trainee, profissional liberal ou o que quer que seja o formato com que pessoa se encaixe no mercado, recebe uma remuneração, por vezes chamada de salário. Essa remuneração tem uma variância maior que a do setor público. Essa remuneração tem uma incerteza maior que a do setor público – as chances de desemprego são maiores. Essa remuneração exige algum tipo de poupança para cobrir a aposentadoria.

A princípio, o valor presente da série no segundo caso deve ser maior do que no primeiro. Há um prêmio de risco a ser pago aos que estão no mercado. Há certamente outros fatores intervenientes (como por exemplo, os benefícios simbólicos e de satisfação que fazem com que pessoas virem professores universitários ou perversos semelhantes), mas deixemos eles de lado para não complicar o modelo. Portanto, bastaria (aparentemente) fazer-se um pequeno estudo para verificar se o modelo acima é pertinente, e qual seria o prêmio de risco pago pelo mercado (ou verificar que o setor público paga absurdamente, pois a série do funcionário público seria maior).

Admitindo que a série privada seja mais valiosa, os dois fatores que suponho explicariam a opção entre um caminho e outro poderiam ambos ser definidos como o maior conservadorismo do optante pelo setor público, que consideraria a incerteza maior que a do grupo que optou pelo mercado; e/ou que descontaria o futuro com uma taxa maior.

Bem, para começar, e aí é que está parte significativa do problema dessa discussão pelo grande público, em qualquer estudo de verificação de uma hipótese como a descrita acima a comparação não deve ser feita entre membros de uma profissão (digamos formados em direito) mas entre alunos da mesma turma (pessoas formadas em direito na UFRJ em 90, por exemplo). Por que? Porque a comparação tem que ser feita entre material humano equivalente e, creio, há uma diferença entre Oxford e a Bolívia. A questão está em comparar a escolha de life plan de um indivíduo (lembrem-se, somos fgvistas, quem sabe até Mises-em-cínicos), e não cair em generalidades de botequim.

Nunca vi um estudo construído assim, comparando escolhas de carreiras entre iguais (quem tiver visto, feito cá no Brasil, me informe). Não adianta dizer quanto ganha um promotor versus um advogado médio, mediano ou modal. IMO, o serviço público não recruta, nem deve recrutar entre os “m”s (e aqui sei que provavelmente vai aparecer o espirito santroll reclamando do meu elitismo na minha caixa de comentários). Se o objetivo for esse, façamos a abolição do concurso e institua-se a loteria para escolha dos funcionários públicos (particularmente, a loteria é meu método predileto para contrapor alguns casos de schmérito político e corporativo, mas isso é outro post).

Você quer que seu juiz seja alguém que entrou no serviço público por qual processo, concurso ou sorteio?

PS: para aqueles que acreditam que o salário de entrada poderia ser menor, eu dou dois argumentos: não costuma haver diferença significativa entre o trabalho dos razoavelmente novos e dos experientes, o que, portanto, acabaria sendo uma discriminação contra os mais novos; e, cinicamente, uma vez que o cara já está costumado a um padrão, as chances dele pular fora do setor público para ganhar mais (a menos que seja MUITO mais) torna-se cada vez menor, e, portanto, foda-se o funcionário público tem agora filhos e desejos, o salário é esse e é isso aí – você optou pela segurança e não por férias em Bali e carro bacana, como aquele seu colega de turma que trabalha num banco privado.

IMVHO, a melhor forma de prover o setor público dos melhores profissionais possíveis e fazer concurso em momentos de retração econômica. Pagando o melhor flypaper possível.

deep thought – CNN

Julho 2, 2009 by samurainoutono

E eis que descubro, graças ao ilustre vice-presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa, o significado de CNN: Chavez News Network.

Dora, a explanadora

Julho 2, 2009 by samurainoutono

Lá no Nassif, o próprio se pergunta sobre a lógica de Dora Kramer. É simples, muito simples: basta olhar qual é a agenda do momento da loja do Grande Partido de Pernambuco. Qual a barbaridade que Jungmann e Roberto Freire estiverem cometendo no momento, qual duplipensar pragmático-oportunista que justifique seu alinhamento político

Olhe para Jungmann e Freire: lá estará Dora. (BTW, Noblat também tem um certo alinhamento com essa loja)

Alma sem batismo, o Virgílio não irá além do purgatório, já que o paraíso estará povoado por pessoas como Beatriz. Mas os Siths de Higienópolis e adjacências lhe arranjarão algum canto.

Uma intuição despropositada sobre o Irã etc

Junho 23, 2009 by samurainoutono

Madrugada retrasada, miolo de uma breve troca de idéias com o Luciano:

Samurai:

Exércitos não gostam de paramilitares; hierarquias religiosas não gostam de parvenus.
O Mousavi sabe que não podem encostar nele: ele é da
família do profeta

Reflexões:

Pois é.
Por isso acho estranho isso tudo. Soube que Mousavi assinou a sentença de morte de sete mil dissidentes no final da guerra com o Iraque. Um cara desses é das “internas”. Nào estaria agindo assim sem algum nível de autorização.

Samurai:

Luciano, só porque um grupo está no poder e esteja à direita não quer dizer que ele é o grupo conservador…

Se tiver que apostar em algum black swan no Irã, é algum tipo de golpe militar. Não sei precisar para que lado.

Enquanto isso o Conde de Cascais manda-me a notícia de que aquelas gentis empresas escandinavas de equipamentos de telecomunicação estão cooperando num sub-Echelon do governo iraniano. Um boicote a elas poderia ser uma interessante iniciativa no futuro. Até porque medidas mais absurdas de circulação estão acontecendo, como as exigências do governo chinês para os fabricantes de computadores.

Os ovos da serpente chocaram

Junho 17, 2009 by samurainoutono

Primeiro foi o assassinato do Dr. Tiller, um raro praticante remanescente de late term abortions (aquilo que se faz quando você descobre que o bebê em sua barriga tem anencefalia, por exemplo, mas que é a forma mais telegênica de propaganda contra o aborto dos cristãos teocratas). No blog do Andrew Sullivan há um monte de histórias dessas, de casos envolvendo o dr. Tiller e/ou de abortos no periodo final de gravidez. Extremamente tocantes, tendo tempo, valem o passeio. Não que o Sullivan seja inocente nessa história, como bem mostra esse delicioso post, que me fez lembrar a caracterização dele feita num episódio da segunda temporada de Queer as Folk.

Depois houve o assassinato de um guarda no Museu do Holocausto em Washington.

Agora teve essa surreal situação do grupo neo-nazista assaltando casa de traficantes para o “movimento”.

Os órfãos de Palin começam a evoluir para a violência. É só o começo. Terá sido Carnivàle uma alegoria do futuro?

Farsa em Farsi

Junho 17, 2009 by samurainoutono

Os dias tem sido muito atarefados por aqui, amigo Hermê, e esse comentário que venho escrevendo desde sexta só sai hoje. Você fez dois posts, NPTO também já tratou do assunto, mas deixa eu fazer meu registro.

A analogia é uma das formas mais arriscadas que há para se entender as coisas. Solução conservadora, burkeana, ela nos faz perder o que há de específico, a lição de Tolstoi de que cada família infeliz é infeliz ao seu modo.

Glen Greenwald (para quem não conhece, um dos mais interessantes blogueiros da esquerda americana) fez o seguinte comentário, que nos é bem familiar, no fim de semana:

(4) Speaking of Iran, I don’t have any idea what really happened with its presidential election — if, as Juan Cole argues, there was widespread fraud, that would be entirely unsurprising — but Newsweek’s long-time Middle East reporter Christopher Dickey persuasively warns against the emerging assumption that the anti-Ahmedinejad views expressed by middle class and cosmopolitan Iranians and promoted by the Western press are representative of a majority of Iranians.  In Brazil, if you ask middle class, professional and/or educated Brazilians what they think of President Lula da Silva, you would conclude that he is an intensely despised figure, when — in reality — he is profoundly popular among a majority of Brazilians largely due to the deep support from that country’s poor and under-educated population (much the same way that you’d get vastly disparate responses if, in 2004, you went to Manhattan and then to rural Kansas and solicited opinions of George Bush).  Dickey suggests that the same dynamic exists in Iran.

E esse, creio, é um erro recorrente na análise de algumas pessoas da eleição no Irã. Um amigo cá do trabalho, por exemplo, me mandou esse texto ”round up the usual suspects” de esquerda ontem. Muito embora haja um claro interesse americano em mais uma revolução colorida (será Steve Jobs o gênio secreto que controla a política externa americana?), tudo indica que há uma farsa em curso.

No Moon of Alabama, um interessante blog de esquerda alemão, há a análise óbvia de classe, há perfeitas análises conspiratórias, há a suposição de que quiet americans estariam envolvidos (e aqui uma interessante observação do Irã como um dos afetados pelas “exportações” afegãs, coisa óbvia quando se pensa no assunto mas sobre a qual eu nunca li nada a respeito). É bem capaz que parte disso tenha acontecido, e está explicito o interesse do Departamento de Estado no uso político do twitter (será que eles suspenderão o serviço quando a revolução não for do interesse americano?)

No entanto, minha experiência em analisar dados eleitorais, ainda que um pouco enferrujada, sugere que o argumento do Juan Cole é difícil de ser rebatido. Resultados eleitorais não são regulares. Resultados eleitorais, a menos de alguma catástrofe bastante visível, não mudam abruptamente de uma hora para outra. Não há ali uma ilusão causada por diferenças de classe, como nos casos da Venezuela e da Tailândia.

Minha sugestão: esqueçam o noticiário e vão direto no Juan Cole. Durante o período de pique do conflito no Iraque era minha primeira leitura diária.

No mais, o Sullivan está em frenesi com esse “levante”. Nada como uma causa confortável. Em que pese que as discussões que rolaram lá sobre o aborto foram interessantíssimas, mas isso é um assunto no qual eu estou ainda mais atrasado para postar (e do qual voc~e não tratou, caro Hermê). Quem sabe daqui a pouco.

Tears in the rain…

Junho 4, 2009 by samurainoutono

David Carradine deu os cinco passos, “abandonando voluntariamente a existência física” (frase genial de um professor de yoga de um amigo meu, quase três décadas atrás). Particularmente, sou de opinião que ele foi o ponto fraco de Kill Bill: tivesse sido Warren Beatty a fazer o papel, a natureza de sedutor de Bill seria mais explícita. Também faria mais sentido Bill como o irmão de Michael Madsen.

Me lembro de Kung Fu quando era criança, uma das séries mais icônicas que a TV já produziu. Me lembro de O Ovo da Serpente, talvez o mais assistível dos filmes a cores de Bergman. Jules Winnfield não vai mais encontrar com ele…

Enquanto isso, Rudyard e Zé Rodrix dão um longo passeio, amigos, a cabeça de Dravot a guiá-los.